Das amizades

Desconheço os limites de qualquer pessoa em instigar outros a valorizá-la. Se o desprezo é inevitável em determinadas situações, para determinadas pessoas o desprezo é algo inexorável, comum à própria existência, como falar e comer diariamente. Significa dizer que não há espaço [ao menos na juventude] para o que chamo de “caridade sentimental”, quando a observação do próximo o leva sempre a evitá-lo. Obviamente que estou incluído nessa perspectiva. Incontestáveis são as razões pelas quais é mais confortável o relacionamento com certos indivíduos que ofertam, digamos, um ar de companheirismo mais efusivo. Essa é a noção principal e fundamental a que se expõem os limites da amizade: a tolerância dos amigos é um dom de muitos, mas não o meu.

Dessa forma, a amizade que faz grupelhos se reunirem constantemente, como se não houvesse o amanhã, como se a confiança exalasse automaticamente certa maturidade, em verdade deve ser vista tal qual um resquício dos sentimentos adolescentes, estes sim dados ao companheirismo ao ponto de negarem a própria educação. Se perguntarem minha opinião sobre os tais que veem as amizades acima tudo e de todo o resto, não exito em responder que o conforto da adolescência às vezes perdura até a velhice.

Não significa dizer que não acredito em verdadeiras amizades. Existem, mas são tão raras que sequer valem qualquer comentário relevante, devendo elas serem guardadas, memorizadas, sem menções. Por vezes nunca ocorrem, e por vezes ocorrem sem que percebamos até o momento em que se revela uma circunstância específica, na qual o grupo – aqueles que gostam das boas conversas – não estaria apto a se manifestar pela incapacidade natural em atentar para algo além do próprio companheirismo.

Já me avisaram que essa indiferença para com aquilo que se chama de “amizade” é na verdade uma tentativa pessoal de não me decepcionar. Mas vou além: é uma tentativa de não criar vínculos que necessitem de sacrifícios desproporcionais à realidade. É fato que boas conversas aparentam boas amizades, mas mais verdadeiro é entender que não vale o esforço na criação de vínculos que sabemos serem supérfluos, momentâneos e, a longo prazo, irrelevantes.

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