Funk e arte moderna são a mesma coisa

A crítica comumente feita ao estilo funk de música ganha volume na mesma pretensão do indivíduo que, ignorando Crime e Castigo de Dostoiévski, diz que entende os motivos homicidas de Raskolnikov com O Segredo de Rhonda Byrne no colo. Porém essa crítica ao funk brasileiro parte de duas esferas distintas, mas que tendem a convergir em um ponto de conivência e justificativa desse primitivo e bizarro estilo de expressão corporal. Das explicações mais comuns e plausíveis existe o fato de que hoje qualquer ocioso que tenha um compasso pode [“e tem o direito de”, para recitar os jornalecos] fabricar música. Como que impelido por um senso de arte robusto – tal qual o artista moderno -, o funkeiro profissional acha-se na nobre posição de transmitir suas emoções através do ritmo e letra [e tão só], maneira pela qual já se considera instantaneamente “músico”, mas nada muito distante das famosas expressões artísticas ugandenses, aliás bem similares à práxis brasileira.

Essa simplificação do objeto de apreciação, para depois complexá-lo nas aparências de algo muito sublime para ser entendido pelo leigo, parte da ideia básica de que a expressão artística se resume na explicação subjetiva da arte, e não na análise objetiva das virtudes da obra. O funk, digo em meias palavras, é tido como música pela dubiedade daquilo que propõe; e temos de ser sensatos em admitir que esse estilo rítmico, primitivo e tribal conseguiu o almejado. Ou seja, o funkeiro é o artista pelas causalidades de qualquer que seja o ato bizarro, porquanto tido pelas massas ululantes enquanto “estilo musical” das gentes simples e sem instrução. Isso porque iliteralidade e subcultura estão essencialmente atrelados ao ritmo funk, não sendo desproposital afirmar que todos, absolutamente todos os funkeiros possuem uma capacidade viral e deletéria do ambiente que o circunda. Enquanto agente de degradação e depreciação social, o apreciador do funk brasileiro acomoda-se também em ser considerado um problema coletivo, ao que o mesmo se considera detentor de alguma virtude ou adjetivação de seus observadores.

Contudo, o apreciador da arte moderna explica pelas iguais e idênticas razões do funkeiro os motivos de sua intermitência crítica, na índole de dignificar essa arte que necessita ser explicada. Uma vez que sua subjetividade é característica elementar dos elogios sem fim, e uma vez que a arte moderna consegue produzir e reproduzir qualquer besteira sem nexo [mas sempre explicado em sorriso mais sincero], é certo que seus apreciadores se colocam numa estirpe técnica mais elevada, não obstante apurada, justamente por teorizarem sobre o nada ou, como dito, o “abstrato”.

[A abstração na arte moderna é o relativismo filosófico, mas também religioso: o “nada” representa o “tudo”. Falo disso em outra oportunidade.]

De forma que a pretensão de superioridade da arte moderna sobre a arte clássica exclui em definitivo a capacidade real de produção artística para a interferência das explicações subjetivas infindáveis. No subjetivismo que necessita de explicação é que se faz o alicerce da crítica à arte clássica, considerada por demais óbvia e uma retratação meramente estética da realidade. A perfeição e os cuidados do artista seriam então meros caprichos mesquinhos perante a grandiosidade da arte abstrata e subjetivista, assim chamada “moderna”, pois que vinculada aos anseios dos “conflitos modernos”.

Seria a arte moderna o funk do meio artístico? É notória a elevação cultural dos apreciadores da arte moderna, pois que insertos em um cenário favorável à higiene e civilização. Mas o primitivismo dos funkeiros não é excludente dos pecados do artista moderno, este que tem o prestígio da maioria, mas não de todos. A frase “isso não é arte” não é desproposital e mera alegação do inculto: antes representa a sincera análise daquilo que, de fato, é arte somente por meio dos critérios relativistas da modernidade, os quais amparam o desconstrucionismo filosófico.

Um porco que escarra tinta na tela ou o vento que permite alguns respingos merece indubitavelmente boas justificativas para ser considerado arte.

Se a arte moderna já está sendo analisada como a morte da arte objetiva, justamente pelo empobrecimento de suas técnicas mediante justificativas muitas vezes insanas, de igual forma o funk é considerado o coma da música, justamente por se declarar “música” ao tempo em que não passa de uma empolgação criada por sujeitos sem qualquer capacidade razoável de expressão artística. Se posso considerar o funk como a anti-música (ou a negação máxima da expressão artística musical), em mesmo norte posso também conduzir vocês, caros leitores, a imaginar a arte moderna enquanto anti-arte, porquanto fundamento e razão da decadência dos valores artísticos clássicos.

Prevendo algumas ressalvas de sempre, é certeza absoluta que a arte clássica, assim como a música progressiva, não é entendida por sua complexidade. O funk e a arte moderna são simplórios, inobstantemente simplistas e decadentes, mas oriundos de uma esfera de explicações subjetivas de fato complexas.

O nosso dilema? Explique bem, explique com virulência, sentimentos poéticos e, mágica, surge o artista moderno.