O vagabundo se justifica

Quando nos perguntam acerca das raízes que fazem do trabalho uma essencialidade humana, e quando nos questionam sobre o motivo pelo qual o cristão observa o assistencialismo de Estado uma aberração contrária à formação civilizacional, é evidente que as respostas são esclarecidamente imediatas. Significa dizer que a caridade acompanha a noção do voluntarismo das dádivas, e sua imposição antes se dá pela suplantação da moral religiosa pelas chamadas religiões políticas, hoje já alastradas. Disso podemos estipular duas vertentes humanistas, subvertidas perante a justificativa econômica, porém ambas sub-rogadas na condição de novidade incontestável no mundo atual. De um lado temos o louvor às relações de troca e ao mercado enquanto fator essencial na constituição civilizacional, imputando ao voluntarismo dos contratos e à decisão justa do consumo uma superioridade não somente econômica, mas também moral. Adentrando amadoramente no caminho do economicismo político, fazem das próprias relações de troca o esboço do mercado enquanto entidade de princípio, meio e fim (ou seja, o mercado enquanto o fim em si mesmo de toda a estruturação humana).

De outro lado temos a negativa do mesmo mercado e decorrente menosprezo das relações de troca, ao ponto de catalogar o homem consumidor (enfim, o homem que trabalha) aquele que faz de sua existência o ato de produzir para comprar, e comprar para ter conforto. Tal qual a superioridade moral atribuída às relações de troca, a superioridade dessa estirpe se concretiza não somente na negativa do mundo dos lucros, mas também no louvor amestrado do ócio e da vagabundagem.

O  vagabundo então é o virtuoso que, escapando da chamada “realidade opressiva da produção”, consegue justificar o próprio ócio, improdutividade e inaptidão a tudo o que não seja a vadiagem. Esse tipo de vagabundo é o pior dos vagabundos, pois que resvala a robusteza de sua incompetência nos furúnculos de Marx e faz chorar o mais esperto dos poetas. Não sem motivo, o vagabundo-conscientizado parte primeiramente de sua incompetência para posteriormente respaldar uma eventual repressão maléfica dos homens produtivos, não obstante nominados “capitalistas”. É vítima, e como vítima faz de tudo para que os olhos alheios o absolva não por sua dissimulação, mas sim por sua sinceridade em assumir um caráter humano deplorável, não obstante desprezível.

E sua virtude, afirma o próprio, é reconhecer a própria decadência.

Andando ao relento de teses consubstanciadas em justificativas mais ou menos célebres no que concerne à vadiagem, eis que tais figuras não somente vangloriam o próprio ócio, como também querem fazer convencer o mundo de que o assistencialismo de Estado é uma prerrogativa humanista de sustento alheio. Em sendo os mesmos vagabundos, motivos existem para que se condene o homem trabalhador; não só por sua característica essencialmente lucrativa (ou seja, de aprimoramento das relações de troca), mas também por sua característica visível de menosprezo a todos aqueles que se declaram aptos à produtividade.

Significa dizer que a vagabundagem como inferida no texto acompanha as formas de anulação ou desprezo do trabalho mediante políticas afirmativas de Estado. O estatismo é cria dos vagabundos, e os vagabundos são cria do bom selvagem. Aliás, bom notar como anda de mãos dadas a noção entre o ócio e a homem primitivo, aquele que arrancava os dentes supurados com pedras afiadas ao fogo.

Em um momento oportuno explico os motivos pelos quais a beleza dos discursos primitivistas acompanha automaticamente a autodepreciação dissimulada.