“A bicicleta é um ente espiritual” e outras considerações bondosas

O 1º Fórum Mundial da Bicicleta, assim como qualquer movimento vinculado ao ambientalismo, prezou por ovacionar o caráter transcendental desse aparelho hoje não somente irrelevante, mas relíquia apreciada por poucos. Na procura por adeptos da arte de pedalar, eis que os becicleteiros procuram também motivos metafísicos na justificativa do retorno à barbárie e primitivismo, coadunando discursos cômicos que vão da felicidade à opressão dos veículos motorizados. É o retorno aos discursos de divinização de objetos para alguns considerados “a fuga do caos moderno”.

Na proposta dos tais, vemos coisas como “a bicicleta é um símbolo e um instrumento para a busca da felicidade agora”, “a bicicleta é uma forma de participar ativamente da vida da cidade. A democracia direta é um dos pilares que devem guiar todas as decisões que afetam a coletividade”,  “a bicicleta é um símbolo de paz no trânsito” e, como pérola reluzente no bojo do esterco, “a bicicleta tem grande potencial para buscar saúde preventiva da população, através de um estado completo de bem estar físico, mental, espiritual e social”. Nas palestras, dentre outras de menor afirmação categórica, “Nova oficina: Aquecimento global, anticapitalismo e bicicleta com Daniel Cunha“.

Para quem observa o movimento ambientalista, não há novidade: o coletivismo salvacionista reina na tentativa de transferir ao bode expiatório o causador de todos os males. Essa aparente mensagem reveladora e esclarecedora do viés maligno do transporte motorizado acompanha justamente o viés ambientalista em atribuir, seletivamente, a responsabilidade dos males inerentes à condição humana ao ente que proporciona o moderno conforto. Como que seguindo o caminho na mesma esteira, e impelidos no vento da bondade ideológica, os movimentos ambientalistas, insertos sob um mesmo discurso messiânico, assumem o legado de fazer cair dos olhos dos incautos as escamas da ignorância e do consumismo contemporâneo.

Não obstante o discurso, que tem substância para análises infindáveis, tempo após tempo o ambientalismo assume a tendência de regulamentação da vida privada por meio da intromissão do Estado, utilizando-o para fins outrora justificados na metafísica do naturalismo ou, conforme se observa, na bicicleta enquanto ente dotado de inspirações espirituais.

A teta do Estado, então sempre exposta, proporciona a movimentos característicos o alimento diário, sobre o qual ressurgem anualmente o pietismo das calamidades vindouras. Das sacolinhas plásticas aos bicicleteiros conscientizados, a voz uníssona do aquecimento global e da destruição iminente proporcionada pelo consumo faz de tais movimentos o retorno à dissimulação deliberada; a dissimulação que faz do primitivismo o retorno à civilização e à higiene.

São, em síntese, os hippies alfabetizados e que ainda usam sabonetes. Mas não se anime, pois haverá o dia em que será criado o Fórum Mundial do Não Uso do Sabonete Poluidor.