Inimigo do “todo”

No Expectivas:

“O marxismo é um exemplo dessa dissociação mental extrema e da inversão da moral: por um lado, o marxista liquida a ética e a moral [e também toda a filosofia], classificando-a de “subjectiva” e idealista, ao mesmo tempo que denuncia os tabus tradicionais e históricos; e por outro lado, entrega-se a um excesso ético [por exemplo, o puritanismo de Francisco Louçã] que denuncia toda a oposição e crítica como um embuste, e estabelecendo simultaneamente novos tabus contrapostos aos tabus tradicionais [por exemplo, a substituição do tabu do aborto pelo novo tabu que proíbe as corridas de touros]. O marxismo — que se diz, dele próprio, científico — faz a crítica da moral tradicional de uma forma extremamente moralizante, mas moralmente invertida e até contra-natura.”

É evidente que essa inversão da crítica tradicional e a pretensa moralização [para posterior reprovação] dos costumes tradicionais envolve não somente o marxismo, mas também toda e qualquer manifestação salvacionista não-religiosa, a qual não se dissocia a política comportamental atual. Aliás, é a própria inversão moral que sustenta o discurso da crítica ao chamado “homem poluidor”, aquele que in casu  não se submete às imposições de regulamentação do consumo de bens. O que se tem é a inevitável rejeição desse sujeito [no pálio de uma visualização do “todo”), o qual se não se adéqua à política é então caricaturado um inimigo do resto [ou, como dizem, “humanidade”].

Não sem motivo a subjetivação da relação entre homem e natureza permeia não somente o comportamento, mas também a moralização dessa relação e, assim, a tentativa [moral] em se transferir à educação seu papel de remodelamento das tradições e costumes, tudo em uma roupagem cientificista já desvendada nos discursos coletivistas.

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Novas lições francesas

Há 1 ano, escrevi:

Se a sociedade europeia repudia o Islã tal como os americanos repudiam o multiculturalismo europeu, o Estado assim não se comporta, antes servindo como pêndulo e contrapeso de manifestações visíveis na opinião de cada cidadão. O Estado americano tenta introduzir o multiculturalismo, e o Estado francês tenta eliminar a religião. É o Estado que trabalha e induz comportamentos discrepantes ínsitos às sociedades, causando deformidades nos valores que constituem cada nação.

Agora, vejamos:

“A secondary school student near Paris was accused of wearing provocative clothing and sent back home. The school thought her skirt was too long, and conveyed religious values.”

Os julgamentos individuais (e, portanto, justificados) acerca de comportamentos tidos como deletérios à sociedade se converteram no policiamento – devidamente substanciado na lei – acerca de eventuais manifestações religiosas aptas a afrontar o laicismo assim querido pelo estado. Em suma, a lei está sendo cumprida.

A expressão “valores religiosos” merece destaque. A proibição da burca [outrora louvada por cristãos] reverte-se na negação de qualquer que seja a expressão religiosa. O que antes era a mera discriminação individual, plenamente aceita, hoje se travestiu na negativa da religião como ato de extensão das vontades do estado, negativa essa inexistente na “vontade social” à época da produção da famosa Lei da Burca.

Já naqueles ares suscitei que o chamamento ao estado daquilo que era uma manifestação individual poderia causar a extirpação gradativa das manifestações religiosas, ainda que a intenção legislativa inicial fosse de mera reprovação ao primitivismo dos imigrantes islâmicos, os quais não conseguiram se acomodar no costume e higiene europeus.

Cotas, novamente

Em meio à dissertação sobre o tema, em que tentava explicar sobre as consequências da oficialização das cotas pelo STF (à luz dos exemplos utilizados pelos ministros, como o sepultado sistema de cotas americano, o qual hoje é ilegal em vista de sua degradação à época disseminada), eis que leio este texto de Janer Cristaldo.

Na íntegra, aqui:

“Negros honestos, que não querem favores na hora da competição, já estão sentindo o problema. Ainda hoje, recebi de mãos amigas o comentário de uma aluna negra do curso de engenharia eletrônica da UERJ: “Isso só vai nos prejudicar, a nós que enfrentamos o vestibular sem cotas. Quando alguém analisar o currículo e descobrir que sou negra, vai pensar: essa entrou na faculdade pelas cotas. Adeus emprego”.

Cá entre nós, penso que devia constar de todos os diplomas, daqui pela frente, se o diplomado entrou pelo sistema de cotas ou se disputou lealmente sua vaga na universidade. No diploma dos negros que entraram na universidade por este sistema, que conste em letras garrafais:

ADMITIDO NA UNIVERSIDADE PELO SISTEMA DE COTAS

Afinal, se cotas é privilégio do qual nenhum beneficiado deve envergonhar-se, não deve ser infamante registrá-las no diploma.”

Nada mais.

James Lovelock frustra os bonzinhos

Depois do Climategate, Lovelock – o guru das teses tupiniquins – abre o bico, para o desespero dos bonzinhos de puro coração.

“James Lovelock, the maverick scientist who became a guru to the environmental movement with his “Gaia” theory of the Earth as a single organism, has admitted to being “alarmist” about climate change and says other environmental commentators, such as Al Gore, were too.”

Completo aqui.

Do “direito reprodutivo” masculino

Pedro Sette-Câmara:

“Devo recordar que eu mesmo sou violentamente contra o aborto, mas isso não me impede de observar a tremenda incoerência naquilo que se propõe. Se a mulher puder abortar, o homem também tem de poder. Não ficam dizendo (acho que até em alguma das encíclicas publicadas por algum ministro do STF) que se homem ficasse grávido haveria clínicas de aborto em cada esquina? Então por que a lei desse país machista patriarcal patriarqueiro falocêntrico capitalista selvagem opressor fica obrigando os homens a reconhecer a paternidade de crianças que eles abandonaram quando elas ainda não passavam de montes de células sem vida indistinguíveis de um tumor?

Em suma: não dá para defender que a maternidade é opcional sem que a paternidade seja opcional também. Se a sociedade adota o caminho da ausência de responsabilidade individual, propondo até que “ausência de condições psicológicas” seja razão para uma mulher justificar o aborto, eu não sei porque é que um homem não poderia alegar a mesma coisa.”

Cezar Peluso e a anencefalia

Alguns pontos a serem considerados:

a) Restou patente a tentativa do Ministro Cezar Peluso em felizmente desacreditar o Poder Público na prestação de serviços considerados essenciais, fato de poucos exemplos dentro do STF. Em outras palavras, o julgamento em questão talvez tenha iniciado a caracterização de ineficiência do Estado na tutela de direitos e garantias (o que talvez possa ensejar futuro debate concernente à ineficiência do Estado nas tutelas do art. 6º da CF/88), porquanto uma obviedade irrefutável e ainda acanhada nas teses doutrinárias, mas também um tabu nos discursos dos ministros atuais. A crítica foi tamanha que, quando da proclamação do resultado, os ministros Luiz Fux, Gilmar Mendes e Celso de Mello suscitaram eventual restrição no mero atestado de anencefalia (por entenderem que seria plenamente possível o aborto de feto saudável sob a justificativa equivocada da anencefalia), o que gerou acaloradas respostas por parte de Marco Aurélio.

b) Marco Aurélio adentrou nos chamados “direitos da mulher” e, apesar de voto vencedor, concedeu à plebe (rs) o sonho inevitável de atrelar o sofrimento fetal também a um fenômeno de sofrimento materno, o que por si só justificaria, indiretamente, o aborto em casos de doenças mentais graves e irreversíveis. Lewandowski, percebido de que tal argumento seria e é sempre alocado nas lides de estilo, já em seu voto não pestanejou em negar a premissa do sofrimento materno em sua relevância antes apresentada, argumento o qual de certo elaborou o aviso de Cármen Lúcia de que o julgamento não era um autorizativo do aborto de feto saudável. Como que prevendo a expansão dos discursos abortistas que não aqueles atrelados ao feto ou aos tipos penais já conhecidos, mesmo alguns dos ministros favoráveis ao aborto de anencéfalos conduziram o debate para a objetivação dos fenômenos e para a estrita relação entre fato e norma. Eis então que Ayres Britto se destaca na multidão.

c) Ayres Britto, não obstante político, poeta e ministro (nessa ordem), proferiu seu voto nas regalias intelectuais de sempre, gerando inclusive risinhos consternados de alguns de seus colegas para posteriormente ser combalido a abandonar o discurso do feto para adentrar [integralmente] na idealização do direito feminino. Citando a clássica frase do feminista e socialista Fourier “o grau de desenvolvimento de uma sociedade pode ser medido pela libertação da mulher” e a pérola “se o homem engravidasse o aborto já seria lícito a muito tempo”, Britto desce ao nível de seu voto acerca da união homoafetiva, o qual já virou piada corrente em cursinhos e faculdades.

d) Gilmar Mendes, percebendo a tentativa dos ministros em menosprezar a inferência religiosa nos discursos da petição inicial, dá o recado e afirma com todas as letras de que a participação religiosa é justamente o amparo da democracia e de que as manifestações antirreligiosas observadas no decorrer do processo não passam de “faniquitos”. Lewandowski, voto vencido, ri no momento em que Ayres Britto, com sua poesia de boteco, dá luz ao que seria sua imaginação da pessoa de Jesus Cristo. Cena memorável. A mensagem foi claramente dirigida aos discursos que envidaram conceitos como “esse julgamento não trata de valores morais e religiosos”, forma pela qual o Ministro Gilmar Mendes novamente consubstancia a importância religiosa em temas da espécie.

Vamos à aula:

O vagabundo se justifica

Quando nos perguntam acerca das raízes que fazem do trabalho uma essencialidade humana, e quando nos questionam sobre o motivo pelo qual o cristão observa o assistencialismo de Estado uma aberração contrária à formação civilizacional, é evidente que as respostas são esclarecidamente imediatas. Significa dizer que a caridade acompanha a noção do voluntarismo das dádivas, e sua imposição antes se dá pela suplantação da moral religiosa pelas chamadas religiões políticas, hoje já alastradas. Disso podemos estipular duas vertentes humanistas, subvertidas perante a justificativa econômica, porém ambas sub-rogadas na condição de novidade incontestável no mundo atual. De um lado temos o louvor às relações de troca e ao mercado enquanto fator essencial na constituição civilizacional, imputando ao voluntarismo dos contratos e à decisão justa do consumo uma superioridade não somente econômica, mas também moral. Adentrando amadoramente no caminho do economicismo político, fazem das próprias relações de troca o esboço do mercado enquanto entidade de princípio, meio e fim (ou seja, o mercado enquanto o fim em si mesmo de toda a estruturação humana).

De outro lado temos a negativa do mesmo mercado e decorrente menosprezo das relações de troca, ao ponto de catalogar o homem consumidor (enfim, o homem que trabalha) aquele que faz de sua existência o ato de produzir para comprar, e comprar para ter conforto. Tal qual a superioridade moral atribuída às relações de troca, a superioridade dessa estirpe se concretiza não somente na negativa do mundo dos lucros, mas também no louvor amestrado do ócio e da vagabundagem.

O  vagabundo então é o virtuoso que, escapando da chamada “realidade opressiva da produção”, consegue justificar o próprio ócio, improdutividade e inaptidão a tudo o que não seja a vadiagem. Esse tipo de vagabundo é o pior dos vagabundos, pois que resvala a robusteza de sua incompetência nos furúnculos de Marx e faz chorar o mais esperto dos poetas. Não sem motivo, o vagabundo-conscientizado parte primeiramente de sua incompetência para posteriormente respaldar uma eventual repressão maléfica dos homens produtivos, não obstante nominados “capitalistas”. É vítima, e como vítima faz de tudo para que os olhos alheios o absolva não por sua dissimulação, mas sim por sua sinceridade em assumir um caráter humano deplorável, não obstante desprezível.

E sua virtude, afirma o próprio, é reconhecer a própria decadência.

Andando ao relento de teses consubstanciadas em justificativas mais ou menos célebres no que concerne à vadiagem, eis que tais figuras não somente vangloriam o próprio ócio, como também querem fazer convencer o mundo de que o assistencialismo de Estado é uma prerrogativa humanista de sustento alheio. Em sendo os mesmos vagabundos, motivos existem para que se condene o homem trabalhador; não só por sua característica essencialmente lucrativa (ou seja, de aprimoramento das relações de troca), mas também por sua característica visível de menosprezo a todos aqueles que se declaram aptos à produtividade.

Significa dizer que a vagabundagem como inferida no texto acompanha as formas de anulação ou desprezo do trabalho mediante políticas afirmativas de Estado. O estatismo é cria dos vagabundos, e os vagabundos são cria do bom selvagem. Aliás, bom notar como anda de mãos dadas a noção entre o ócio e a homem primitivo, aquele que arrancava os dentes supurados com pedras afiadas ao fogo.

Em um momento oportuno explico os motivos pelos quais a beleza dos discursos primitivistas acompanha automaticamente a autodepreciação dissimulada.