Poesia de boteco

Os motivos pelos quais ultimamente considero a poesia como a mais perversa das formas de escrita abrange a ideia de que nem todos os livros são feitos para serem lidos. Ora, na prosa o escritor é gênio ou escória, verdadeiro escritor ou verdadeiro roteirista; na poesia, todo poeta é gênio, “porque só pode fazer poesia quem é, no mínimo, alguém de inteligência”. Ocorre o oposto: o péssimo escritor reproduz poesias como o péssimo cozinheiro que, em uma tarde, faz arroz o bastante para dezenas de famílias. De qualidade péssima, o poeta se justifica afirmando que, enquanto poeta, sua poesia é para poucos, devendo ser apreciada em vista de sua mensagem ali escondida, preciosa. O cozinheiro então prepara o arroz para 50 famílias. A qualidade é detalhe e o tempero é regalia e desperdício. Mas o poeta nos oferta um livro de 200 páginas [de pura poesia] de antemão sentenciando: “as palavras que aqui escrevo são palavras vindas do fundo de minha alma”. Pensa piamente que todos estão dispostos e sujeitos a tamanha dissimulação. Até o cozinheiro tem mais honestidade intelectual que o poeta. Não sem motivo as adolescentes são as grandes amantes das poesias de boteco.