Os dois lados

O problema da religião é sua objetividade enquanto sistema de atribuições e condenações muitas vezes insuportáveis ao homem. Explico: ora o cristianismo é odiado por sua conivência em questões as quais são consideradas irrelevantes [aos cristãos], ora o cristianismo é repelido por justamente aplicar, conforme sua doutrina, as sentenças inevitáveis àqueles que são, em regra, socialmente menosprezados; a não ser que amparados por medidas de afirmação governamental.

O cristão não se preocupa com o meio ambiente. Calvinista ou vaticanizado, o ambientalismo não raramente é visualizado uma forma menos esperta de fenômenos naturalistas antigos, que alguns insistem em chamar de “paganismo”. Para tanto devemos nos ater ao óbvio: o que é a natureza senão o que deve ser preservado por sua beleza – e por sua utilidade – e não por seu patamar de “vida em tudo”, da Gaia que nos observa e nos julga? Se os países cristãos são hoje justamente aqueles que conseguiram melhor adequar a higiene ao meio ambiente (afinal, o ambientalismo é essencialmente anti-higiênico), evidente que o ambientalismo como ideologia tende a negar, primeiramente, a própria religião.

Isso ocorre por seu viés cientificista, o qual constrange os incautos a relevar os discursos ambientalistas como uma ramificação simplista da biologia. Não raramente, vê-se que em tempo há quem consiga coadunar a ciência com o esoterismo, fazendo com que haja, por fim, verdadeiros teóricos esotérico-cientificistas muitas vezes abraçados no cristianismo. O cristão que se utiliza de jargões e conceitos ambientalistas (exemplo: Gaia ou Mãe-Terra) é tudo, menos cristão. É um embuste, considerado relevante justamente por aqueles que não se consideram cristãos, mas inseridos na terceira-via do cristianismo, o qual chamo de “cristianismo místico”. Hoje, minoria, tendem ao desaparecimento, apesar da insistência.

Mas eis que o cristão é também preconceituoso. Ao apontar que determinado comportamento equivale ao erro da alma, é então repelido enquanto “religião totalitária”, que se respalda em um livro arcaico. Sobre o homossexualismo, no qual existem paixões no mínimo interessantes, é de se entender que o cristão observa não somente conceitos de ordem teológica e doutrinária, todavia também conceitos de preservação da ordem familiar e de estabilidade social.

Se o casamento é uma instituição, e não somente um contrato, e se o casamento é eminentemente religioso, inserto nas culturas por meio da benção do líder espiritual, inviável qualquer separação de sua simbologia daquilo que se pretenda ser uma aceitação religiosa do homossexualismo como conduta reprovável. Não obstante, quer-se que a religião se descaracterize aos fins de permitir o que se repugna e de favorecer aqueles a quem se menospreza.

E nem falo do casamento civil, esse ainda tido como um minus da tentativa de se regular o casamento religioso. Primeiro tivemos a união estável; após, o casamento civil e, por último, a afirmação de que “todo líder religioso que se nega casar homossexuais é um preconceituoso homofóbico”. Homofóbico, não. Afinal, ninguém tem repulsa física a homossexuais; mas, sim, preconceituoso, porque a religião é discriminatória em sua essência, assim como qualquer mente sã que tenha em si o sentido de autopreservação.

Esse raciocínio é impensável [no sentido de que inexiste um padrão moral para tal] a quem observa todo e qualquer comportamento mero resultado do meio, e não da decadência natural e inevitável do homem. Gosto de exemplos: se considero o homossexualismo uma parafilia, há quem negue, pois seria o homossexualismo um fenômeno biológico. Eis então que a pedofilia, coprofagia e a menofilia seriam fenômenos doentios de distúrbios sexuais inaturais ao homem médio, repugnante em sua essência e que fomentaria discriminações inevitáveis.

Mas ninguém ousa dizer “sou um menofílico”, menos ainda “sou um pedófilo”. Certas parafilias são vistas com repugnância pelo homem comum, que faz de piadas a menções de descaso, ao ponto do comportamento ser o estereótipo do homem mais baixo e que necessitaria, finalmente, por medidas de afirmação governamental.