Nada mais verdadeiro

Em cena rara de se ver por estas terras de homens preocupados com sacolinhas plásticas, eis que um apresentador de TV nos revela o óbvio diante das câmeras: “o problema do Brasil é querer o igualitarismo em detrimento da vontade dos cidadãos”. Nada além dessa frase, e já partindo o fidalgo a outro assunto, assumo que não estava preparado a surpreendente e inédito aviso. Sabido eu que o brasileirismo é essencialmente coitadista, nada mais natural que a promoção de discursos igualitaristas, os quais têm sobre si uma conotação também de ávida seleção do sujeito opressor. Podem escolher, o leque é grande.

Mas em nada me interessa esse assunto; não há salvação a um povo que leva a sério as recomendações médicas de Dráuzio Varella.

E pensava eu que o interesse popular (cf. povo, bando, matilha, gado) já tinha abandonado o ideário mágico do direito [compulsório] ao voto enquanto fator determinante de solução dos problemas estruturais e políticos da nação. Na minha ignorância diante da circunstância, esquecer dessa característica básica e essencial dos povos subdesenvolvidos é como esquecer a brutalidade com o qual os nossos peidos podem trazer a destruição vindoura.

Levo-me a pensar se realmente há uma esperança intrínseca do bando brasileiro na bondade do voto, este que na esfera federal [para não citar as cidadezinhas em que as fossas são o que há de mais moderno] tem o poder de escolher entre um socialista e um social-democrata ou, na melhor das hipóteses, entre um ex-sindicalista e um ex-presidente da UNE. Dizem os mais conscientizados e de espírito-público que o voto é o exercício da cidadania. Mais estúpido, só mesmo os recentes textos de Genézio Darci.

O fato é que a vida privada no Brasil é secundária e vinculada na relação coercitiva da vida pública. A abstinência dos povos mais civilizados da urnas (fato alegado pela maioria como um exemplo maléfico a nós, tupinambás ultra-conscientizados) não significa o desinteresse na condução política da nação, mas um aviso ao estado de que este é irrelevante em proporcionar a qualidade de vida sempre e unicamente criada pelos interesses privados. Em suma, e parafraseando Rand, o homem civilizado é aquele que se afasta da vida pública/coletiva para se ater aos interesses privados vinculados à capacidade individual de inovação.

Faço coro ao Charles: comentar sobre política e problemas no Brasil é como querer discutir a relevância política de Evo Morales ou, senão d’outro modo, a importância da América Latina na organização mundial. A pretensão de grandiosidade quando somos meros farelos políticos é o maior dos feitos cômicos do coitadismo latino. Perguntam-me o motivo pelo qual raras vezes falo de Brasil, política nacional e do mendigo dos semáforos.

Ora, não se fala daquilo que consideramos um apoteose da desimportância. Se comento tão somente da política externa, e se dou mais importância aos feitos ideológicos externos, é evidente que nesse campo tenho eu mais afinidade, não só de conhecimento, mas também de interesse. Poderia alguém dizer que o meu desprezo às figuras políticas nacionais é uma forma de distanciamento e ignorância da realidade brasileira. Nada mais verdadeiro e perspicaz.

Ignoro e me distancio de figuras bizarras como Marina Silva não apenas por desgostar de artes cênicas, mas também por acreditar que sua importância é nula fora das árvores,  periquitos-do-rabo-amarelo ou de um lobby para a exportação de madeiras conscientes. Não falo de culinária, porque culinária não me interessa. Contudo, a virtude não é só minha. Em todo canto é possível encontrar alguém que sobrepuja os sonhos do vitimismo para reconhecer que “nação nenhuma tem existência metafísica; nacionalidade nenhuma existe como substância anterior a seus nacionais. O que provavelmente pareceria óbvio a quem não lesse apenas a última moda de sua época“.