Genésio Darci é um homem puro

Gosto do Leonardo Boff. Uma pessoa boazinha, de bom coração e que quer tão somente nos libertar das algemas do consumo. Em suma, um homem puro. Mas apesar de tamanha pureza e bondade, às vezes escorrega; não sempre, só às vezes, pois não havemos de desconfiar de tamanha benignidade. O erro do Genésio Darci – erro o qual não se assume – é inferir categoricamente que a premissa da produtividade é imaginar que os recursos naturais são infinitos. Dispondo sobre essa fragilidade terrena, Darci nos avisa: “até quando irá essa estultícia?”. Tamanho amadorismo não é proposital, pois não me atrevo a afirmar que esse equívoco parte de alguém de tamanha sabedoria.

Contudo, eis que alguém acusa: “Darci, é o oposto. As relações de produtividade e consumo partem justamente da ideia de que todo e qualquer recurso é finito e, portanto, possui valor”. As reações são imediatas. O que estaria fazendo um consumista no âmbito da pureza darciana? Responde o santo:

“Há o risco real de que sejam vítimas da lógica do sistema que incita a consumir mais e mais, especialmente bens supérfluos. Então acabam agravando os limites da Terra, coisa que se quer exatamente evitar. Estamos face a um angustiante círculo vicioso que não sabemos como faze-lo virtuoso sem prejudicar a sustentabilidade da Terra viva. […] O mais grave é que com a obsessão do crescimento estamos minando a vitalidade da Terra. Precisamos de um crescimento mas com uma nova consciência ecológica que nos liberte da escravidão do prudutivismo e do consumismo.”

Há 1 ano, escrevi:

“Ocorre que o primitivismo é atualmente um elogio à perversidade humana respaldado no mito do “bom selvagem” – melhor explicado por Rousseau -, tal como no repúdio de técnicas civilizatórias, que afastando o homem do contato direto com a natureza fez dele um animal impossível de conviver harmoniosamente com seus pares. O caos, a discórdia, a pobreza em todos os aspectos são fatores deletérios, mas inevitáveis como sentença da humanidade que escolheu se distanciar da inocência do primitivismo. Pois a civilização e o desenvolvimento de métodos de manipulação ambiental, como a agropecuária e a higiene artificial, seriam em si mesmas antinaturais. O resultado, afirmam, é a degradação humana inevitável.”

A argumentação cíclica de Genésio, desde sempre dizendo o que diz, cansa aos mais tênues ouvidos. O ambientalismo se tornou enfadonho em sua própria retórica, ao ponto de se fazer um caminho dentre muitos na chegada da perfeição das relações humanas. Não obstante sua insistência em se fazer um espelho evolutivo à humanidade, eis que a sustentabilidade é, segundo Genésio, a nova forma de confusão dos incautos. O que seria a “sustentabilidade real” à pureza darciana? É aquela que afasta as relações de consumo para adentrar ao campo da ecologia enquanto método superior de análise das relações humanas (sim, a ecologia na análise do homem).

Explica o bondoso homem, segundo o qual a “minoria” é a humanidade que faz da batata o purê:

“Ambientalmente correto: O atual tipo de desenvolvimento se faz movendo uma guerra irrefreável contra Gaia, arrancando dela tudo o que lhe for útil e objeto de lucro, especialmente, para aquelas minorias que controlam o processo.”

Contra Gaia não há argumentos. Quando citada, saia da frente: a Madrasta Terra não admite contestações.