Calvino e calvinismos

Assumo que grande parte do que escrevo decorre de conversas casuais, as quais revelam mais que centenas de páginas de livros especializados. Não diferentemente com este texto que aqui vos oferta a leitura, e tentando não retornar a velhas discussões já ultrapassadas, a conclusão a que se chegou em uma dessas conversas infere em uma máxima quase axiomática: o isolacionismo calvinista ora permitiu a manutenção quase imutável do movimento em seus fundamentos, ora em estagnação teológica, que atualmente se encontra em estado crítico. Em outras palavras, as figuras que representam o calvinismo contemporâneo permitem a análise do movimento enquanto tradição cristã válida, mas que ao mesmo tempo tenta, de toda forma, sufragar outros entendimentos sob a retórica de discordâncias bíblicas. Em tese, ao menos no que concerne a uma teorização de cunho sistemático, a sentença já está sendo dada.

Mas reconheço que essa estagnação decorre também de fenômenos anti-teológicos, que em nome da teologia fez surgir aberrações literalmente anti-cristãs. Na defesa da teologia cristã, o que chamaria de “presbitarianismo” fez por bem enterrar definitivamente as conhecidas “teologias libertárias”, que tinham sob si o marxismo. O enterro foi tamanho que hoje essa mesma “teologia” é desconsiderada entre seus pretéritos defensores, sendo apenas mencionada por bocas já escancaradas como de fato heréticas e comprometidas com a destruição silenciosa do cristianismo.

Da mesma forma, insistem em atribuir características libertárias a teses teológicas que já se mostraram dentro de uma possibilidade cristã. Ao tempo em que o cristianismo se afastou do chamado “absolutismo determinista”, que dominou a teologia protestante até o Século XIX, criou-se também novas perspectivas que abraçaram tanto o calvinismo como o arminianismo, indo da ortodoxia ao pentecostalismo, do catolicismo romano ao luteranismo universalista.

Ou será que o chamado “estudo aprofundado da teologia” abrange somente o “estudo aprofundado das frases de Calvino”?

Lembro-me quando, em uma discussão, eram citadas palavras de Calvino, das quais não havia qualquer relação, sequer bíblica, com aquilo que se propagava como sendo “essencialmente calvinista”. Apesar de todos serem em massa presbiterianos, desconheciam os fundamentos das teses de Calvino, que foram posturas não em unidade teológica uniforme, mas sim em uma análise bíblica de questões que abrangiam da fé à política, da crença abstrata à ortodoxia. É citar Miguel Servet e os ânimos teológicos são desconsiderados para formar uma verdadeira defesa automática de atuações políticas controversas. A defesa do calvinismo enquanto teologia se tornou a defesa da pessoa de Calvino, ou estamos perante uma situação isolada que assola os calvinistas nacionais, talvez não muito distantes da mesma obtusidade que amestrou o catolicismo latino?

É a pergunta que faço também com relação à estagnação teológica calvinista nacional. Fenômeno regionalista, ou de fato fenômeno que abrange toda e qualquer vertente denominacional baseada nas teses de Calvino?