Para o seu bem

Do Charles Gomes.

De todas as tiranias, aquelas exercidas sinceramente para “o bem” de suas vítimas podem ser as mais opressivas. Seria melhor viver sob barões ladrões do que sob “onipotentes” metidos à moralidade. A crueldade do barão pode, por vezes, adormecer, e a sua cobiça pode em algum momento ser saciada; mas aqueles que atormentam-nos para “o nosso próprio bem” vão nos atormentar sem fim, pois fazem isso com a aprovação da própria consciência.

C. S. Lewis

E mais, no Perspectivas, apesar de considerar Calvino justamente aquele que reafirmou costumes diametricalmente esquecidos pela Igreja, como a usura e a eucaristia, questão que será melhor aproveitada em um futuro artigo:

A fabricação de novos direitos começa sempre por um qualquer direito negativo atribuído ao cidadão; esse direito negativo é sempre um direito à negação de um costume, de uma tradição ou de uma lei moral — direito à negação, esse, que se transforma em letra de lei.

Os novos direitos do indivíduo, fabricados pelo movimento revolucionário, apelam invariavelmente à fraqueza humana, ou seja, invocam um qualquer aspecto negativo da sociedade que introduz os novos direitos como um carácter consistente da ordem social.

Foi assim desde que Calvino se serviu da negação dos costumes e da tradição católica como um direito negativo do cidadão da cidade teocrática de Genebra.

Teoricamente, esse direito negativo primordial transporta consigo mais deveres do que direitos (puritanismo), mas o que se verifica na prática é apenas a pulverização consequente de novos direitos sem que a natureza humana seja minimamente beliscada ou alterada, o que serve de esteio a sucessivos e sempiternos totalitarismos.