Auto-suficiência

Segundo Calasso, os espaço religioso – o templo – é o espaço em torno do qual o sistema de trocas começou.

É verdade. As moedas mais antigas foram encontradas nas proximidades de templos e lugares sagrados, precisamente porque eram utilizadas na compra de animais a serem sacrificados. O comércio estrangeiro era de fato uma oferenda ao que vinha de fora, ao estrangeiro: punha-se a oferenda do lado de fora para apaziguar o deus estrangeiro, o inimigo que estava lá fora era visto como possível ameaça. Então, em troca, punha-se uma outra coisa, eis a origem do processo. Não tenho dúvida de que a troca teve uma origem religiosa e concordo com Calasso nesse ponto. Até etimologicamente a palavra “moneta” está ligada ao deus que ficava na vizinha do prédio.

Nesse processo de troca, a esfera econômica substituiu a religião como uma nova forma de totalidade?

Em nossa sociedade, o econômico de fato substituiu inteiramente o religioso. A basílica romana era um local de negócios, transformado pelos cristãos em espaço religioso. Não quiseram transferir-se para um templo pagão, mas tomaram um local civil normalmente utilizado para negócios. Não havia hostilidade entre vida econômica e religião. Na Alta Idade Média, o Cristianismo sem dúvida era contra a usura e a ganância. Mas recordemos a atitude de Paulo, por expressar mais ou menos com as seguintes palavras: “Sabeis perfeitamente o que deveis fazer para nos imitar. Não temos vivido entre vós desregradamente, nem temos comido de graça o pão de ninguém; mas, com trabalho e fadiga, labutamos noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós. Não porque não tivéssemos direito para isso, mas foi para vos oferecer em nós mesmos um exemplo a imitar” (II Tess. 3, 7-9). Ao mostrar a importância atribuída à auto-suficiência, essa atitude evidencia um ponto relevante da relação entre Cristianismo e economia.

René Girard em Um longo argumento do princípio ao fim