Voltaire, o primeiro revolucionário?

Ao ler o famoso “Tratado sobre a tolerância”, Voltaire nos incumbe em explicar minuciosamente, caso após caso, fato após fato, as características básicas que circundam a religião em sua atuação mais pura e, portanto, de acordo com o mesmo, real. O iluminista preza pelos elogios e já de antemão começa esclarecendo as virtudes daqueles que serão, linhas à frente, seus principais criticados.

Um exemplo:

“Digo-o com horror, mas com verdade: somos nós, cristãos, somos nós os perseguidores, os algozes, os assassinos! E de quem? De nossos irmãos. Fomos nós que destruímos centenas de cidades, de crucifixo e Bíblia nas mãos, e que não cessamos de derramar sangue e acender fogueiras, desde o reinado de Constantino até os furores dos canibais que habitam Cévennes, furores que, graças aos céus, não subsistem mais hoje”.

A emancipação retórica e o reconhecimento pelo autor da assertiva de sua própria culpa [enquanto participante do tragédia anunciada] é tão antigo quanto forjar sobre si as virtudes da caridade e humildade, as quais são somente delineadas se comprovadas por uma fonte externa, ainda que seja ela anônima perante o público, ainda que seja ela própria a beneficiada ou, no máximo, aquela que percebe o ânimo daquele que detém tais virtudes.

Mesmo a mediocridade hoje é ressaltada como que acoplada à humildade, sendo agora não sinônimo fatídico do homem desprezível, mas sim daquele que desprezando e chamando-se “medíocre” consegue os aplausos de meio mundo. Voltaire é mais esperto, e seus elogios à casta que despreza ultrapassam o limite do bom senso para se tornar, na leitura atenciosa do livro, como um verdadeiro ensaio substanciado na dissimulação pessoal. O francês, digno orientador de reis, mas colecionador interminável de inimizades, parte da ideia de que sua complacência e puxa-saquismo irão fazê-lo um real intérprete da realidade, pela qual temos o sofrimento relatado em seu primeiro conto, que termina dizendo:

“Num e noutro caso, o abuso da mais santa religião produziu um grande crime. É, portanto, do interesse do gênero humano examinar se a religião deve ser caridosa ou bárbara”.

O livro se serve de eventuais glórias à religião para que se proceda a crítica, muitas vezes baseadas em análises verdadeiramente amadoras da história. É ler suas falas sobre a perseguição aos cristãos, segundo o qual fora fomentada pela própria cristandade em sua atividade perversa, havendo tão só uma reciprocidade política viável como uma justiça cósmica, que comanda os acontecimentos. Em suma, segundo o dedo histórico de Voltaire, a perseguição ruminante do Império Romano começou de fato com a cristianização dos romanos. Coincide com algo que se percebe nos diálogos contemporâneos?

“Somos nós, cristãos, somos nós os perseguidores, os algozes, os assassinos!” é a estrutura que molda discursos vastos em detrimento do próprio cristianismo. Os exemplos são tão extensos que poderia eu ficar semanas citando casos, frases e teses em que o crítico, dissimulado em sua intenção maior e respaldado na enganação deliberada, promove a veracidade de suas palavras inserindo a si próprio no campo dos analisados, daqueles que são o alvo evidente da artimanha, ao ponto de ao final decretar-se um mártir verdadeiramente elucidado pela própria razão e auto-análise.

Essa inserção comina em duas vertentes de dissimulados, que ora propõem em conjunto a reanálise e mudanças profundas na estrutura institucional da religião: sob a influência de ser o intelectual ele mesmo um medíocre, cria-se o famoso abismo que impede aos incautos a constatação de sua hipocrisia, “pois como pode ser hipócrita aquele que se diz medíocre?”; mas sob a influência da covardia, o dissimulado continua a provar da água que vomita, sem contudo denunciá-la. Continua ele a andar escorado na religião, todavia imputando sobre ela as aflições de sua torpeza espiritual e minando, de palavra em palavra, os fundamentos essenciais da manutenção religiosa.

“Se alguém, bastante desprovido de boa fé ou bastante fanático, me perguntasse: por que apareces aqui para desvendar nossos erros e nossas faltas? Por que destruir nossos falsos milagres e nossas falsas lendas? Elas são o alimento da piedade de muita gente; […] Todos esses falsos milagres pelos quais é abalada a fé que se deve ter nos verdadeiros, todas essas lendas absurdas que são acrescentadas à verdade do Evangelho extinguem a religião dos corações”.

Caracteristicamente elucidado contra as manipulações maliciosas do clero, e entendido da fraqueza da justiça mediada pela Igreja, Voltaire se antecipa, como bom orador, às futuras advertências de sua investida. Cita ele sobre diversos casos religiosos aparentemente fraudulentos, os quais eu mesmo penso duvidar. Contudo, os exemplos apenas respaldam a máxima final, destinada a todos os crentes que o confirma não o confrontador e crítico de absurdos, mas sim “aquele que quer proteger a todos”, protegendo seguidamente o próprio cristianismo de sua destruição total. Ele é e se permite dizer, finalmente, um bom e estudioso cristão.

Seria Voltaire o precursor da mentalidade revolucionária?