Vagabundo carioca faz revolução em New York

Em Dos vagabundos de Wall Street tentei relacionar uma foto emblemática à natureza dissimulada das manifestações presentes, ao menos achando inicialmente que de fato fossem elas irrelevantes, como os hippies da atualidade que pregam o fim do Cristianismo. Mas a força dos acontecimentos me impeliram a considerar a natureza latinizada da pretensa revolução, afinal o discurso é o mesmo. Como que se revelando o inevitável, eis que tomo conhecimento de um vagabundo carioca, médico, que aos 28 anos foi para New York fazer mestrado em “Saúde Pública Global”.

Acompanhado de outros milhares de vagabundos, pregam o fim da opressão de Wall Street, a “socialização” da saúde americana e o fim das corporações e conglomerados tecnológicos. São, em suma, latinos de coração e alma. Mas a culpa é também dos americanos. Se universidades de renome promovem palestras sob as encenações ameninadas de Slavoj Zizek, nada mais natural que haja, em seu solo, a formação de toda sorte de projetos e produtos que almejam a disseminação da cultura do subdesenvolvimento, caracteristicamente esquerdista.

“É a esquerdização dos EUA”, dizem alguns. Eu, porém, tendo a analisar quais são os danos morais, irreversíveis, da passagem pela presidência de um sujeito como Obama, o qual já declarou apoio às manifestações mencionadas.

Agora, se o leitor quer assunto de verdade, longe do amestramento meramente ativista, leia então estes texto aqui, aqui e aqui.

O Homem ambientalista

Henrique Raposo, no Expresso:

“Um amigo mui verde dizia há dias: “tu não respeitas o consenso científico em redor do aquecimento global”. Não, nada disso. O meu problema não está no tal consenso científico. O meu problema está na linguagem agressiva e intolerante do ambientalismo, nomeadamente de muitos cientistas-ativistas. O meu problema está nessa estranha fusão entre ciência e ativismo. Certa vez, ouvi ao vivo um cientista a dizer o seguinte: “como é que alguém pode por em causa a tese do aquecimento global provocado pelo Homem?”. E este excelso senhor, com phd e tudo, dizia aquilo com um ar de nojo, um ar de indignação moral. Ou seja, aquele cientista comportou-se de forma anti-científica, pois transformou uma questão técnica numa questão moral, transformou uma hipótese num dogma. A ciência moderna fez-se – precisamente – contra aqueles que estavam sempre a dizer “como é que se pode pôr isto em causa, meu Deus?”.

A teoria tem demasiados buracos , mas o meu problema nem é esse. O meu problema está na obsessão do ambientalismo com o Homem. O Homem é sempre a ameaça. O Homem ou a Humanidade (sempre com o peso da maiúscula) é a sarna do mundo. Em Tópicos para uma Catástrofe, Elizabeth Kolbert é bem clara neste ponto: a terra, diz-nos a autora, entrou numa fase chamada “Antropoceno”, uma nova era que se define pelo facto de uma criatura – o Homem – ser tão poderosa que pode alterar o planeta a uma escala geológica. Ora, este é o velho antropocentrismo do pensamento ultra-racionalista. Nos séculos XVII e XVIII, este antropocentrismo emergiu no chamado iluminismo. Nessa altura, dizia-se que o Homem era tão poderoso que podia controlar a natureza em seu benefício, de forma positiva. O Homem era o centro do mundo e podia fazer tudo, porque a sua acção só podia ser benigna. Séculos depois, este ambientalismo é o herdeiro directo dessa mentalidade. Mudou de cor? Sim. A utopia tecnológica deu lugar à distopia ambiental? Sim. Mas a maneira de pensar é a mesma: o Homem está no centro de tudo. O Homem santo do iluminismo deu lugar ao Homem pulha do ambientalismo, mas o Homem continua a ser a causa de tudo. É por isso que – como dizem vários cientistas não-ativistas – os vulcões e as variações do Sol ficam de fora dos modelos climatéricos do costume. Um pouco estranho, não? É por isso que que as vanguardas do ambientalismo procuram explicações antropocêntricas para fenómenos naturais como o tsunami do Japão. Como não toleram a existência de forças superiores ao Homem, como não toleram uma natureza superior ao Homem, estas vanguardas verdes acham que os atos da natureza só podem ser efeitos de uma causa humana . Um pouco anti-científico, não?”