Cúpula dos Povos testa a paciência de todos os povos

Apesar dos avisos das iluminadas mentes antes citadas, assumo que a Rio+20 representa o menor dos problemas. Menor por ser uma reunião meramente discursiva e proselitista, ainda amparada no bom-senso dos limites econômicos das nações e, não obstante, também escorada na não obrigatoriedade moral de uma nação financiar outra pelas vias das desculpas sustentáveis. Apesar de um fenômeno corrente na Europa, a balela pietista de que certas nações se privilegiam pela exploração de outros povos é sempre um assunto de grandes paixões em eventos do estilo, principalmente quando sediado em países culturalmente subdesenvolvidos.

Contudo, os adolescentes da Cúpula dos Povos têm ambições mais ameninadas e latinas, e por isso mais espalhafatosas. Como que gritando pelo pirulito que deleita na mão da matriarca, a Cúpula dos Povos tende ao que se chama “o berro da criança mimada”, a qual neste caso é a criança que de mão dada à Rio+20 tenta de uma forma ou de outra estabelecer critérios mais, digamos, “universais”. Sombra ofuscada da Rio+20, e totalmente irrelevante no cenário mundial, a Cúpula dos Povos tenta me convencer de que eu, eu próprio, quero certas coisas que não estou disposto a entender.

A declaração final da Cúpula dos Povos não se distancia de qualquer material didático de ensino médio, principalmente das análises dos “aspectos globais” nas aulas de Geografia. O vitimismo – essa característica coletivista tão comum que se faz rudimentar em qualquer manifestação do estilo – é patente, tal qual a encenação e os discursos teatrais que vinculam o homem civilizado (em suma, o consumista) àquele que promove toda sorte de degradações, sejam morais, sejam ambientais.

Perdidos mas alegres como um comunista na primeira visita à feira de automóveis de Frankfurt, a Cúpula dos Povos não se safa de suas reais intenções, denunciando “a verdadeira causa estrutural da crise global: o sistema capitalista patriarcal, racista e homofóbico” [ouço gritinhos histéricos de uma revolta antiburguesa]. A tríade é clássica.

Desnecessário elencar outras afirmações adolescentes da cúpula. É saber que os discursos ambientalistas e ecológicos, quando amparados por um pedido  aparentemente moral, sempre e tão somente conseguem estruturação na luta que encampa os “degradadores da natureza”, aqueles que mencionados pelos discursos de fascistas, nazistas e comunistas eram os reais “detentores da propriedade privada”. Basta substituir algumas vítimas e opressores e, mágica, a idéologie se faz idênticaSem mistério algum, é evidente que essa luta de preservação abstrata de tudo e todos já tem suas aulas prontas em livros e mestres hoje sequer mencionados nos palanques dos conscientizados. Antes um ardor de orgulho na boca de estadistas, hoje uma petição erigida por qualquer candidato a mártir.

Ocorre que a ambição de um adolescente é grande. O adolescente contemporâneo acorda com planos sensacionais de como salvar o mundo da devastação iminente. Nada fora do normal. Mas falou a tal declaração no “Dia Mundial de Greve Geral”, ufanismo de grande pretensão, e também de grande ridicularismo.

Já avisei em diversos momentos que o ambientalismo estará um dia unido com o sindicalismo. Ambos não sobrevivem sem o estado, ambos não sobrevivem sem a manifestação conjunta de medidas sociais chamadas “educativas”, sempre implementadas pelos governos. As greves gerais recentemente vistas na Grécia também tinham uma conotação ecológica. Segundo os conscientizados de lá, o mundo clama por medidas de repressão ao consumo desvairado, o mesmo que conseguiu produzir um BMW que faz 30km/litro em regime urbano a preço de Gol tupiniquim. De igual sorte, clamam por uma mudança grotesca da ansiedade do homem em elevar seu padrão de qualidade de vida, o que infere inevitavelmente no aumento do poder de consumo. Da regra básica da economia doméstica não se foje; já se dizia, desde os idos da I Guerra Mundial, que a família é o principal problema de um governo.

Ou seja, a conscientização nunca esteve mais audaciosa, ao ponto da audácia se travestir na meninice esquerdista. Por um lado, demonstra-se e revela-se que o ambientalismo não escapa de suas raízes, fato o qual já ressaltei em momentos oportunos. D’outro lado, figuram-se as conferências ecológicas na politização a que se deram trabalho, fenômeno este realmente importante: por décadas o ambientalismo tentou se esquivar da política. Hoje, não existe ecologia sem estado, impostos, regulações e licenças.

Aplausos a todos os sonhadores.