11 de Setembro, há dez anos

Na escola, em plena aula de Geografia Nacional, estava eu sentado quando outro professor aterrorizado nos avisa, ofegante, escancarando a porta: “os Estados Unidos estão sendo atacados!”. Se naquela época, influenciado por poucas mentes, já tinha a leve noção das sutilezas do esquerdismo enquanto fomentador de culturalismos (conceito contudo que ainda não conseguia definir), foi no instante posterior, minutos após, em que se clareou acerca da efetividade de uma educação escolar que abrangia da demonização do mérito à exaltação de Mao enquanto pacificador político. Crianças, corremos todos à sala central, onde estava ligada uma TV. O choque era total, e atemorizados estavam todos perante as cenas que muitos julgavam ser mera fantasia – e, veja, já à época, uma manipulação propagandística e ideológica americana. Os professores estavam evidentemente sorridentes, como que presentes em um espetáculo que, se gratuito, proporcionava grandes emoções dignas de serem eternamente relembradas. Choca-se o segundo avião. Os mestres, em contraste aos alunos ali presentes, gritam adolescentemente, aplaudem e, não menos que em segundos, fazem piadas sobre como e em quais circunstâncias esse ato poderia se dar como “uma primeira derrota estadunidense”, para se usar as palavras opulentas.

Tal comportamento resplandecia entretanto uma característica essencial de povos assumidamente oprimidos, segundo critérios que se elencados poderiam compor teses e prosas. Os jornais mostravam, eis que perfidamente, palestinos, islâmicos, franceses, bolivianos, chineses, peruanos e outros povos em verdadeira comemoração daquilo que se viu. Churrascos eram promovidos nos diretórios acadêmicos e em sedes de partidos. Palestinos saltavam às ruas, conclamando o fim da era de opressão. Bolivianos, magros e esfomeados, aparentemente decadentes à frente de ruas destruídas e de aparência fétida, gritavam com felicidade talvez a mesma mensagem de esperança.

A beleza de não entender certas coisas quando se é menor é ter a imagem como que fincada na memória, o que nos permite uma análise posterior talvez mais acurada. Hoje, a observação do “11 de setembro” como o dia em que se almejou a derrocada americana não passa de vislumbres irrelevantes, cujos detalhes se inclinam a novos atentados que, por fim, proporcionarão novos espetáculos. Por meio das redes sociais tenho contato com alguns daqueles professores. E tenho assegurado que a perversidade comemorativa de antes é atualmente a vergonha que desmascara a retórica do humanismo enquanto afirmação política, os quais são adeptos em massa.

Os atentados de 11 de setembro é a pura expressão da batalha e do abismo que existe entre a civilização e os bárbaros, entre a consagração da moral ocidental e a subjugação do animalismo ao exercício de atos homicidas. Se houve revelações, revelou-se então a sordidez e os limites que delimitam os motivos pelos quais o ocidentalismo é menosprezado enquanto afirmação de valores incompatíveis com determinados credos, dos quais incluo aqui o esquerdismo. A esquerda louvou os atentados terroristas e continua a reverenciar seus mentores, mas esqueceu que veio dos atentados a derrota virtual, mas gradativa e inevitável, do socialismo europeu. Foi com a visualização dos limites civilizatórios que em discussões parlamentares foram reconhecidos os erros de políticas de controle de natalidade fomentadas pelo Estado, dentre os quais as últimas reformas da chamada “baixa Europa”.

Quem diria que, após 10 anos da proclamação pela esquerda do fim dos valores ocidentais, viriam alguns países declarar como crime a negação do genocídio comunista? Ou que o multiculturalismo, amado desde sempre pela esquerda, viria a ser negado pela maior autoridade política europeia da atualidade? A dança continua, mas os aplausos à barbárie serão mais uma vez ouvidos. Disso, tenha certeza.