Dos vagabundos de Wall Street

Trata-se de dois das dezenas de vagabundos e ociosos que fizeram algumas manifestações em Wall Street, NY, na última semana. Os vagabundos, em suma, visam a proteção do povo americano contra a exploração dos ricos opressores, não faltando obviamente o discurso “health care for everyone”, também presente na boca de Obama. A imagem é emblemática. Ambos com seus laptops inseridos nas redes sociais (a manifestação foi combinada via Facebook), segurando cigarros no ato e, não obstante, como que muito nobres para tamanha sordidez, sentados ao lado de uma Coca-Cola já usada. Em outras fotos disponíveis as imagens não mentem: Ralph Lauren na camisa do marginal.

É a beleza orquestrada da nova prole das causas mais nobres. Beneficiados por aquilo que negam, e revoltados com aquilo que permite o conforto, o hippies do novo século vestem grife e dormem nas praças e ruas sobre o conforto de travesseiros e colchonetes infláveis.

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Voltaire, o primeiro revolucionário?

Ao ler o famoso “Tratado sobre a tolerância”, Voltaire nos incumbe em explicar minuciosamente, caso após caso, fato após fato, as características básicas que circundam a religião em sua atuação mais pura e, portanto, de acordo com o mesmo, real. O iluminista preza pelos elogios e já de antemão começa esclarecendo as virtudes daqueles que serão, linhas à frente, seus principais criticados.

Um exemplo:

“Digo-o com horror, mas com verdade: somos nós, cristãos, somos nós os perseguidores, os algozes, os assassinos! E de quem? De nossos irmãos. Fomos nós que destruímos centenas de cidades, de crucifixo e Bíblia nas mãos, e que não cessamos de derramar sangue e acender fogueiras, desde o reinado de Constantino até os furores dos canibais que habitam Cévennes, furores que, graças aos céus, não subsistem mais hoje”.

A emancipação retórica e o reconhecimento pelo autor da assertiva de sua própria culpa [enquanto participante do tragédia anunciada] é tão antigo quanto forjar sobre si as virtudes da caridade e humildade, as quais são somente delineadas se comprovadas por uma fonte externa, ainda que seja ela anônima perante o público, ainda que seja ela própria a beneficiada ou, no máximo, aquela que percebe o ânimo daquele que detém tais virtudes.

Mesmo a mediocridade hoje é ressaltada como que acoplada à humildade, sendo agora não sinônimo fatídico do homem desprezível, mas sim daquele que desprezando e chamando-se “medíocre” consegue os aplausos de meio mundo. Voltaire é mais esperto, e seus elogios à casta que despreza ultrapassam o limite do bom senso para se tornar, na leitura atenciosa do livro, como um verdadeiro ensaio substanciado na dissimulação pessoal. O francês, digno orientador de reis, mas colecionador interminável de inimizades, parte da ideia de que sua complacência e puxa-saquismo irão fazê-lo um real intérprete da realidade, pela qual temos o sofrimento relatado em seu primeiro conto, que termina dizendo:

“Num e noutro caso, o abuso da mais santa religião produziu um grande crime. É, portanto, do interesse do gênero humano examinar se a religião deve ser caridosa ou bárbara”.

O livro se serve de eventuais glórias à religião para que se proceda a crítica, muitas vezes baseadas em análises verdadeiramente amadoras da história. É ler suas falas sobre a perseguição aos cristãos, segundo o qual fora fomentada pela própria cristandade em sua atividade perversa, havendo tão só uma reciprocidade política viável como uma justiça cósmica, que comanda os acontecimentos. Em suma, segundo o dedo histórico de Voltaire, a perseguição ruminante do Império Romano começou de fato com a cristianização dos romanos. Coincide com algo que se percebe nos diálogos contemporâneos?

“Somos nós, cristãos, somos nós os perseguidores, os algozes, os assassinos!” é a estrutura que molda discursos vastos em detrimento do próprio cristianismo. Os exemplos são tão extensos que poderia eu ficar semanas citando casos, frases e teses em que o crítico, dissimulado em sua intenção maior e respaldado na enganação deliberada, promove a veracidade de suas palavras inserindo a si próprio no campo dos analisados, daqueles que são o alvo evidente da artimanha, ao ponto de ao final decretar-se um mártir verdadeiramente elucidado pela própria razão e auto-análise.

Essa inserção comina em duas vertentes de dissimulados, que ora propõem em conjunto a reanálise e mudanças profundas na estrutura institucional da religião: sob a influência de ser o intelectual ele mesmo um medíocre, cria-se o famoso abismo que impede aos incautos a constatação de sua hipocrisia, “pois como pode ser hipócrita aquele que se diz medíocre?”; mas sob a influência da covardia, o dissimulado continua a provar da água que vomita, sem contudo denunciá-la. Continua ele a andar escorado na religião, todavia imputando sobre ela as aflições de sua torpeza espiritual e minando, de palavra em palavra, os fundamentos essenciais da manutenção religiosa.

“Se alguém, bastante desprovido de boa fé ou bastante fanático, me perguntasse: por que apareces aqui para desvendar nossos erros e nossas faltas? Por que destruir nossos falsos milagres e nossas falsas lendas? Elas são o alimento da piedade de muita gente; […] Todos esses falsos milagres pelos quais é abalada a fé que se deve ter nos verdadeiros, todas essas lendas absurdas que são acrescentadas à verdade do Evangelho extinguem a religião dos corações”.

Caracteristicamente elucidado contra as manipulações maliciosas do clero, e entendido da fraqueza da justiça mediada pela Igreja, Voltaire se antecipa, como bom orador, às futuras advertências de sua investida. Cita ele sobre diversos casos religiosos aparentemente fraudulentos, os quais eu mesmo penso duvidar. Contudo, os exemplos apenas respaldam a máxima final, destinada a todos os crentes que o confirma não o confrontador e crítico de absurdos, mas sim “aquele que quer proteger a todos”, protegendo seguidamente o próprio cristianismo de sua destruição total. Ele é e se permite dizer, finalmente, um bom e estudioso cristão.

Seria Voltaire o precursor da mentalidade revolucionária?

Não sou um entusiasta; ou “conservadorismo juvenil”

Já afirmei diversas vezes, e quem me conhece sabe que de fato prezo por esta máxima, que se você deseja a seriedade em qualquer movimento, ainda que seja a reunião de tudo o que há de pior e melhor no mundo político, vá para longe do Brasil. Do liberalismo econômico ao conservadorismo político, a apresentação de novas figuras (dotadas de uma facilidade de acomodação das próprias redes sociais) implica na apresentação de novos problemas, tal como na constatação de novos desafios.

Nelson Rodrigues há décadas já afirmava que aquele que confia no jovem é um louco. Roberto Campos, na década de 80, afirmava que o problema do liberalismo brasileiro é sua inexperiência política (pois que defendida por jovens). O ortodoxo Dostoievski afirmava que os jovens têm a paixão das crianças, e também sua imaturidade. E se há algo que abarrota os meios conservadores atuais são jovens que, se imaturos ou de fato já esquecidos de que conservadorismo significa o estudo filosófico, conseguem antes eliminar de vez qualquer chance de prorrogação daquilo que se observa como um levante conservador, tendente à organização política. Não sou e provavelmente não serei um entusiasta desse ressurgimento. A volúpia das redes sociais, sua facilidade em deturpações e a inexistência de centro de estudos específicos me fazem pensar se a criação dos mesmos seria a criação de clubinhos juvenis, abarrotados de sonhadores que, muitas vezes, possuem o mesmo ímpeto e técnica revolucionários.

“Não gosto de Pedro Sette-Câmara, menos ainda de Leonardo Bruno, estes acomodados”, foi a frase de um jovem que no ativismo tentou explicar sua natureza inquieta. Para o tal – e tenho em mente que outros milhares pensam da mesma forma – a reflexão meramente teórica, justamente a mesma reflexão que descambou na consolidação do conservadorismo americano, faz parte de uma praxis subjetiva, porém essencialmente coletivista. Significa dizer, caros, que as novas bolhas conservadoras recentemente formadas contêm em si a mesma e igual perspectiva dos movimentos de esquerda, tão somente alterada a causa e suas implicações no mundo partidário, mas mantidas as consequências finais no anseio do poder.

Todos os grandes centros conservadores formados a partir da era Reagan foram por duas décadas avessos à politização e partidarização da intelectualidade conservadora. Em outros termos, relata-se que a teorização conservadora, sua concretização filosófica, antecede a uma formação conservadora partidária, que tão somente se alimenta de estruturas teóricas identificáveis e amparadas em estudos previamente analisados, discutidos, relevados, que se de fato incompatíveis com a tese conservadora são, portanto, descartados à luz de posições maturadas. A independência – ou, no máximo, a politização em partidos simbólicos – ressalta a natureza teórica do conservadorismo.

O conservadorismo é teorizador, e escapar desse pressuposto é decretar já de antemão o confinamento de qualquer movimento conservativista à sua diminuição tal qual um movimento de cunho estritamente ideológico, que não observa nada além da própria ambição politizadora. A ideologização do conservadorismo, seu amestramento a uma etapa diminuta e dissimulada da política, exige ao menos a consideração partidária em mesmo norte dos movimentos conservadores ingleses, hoje irrelevantes, hoje engolidos pelos discursos somente aqui e ali válidos na conjuntura política europeia. O afastamento da teorização é a destruição de qualquer pretexto conservador, e Voegelin já na década de 40 nos mostrava que política e intelectualidade somente se demonstram amigáveis se acompanhados de uma maturidade filosófica, escorada antes na maturidade individual.

Japão, Israel e EUA

Há alguns meses, escrevi:

“Se, como revelou o Charles Gomes, os samurais cristãos foram disseminados pelo absolutismo monárquico, que instaurou por quatro séculos a barbárie e incivilização, é certo que a Constituição Japonesa de 1947 definiu o início da monarquia nos moldes ingleses e a implementação de valores cristãos em uma sociedade assolada pela decadência das religiões orientais. A Constituição Japonesa se mantém inerte, com seus pontos fundamentais inalterados e recostados na reverência de uma nação à magnitude de princípios inafastáveis, pois que evidentemente superiores.

Eis o que separa o Japão que apoiou nazistas do Japão que apoia Israel.”

Explica novamente o Charles:

“O caso se aplica? Para quem não entende de história sim. Na Batalha de Saipan, segundo o historiador Herbert Bix, o Imperador Hirohito ordenou que todos os civis cometessem suicídio, e cerca de 22 mil civis, dos 25 mil que viviam na ilha, obedeceram. Em Okinawa, 1/3 da população da ilha cometeu suicídio (algumas vezes em ataques suicidas comandados por militares). Isso sem contar as baixas só do exército, onde muito poucos de milhares sobreviviam, para se ter idéia em Iwo Jima, de 19 mil soldados japoneses, apenas 200 sobreviveram, e em Saipan, dos 31 mil, 921 mantiveram a vida.¹

A linha entre militar e civil era embaçada devido a religião e código militar dos japoneses, uma invasão poderia causar um grande genocídio, além claro, de baixas americanas. Aliás, é complicado achar um inimigo de guerra que após a derrota do outro, ajudou o seu inimigo a se recuperar, é talvez por isso, que o anti-americanismo nesse caso é mais forte aqui que no Japão, que hoje é um aliado americano.

A vida de milhares em Hiroshima e Nagasaki ajudou a salvar milhares de outras e até o Japão. Foi um sacrifício heróico e eficiente e uma decisão muito difícil que quem critica muitas vezes não percebe (e não quer perceber) as nuances, afinal, se quer ser popular entre os intelectuais brasileiros seja como o professor Carlão, que é mais um comediante stand-up que um professor.”

11 de Setembro, há dez anos

Na escola, em plena aula de Geografia Nacional, estava eu sentado quando outro professor aterrorizado nos avisa, ofegante, escancarando a porta: “os Estados Unidos estão sendo atacados!”. Se naquela época, influenciado por poucas mentes, já tinha a leve noção das sutilezas do esquerdismo enquanto fomentador de culturalismos (conceito contudo que ainda não conseguia definir), foi no instante posterior, minutos após, em que se clareou acerca da efetividade de uma educação escolar que abrangia da demonização do mérito à exaltação de Mao enquanto pacificador político. Crianças, corremos todos à sala central, onde estava ligada uma TV. O choque era total, e atemorizados estavam todos perante as cenas que muitos julgavam ser mera fantasia – e, veja, já à época, uma manipulação propagandística e ideológica americana. Os professores estavam evidentemente sorridentes, como que presentes em um espetáculo que, se gratuito, proporcionava grandes emoções dignas de serem eternamente relembradas. Choca-se o segundo avião. Os mestres, em contraste aos alunos ali presentes, gritam adolescentemente, aplaudem e, não menos que em segundos, fazem piadas sobre como e em quais circunstâncias esse ato poderia se dar como “uma primeira derrota estadunidense”, para se usar as palavras opulentas.

Tal comportamento resplandecia entretanto uma característica essencial de povos assumidamente oprimidos, segundo critérios que se elencados poderiam compor teses e prosas. Os jornais mostravam, eis que perfidamente, palestinos, islâmicos, franceses, bolivianos, chineses, peruanos e outros povos em verdadeira comemoração daquilo que se viu. Churrascos eram promovidos nos diretórios acadêmicos e em sedes de partidos. Palestinos saltavam às ruas, conclamando o fim da era de opressão. Bolivianos, magros e esfomeados, aparentemente decadentes à frente de ruas destruídas e de aparência fétida, gritavam com felicidade talvez a mesma mensagem de esperança.

A beleza de não entender certas coisas quando se é menor é ter a imagem como que fincada na memória, o que nos permite uma análise posterior talvez mais acurada. Hoje, a observação do “11 de setembro” como o dia em que se almejou a derrocada americana não passa de vislumbres irrelevantes, cujos detalhes se inclinam a novos atentados que, por fim, proporcionarão novos espetáculos. Por meio das redes sociais tenho contato com alguns daqueles professores. E tenho assegurado que a perversidade comemorativa de antes é atualmente a vergonha que desmascara a retórica do humanismo enquanto afirmação política, os quais são adeptos em massa.

Os atentados de 11 de setembro é a pura expressão da batalha e do abismo que existe entre a civilização e os bárbaros, entre a consagração da moral ocidental e a subjugação do animalismo ao exercício de atos homicidas. Se houve revelações, revelou-se então a sordidez e os limites que delimitam os motivos pelos quais o ocidentalismo é menosprezado enquanto afirmação de valores incompatíveis com determinados credos, dos quais incluo aqui o esquerdismo. A esquerda louvou os atentados terroristas e continua a reverenciar seus mentores, mas esqueceu que veio dos atentados a derrota virtual, mas gradativa e inevitável, do socialismo europeu. Foi com a visualização dos limites civilizatórios que em discussões parlamentares foram reconhecidos os erros de políticas de controle de natalidade fomentadas pelo Estado, dentre os quais as últimas reformas da chamada “baixa Europa”.

Quem diria que, após 10 anos da proclamação pela esquerda do fim dos valores ocidentais, viriam alguns países declarar como crime a negação do genocídio comunista? Ou que o multiculturalismo, amado desde sempre pela esquerda, viria a ser negado pela maior autoridade política europeia da atualidade? A dança continua, mas os aplausos à barbárie serão mais uma vez ouvidos. Disso, tenha certeza.

Estado vs. Iniciativa Privada

Aqui:

“Por fim, pesa o ônus trabalhista: os Correios nos EUA têm um quadro de funcionários altamente sindicalizado, e muitos contratos incluem cláusulas contra demissão sem justa causa e programas de pensões generosos.

Apesar do enxugamento drástico na última década, os custos não se comparam aos da concorrência no cálculo do “New York Times”, a FedEx consome 32% de sua receita com salários.

De olho nesse gasto, entre as medidas debatidas pelo Congresso no Dia do Trabalho, está um saque no fundo de pensões dos funcionários.”

Nada a declarar.

A violência simbólica do feminismo

Há um tempo falei sobre a relação íntima entre a animalização dos sentidos e o feminismo enquanto ideologia [política]. O conceito da “violência simbólica” a seguir trata bem desse tipo de estruturação de subjugação do sexo feminino em toda e qualquer falácia argumentativa, ao ponto de tão somente a existência da figura do “macho” ser estritamente a opressão ressentida. É dizer: se o feminismo exige o respeito, o exige por meio da retórica do vitimismo de gênero, que hoje também compõe os gritos do movimento homossexual.

No Perspectivas:

“Para além da visão parcial da realidade e política e ideologicamente orientada, o feminismo adopta o conceito de “violência simbólica” que não é só de Pierre Bourdieu, mas foi essencialmente desenvolvido pelo desconstrutivismo que culminou em Derrida, conforme escrevi aqui. Aliás, o conceito de “violência simbólica” não tem uma definição, mas antes baseia-se em puras análises subjectivas da realidade — ou seja, a violência simbólica é aquilo que eu quero, tu desejas, e eles e elas imaginam. No próprio texto não consegui encontrar uma definição de violência simbólica aplicado ao sexo masculino.

No conceito de “violência simbólica” pode caber tudo o que tu quiseres e achares necessário à sustentação da tua ideologia, com a vantagem de não existir uma definição.

Assim, qualquer acto ou comportamento do homem, pelo simples facto de ter alguma característica marcadamente masculina, pode ser considerado como sendo “violência simbólica”, o que significa, em termos práticos, a tentativa da negação cultural da essência masculina. Por exemplo, o simples facto de o homem, em termos gerais, falar menos do que a mulher, pode ser considerado como uma forma de “violência simbólica” da parte do homem em relação à mulher, porque alegadamente recusa ou não participa na forma feminina de se expressar. E o facto de o homem urinar de pé, pode ser considerado um acto de violência simbólica.

O conceito de violência simbólica masculina pode aplicar-se a tudo o que quisermos: é só escrevermos o menu. E exactamente porque o uso do conceito é arbitrário e discricionário, é irracional. Não é por acaso que este e outros conceitos desconstrutivistas aproveitados pelo feminismo, foram elaborados por homens: o desiderato é ideológico (religião política), e portanto, apela à irracionalidade do ser humano em geral, e especialmente à irracionalidade das mulheres.”