Do desapego virtuoso e puro das coisas materiais

Dentre outros modelos de justificativa social, a ociosidade do vagabundo-conscientizado talvez seja aquele que mais abranda o coração do homem urbano. Como que redimido por uma situação de decadência antes meramente material (ao mesmo tempo em que “denunciava” o consumo de bens que amparam a civilização), hoje o vagabundo tenta, pelas vias da sociologia-de-boteco, transferir seus motivos de existência para o próximo; seja na sua redenção particular, seja na formação de caricaturas piedosas. Eis que o vagabundo é o monge do Século XXI, com a desvantagem para o fato de que os monges exerciam e continuam a exercer atividades criteriosamente intelectuais.

O vagabundo da vez é a alemã Schwermer, conquistando corações ao redor do mundo e ensinando lições de compaixão, amor e esperança. Enfim, uma mulher pura. Diz a monja moderna que o que importa “não são coisas materiais, e sim a minha presença. Muita gente tem problemas ou está sozinha. Eu os escuto e os ajudo a pensar sobre o que querem fazer com suas vidas.”. Cai a foice na cabeça do culpado. O materialismo novamente julgado e condenado pelos vagabundos unidos de todo o mundo. Obviamente que a piedosa não quer ensinar seus truques no Congo; por que haveria, afinal? Que baste seu alívio das coisas materiais, mas a pobreza é um caso à parte. Ai do pobre que quer sair da pobreza produzindo e consumindo. Absurdo! Deveriam todos do Congo agir como age a monja europeia.

O fenômeno se reconfirma: vagabundo algum quer ser chamado de vagabundo, ao que pela mágica das palavras o ócio se transforma em labor e o vagabundo, em trabalhador. Todo flanelinha se acha um árduo trabalhador e exige sua recompensa. Afirma a amorosa e humanista mulher: “é verdade que são os outros que ganham salários para pagar o que eu como, mas eu também trabalho todos os dias. Faço coisas para as pessoas. No mundo ocidental há muitas pessoas que se sentem isoladas, e eu as ajudo com minha presença. Posso ser uma mãe, uma irmã, uma amiga, o que precisarem. Quem diz isso é porque vive no velho sistema, mas tudo vai mudar”. Claro que é verdade, chamaria de louca se se negasse a reconhecer seu estado parasitário. Diria seus pares que pessoas que a acusam não entendem as virtudes de seus atos, com um toque anti-consumo característico dos revolucionários que vestem Ralph Lauren [doado].

Ao menos na notícia restou claro que a ociosa está em descrédito, [in]felizmente não em mesmo patamar de outros vagabundos politizados como Leonardo Boff, Ricardo Gondim e Paulo Freire, este um marco da nossa decadência educacional. Já diziam os economistas austríacos que ocioso é aquele também que promove intelectualmente a vagabundagem (daí a bem vinda discriminação a todo indivíduo que se acha no direito natural em ser custeado). O vagabundo latino, contudo, promove o ócio melhor que ninguém, pois é cara-de-pau e faz a práxis desde os idos getulistas. A alemã em questão ainda é inocente e não entende das estratégias essenciais da luta contra o mercado. Fala do sistema, mas nada muito além das obviedades do colegial. Porém Boff, Freire e até mesmo mulheres pudicas como Marilena Chauí e Marina Silva – para citar figuras popularmente conhecidas – são mestres na promoção da pobreza; o pobre e a ausência de bens materiais é uma virtude até que se diga o contrário: o pobre que sai da pobreza é o homem falho que se debruçou nas luxúrias do consumo.

Por isso acordam eles em prantos todas as manhãs pelas misérias da África? Desconheço. Mas o fato é que não traz ibope afirmar que é mais fácil por lá encontrar um ditador comunista que um empresário. Não obstante saiba você, leitor, que o discurso está com seus dias contados, porquanto diluído em tudo o que se imagina inserto no sistema. Como que transmutado para novos limiares, o que se originou em firmes palavras de maconheiros gringos hoje alarda as emoções de qualquer homem conscientizado. A luta pelo sistema é a luta para melhores justificativas do motivo pelo qual o empreendedor é um homem malvado, degradante e consumista.

Talvez precisemos de mais bondosos estadistas do século XX nestes dias obscuros de tanto apego às coisas materiais.