A filosofia a caminho

“Filosofia e seu inverso”, de Olavo de Carvalho, já a caminho. Assim como nas análises feitas sobre a obra “Maquiavel e a confusão demoníaca“, as quais, assumo, estão ainda incompletas, pretendo fazer algumas considerações sobre esse novo livro o mais breve possível. Dependendo do gosto e da amplitude dos assuntos abordados, preparem-se. Serão longos dias lendo aqui sobre o mesmo assunto. Questionamentos são bem-vindos e, apesar de não ser praxe de minha parte, pretendo publicá-los se realmente pertinentes. 

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O que nos ensinam os assassinos de mandiocas?

À evidência de que o humanismo persevera no mundo sempre com o apoio de discursos salvacionistas, em substituição das virtudes individuais pelos atos que se justificam coletivamente, é cristalina a necessidade do vegetarianismo em se impor não somente como um fenômeno de dieta, mas também como o espiritualismo que se expande infecciosamente a tudo e todos. Essa pretensão que coaduna a dieta ao espírito se tornou a sentença inefável do discurso vegetariano. Quando ainda restrito ao mero hábito alimentício, tinha o vegetarianismo o jargão da saúde plena e não apresentava o alimento enquanto caminho entre o homem e o divino. Contudo, como qualquer movimento que se subentende espirituoso, porém nunca religioso, eis que os vegetarianos incutiram na dieta a saúde não somente física, mas também espiritual. A mínima controvérsia em torno do vegetarianismo enquanto fator de espírito equivale a desrespeitar verdadeiras convicções religiosas, mas sob a cautela de não ser expressada as advertências de uma vida ecologicamente equilibrada.

Creio ter algumas dezenas de textos argumentando sobre o fenômeno, mas nada convence mais um humano que ver como determinada tribo africana guarda sua carne: cortando as patas do animal [sem anestesia, é bom que se explique], para assim não deixá-lo caminhar mato adentro. Crueldade! O vídeo, que faz chorar em prantos qualquer vegetariano, revela o motivo pelo qual o homem tende a ignorar o sofrimento animal quando o que existe entre seu estômago e o belo gado é a fome predominante. Recitando louvores de ode à civilização, questionam o pudicos: “eles não conhecem maneiras de conservação da carne?”. A higiene aflora na primeira investida, e o vegetariano que um dia condenou o homem ocidental agora preza pelo ocidentalismo quando o assunto envolve o primitivismo tribal.

“O homem evoluiu e não precisamos mais de carne”, diz o sábio. Outro, “a natureza humana é sempre assassina”, analisa o assassino de mandiocas. Mas apenas um dentre centenas, ainda que vegetariano, revelou o óbvio das entranhas de tamanha barbárie: “se não têm o que comer, que comam carne”.

Não os condeno. Na falta do que fazer, por que não encher o saco de praticamente toda a humanidade?

Rand e a perversidade do homem

O objetivismo de Rand significa, resumidamente, a objetividade moral da razão e, além, a objetividade da razão em face da realidade objetiva: aquela que existe mas que, quando ainda indescoberta, é tão somente ignorada pelo homem. A realidade seria, portanto, inegável, imutável e irrefutável, mantida em um estado inerte tão somente por sua ignorância da percepção externa ou, como dito, de seus fenômenos evidentes. Interpretações não alteram a realidade; são, sim, subjetividades perante sua imutabilidade. O teor dessa tese não merece descrédito e a minha simpatia pelas teses randianas parte do princípio de que Rand, ao propor uma estrutura de virtudes e uma moral racional, concebeu de Aristóteles aquilo que foi melhor explicado por Aquino. Ela, inclusive, credita a Aristóteles sua filosofia.

Ou seja, ainda que equivocada na elevação subliminar da razão a um status de “divinização” objetiva, fruto puramente humano, a estrutura de justificativa da racionalidade objetiva foi e é também uma estrutura pela qual se pode conceber a moral objetiva divina que, para os cristão, foi-nos revelada pelo Deus judaico. A objetivação é inegável; bastemos deduzir de sua estrutura qual seria o fundamento irremovível da virtude humana: a moral racional objetiva, da qual decorreria todas as outras virtudes? Ou a moral objetiva universal, consentida enquanto vontade divina e, no decálogo mosaico, então revelada diretamente por Deus?

Vejam a seguinte citação:

“Anarchy, as a political concept, is a naive floating abstraction: . . . a society without an organized government would be at the mercy of the first criminal who came along and who would precipitate it into the chaos of gang warfare. But the possibility of human immorality is not the only objection to anarchy: even a society whose every member were fully rational and faultlessly moral, could not function in a state of anarchy; it is the need of objective laws and of an arbiter for honest disagreements among men that necessitates the establishment of a government. Ayn Rand, “The Nature of Government,” The Virtue of Selfishness, 112.”

Quid pro quo, razão e moral são colocados lado a lado em uma relação direta de manutenção da estrutura social, forma pela qual a anarquia seria a inevitável constatação da oposição à objetividade de Rand. Contudo, a análise baseada na religião adéqua-se plenamente a essa equiparação objetiva, com o detalhe basilar de que a moral da sociedade mencionada somente se daria por meio da moral cristã. Enquanto que para Rand a imoralidade máxima é a negação deliberada das virtudes as quais foram por ela definidas (razão objetiva e realidade objetiva), ao religioso a imoralidade máxima decorre do descumprimento deliberado das virtudes que, uma vez reveladas, seriam descumpridas tão somente pela perversidade pecaminosa do homem.

A associação é imediata: de Rand, imoral seria o homem que subutiliza ou menospreza a razão para o entendimento da realidade objetiva (o que ocasionaria a perversidade moral inevitável) e, no aspecto religioso, o imoral que menospreza e deprime a moral objetivada na revelação divina.

Ainda que concepções intrinsecamente dissociadas e distantes, são complementares no momento em que a moral, sistematizada pela razão, tem no fundamento religioso sua manutenção teórica. Ao cristão, mesmo sendo a imoralidade uma relação direta entre a depravação humana total e suas consequências no âmbito metafísico/espiritual, a razão seria mero instrumento filosófico, enquanto que para o objetivista a razão seria o fim em si mesmo da moral e virtude humanas.

Importante notar que a maior crítica feita a Ayn Rand por aqueles que a admiram parte da ideia de que se uma vez objetivada a moralidade, também objetiva-se a imoralidade. Fecha-se o leque do subjetivismo e do relativismo, o qual não tem espaço no racionalismo randiano. O mesmo ocorre com a moral cristã: objetivada, sua transposição culminaria inevitavelmente na perversidade humana que, pelo relato de Gênesis, bem fez do homem aquele que deprava e aquele que é depravado para, por fim, reconhecer-se necessitado da misericórdia divina. Faltou a Rand apenas a extensão de sua ideia aristotélica à teologia ditada por Aquino. Mas tenho certeza que Rand não o ignorava por completo.

“A filosofia e seu inverso” – com certeza na lista de leituras

(Texto de autoria de Rodrigo Gurgel nas orelhas do livro)

“O que é pensar? O que une Kant às decisões da ONU em favor de um governo global? Por que o culto da ciência “começa na ignorância do que seja a razão e culmina no apelo explícito à autoridade do irracional”? Essas e outras questões são respondidas por Olavo de Carvalho neste livro que reúne alguns de seus textos produzidos nos últimos anos.

Mas devemos ler Olavo de Carvalho? Há duas respostas possíveis: a dos seus detratores, sempre negativa. E a dos que se recusam a aceitar o doutrinamento da Weltanschauung pós-moderna, que, amealhando adeptos entre liberais e esquerdistas, baseia-se num tripé corruptor: relativismo, hedonismo e ateísmo.

Olavo sabe que, para uma efetiva resistência cultural, os que desejam se manter lúcidos devem possuir um corpo teórico consistente, capaz de apresentar respostas persuasivas ao mundo de falso desvanecimento do homem contemporâneo e de advogar em defesa da verdade, o valor mais vilipendiado nos dias atuais.

Assim, frente aos ideólogos cujo objetivo é nos convencer de que princípios e valores são obstáculos à liberdade, Olavo denuncia a ditadura do relativismo – a arma que restou à esquerda diante do fracasso da ditadura do proletariado. E o faz com seu estilo característico, que lhe permite, como ele mesmo diz, “transitar livremente entre o discurso acadêmico e a voz do coração”, movido por seu objetivo “quase obsessivo: a busca do Supremo Bem”.

Nada é pequeno neste livro. A resposta a certos polemistas transforma-se nos degraus que Olavo transpõe para ensinar arquitetura gótica ou recolocar a lógica como elemento acessório da produção filosófica. Desmonta Martial Guéroult, presta tributo à inesquecível figura de Stanislavs Ladusãns, rebate Peter Singer, Richard Dawkins e outros pseudoluminares. E o faz seguindo o método que propõe a seus alunos: espantar-se frente à realidade da experiência.

Mas não só. Olavo de Carvalho nos recorda que não esquecer nossa condição mortal é o ponto de partida da investigação metafísica. Aqui, ele ultrapassa a filosofia – e assemelha-se aos mestres da espiritualidade monástica, que recomendam a reflexão sobre a própria morte para curar uma das mais nocivas doenças da alma: a acídia.”

Da crescente ridicularização do Nada

Escrito em 11 de fevereiro de 2011, após breve conversa com os incrédulos [rs].

Em uma conversa sobre a decadência intelectual da mentalização positiva o assunto enveredou para a seguinte questão: qual é a razão da crescente [e exponencial] ridicularização do esoterismo? Na roda composta por uma maioria de ateus era evidente que a resposta se daria no aspecto resumidamente material, que abrangeria desde o caráter anti-intelectualizado do fenômeno esotérico até sua previsibilidade moderna. Enganei-me. Ateus, então sabidos de minha condição como cristão, falaram com todas as letras que a ridicularização do esoterismo precede de sua própria falácia retórica, travestida de um aspecto espiritual.

Apesar da pertinência, era certo que o esoterismo também continha em si o amadorismo de todo movimento ocidental, mas que absorvia em si filosofias orientais. Pois que, com o advento de métodos ditos racionais, o esoterismo espirituoso tenta agora ser o esoterismo científico, este que comprova “pela ciência” teorias metafísicas e utilitárias à “alma daqueles que estão ligados a um Ser Superior”. Vou mais além: não à toa que o esoterismo é ridicularizado não somente no ocidente, onde encontra seu maior público cativo, mas também no próprio oriente, que vê no discurso esotérico o empobrecimento das virtudes lecionadas por budistas e hindus. É dessas terras inclusive que se encontram os melhores pensamentos sobre a irrelevância do esoterismo no oriente, tal qual a deturpação das religiões orientais, no ocidente, pelo esoterismo.

Arrisco ir mais além, se me permitem. A tentativa do esoterismo em sempre se acoplar a fenômenos históricos de outras religiões era no início aceitável por sua novidade. Toda novidade tem seu tempo ao glamour. Contudo, hoje tais afirmações são motivos de leves risos, quase imperceptíveis, revelando sua depreciação até mesmo entre as camadas intelectuais mais baixas. Dos faraós aos maias, de Jesus Cristo a Maomé, o esoterismo tenta se infiltrar, mediante concepções já ultrapassadas, em todos os grandes nomes da História, no esbravejo de que eles foram [ou são] conhecedores dos mistérios esotéricos ainda não totalmente revelados. Não ouso afirmar que dessa investida esotérica haja má-fé, dissimulação ou outras adjetivações.

Limito-me, todavia, a dizer que a ingenuidade da mente esotérica é ela mesma um de seus grandes pilares, que por fim sustentam toda sorte de argumentações dotadas de um estigma ideológico facilmente identificável. Isso fica mais evidente quando estudiosos dos astros afirmam que o esoterismo representa a decadência máxima da astrologia, ou quando o ocultista diz que o estudo esotérico é uma representação deturpada e falsificada das chamadas “ciências ocultas”. Ou seja, aqueles que os esotéricos mais apreciam ao final são os mesmos que repudiam e depreciam a mentalidade esotérica.

Enquanto o esoterismo tentou contaminar toda forma de pensamento espiritual, ao mesmo tempo em que trouxe uma justificatica científica, foi ele próprio excluído e rebaixado, de “terceira via”, a um subproduto do discurso espiritual. E por subprodução leia “aquilo que persiste no tempo, mas não na seriedade”.

É evidente que os próprios esotéricos perceberam que a credibilidade de seu movimento depende de uma retórica cientificista, que comprovaria, mediante a experimentação metodológica, os motivos que transcendem o conhecimento humano. Para tal será necessário abandonar determinados conceitos já ameninados, como o naturalismo ambientalista e a exaltação dos primitivos incivilizados.

Questão de sobrevivência.

Lições de civilização

Na GloboNews, a hilária relação entre o massacre de Colorado e a posse de armas pelos civis proporciona os risos não dos brasileiros, mas de americanos. Segundo a reportagem, a facilidade com que o jovem adquiriu munição e armas é algo inconcebível a nós, humanistas latinos e referência civilizatória. De uma forma mais branda, diz o circense que o caminho inevitável para menos criminalidade nos EUA é a proibição das armas de fogo e, pasmem, citando o Brasil como exemplo. Digamos que os números sejam sensatos: 200 milhões de habitantes e 50 mil mortes (desconsidero as últimas denúncias de falsificação das estatísticas de homicídio em alguns estados) contra 310 milhões de habitantes e 15 mil mortes (nos índices, constam inclusive as mortes culposas). Brasil, sempre na rabeira dos conselhos jornalísticos.