O mito do comércio equilibrado

Pedro Sette-Câmara, aqui.

“Mas tergiverso, ou quase. Se o país não é uma pessoa, daí não se segue que o comércio entre países deva ser “equilibrado”, porque, recordando o amigo empresário, só para começar, não é entre países que o comércio acontece, mas entre empresas e consumidores. O país, ou melhor, o governo, está apenas taxando, fiscalizando e aporrinhando. E está violando, com essa crença, a ancestral lei das vantagens comparativas, que diz que produz-se segundo a especialidade. Nossas excelsas autoridades recusam-se a dar vantagens comparativas para o Brasil mantendo um dos piores ambientes de negócios do mundo, e por essa razão as atividades mais lucrativas aqui em grande parte são as mesmas de há séculos: as extrativistas. O mesmo princípio de vantagens comparativas vale para pessoas, sob a forma de custo de oportunidade: se eu fosse parar de traduzir para construir os móveis que utilizo, bem.

Agora, digo-vos uma coisa. Se quiserdes conhecer tragédias de pessoas que foram e são forçadas por seus governos a pagar mais por produtos, a fim de favorecer descaradamente algum empresário local, simplesmente porque governos julgaram que deveriam “equilibrar as balanças comerciais”, isso ao mesmo tempo em que mantinham um ambiente de negócios viciados, basta que reinterpreteis o que sai nos suplementos de economia dos jornais. E se, depois disso, não vierdes nem mesmo uma pequena inclinação para o liberalismo comercial, então só posso dizer: ou tendes um coração de pedra, ou estais a ganhar com esse sistema.”