Maquiavel em duas faces

Para Olavo de Carvalho (leia-se: o que interpreto de seus escritos), a dissimulação maquiavélica transcende ao mero distúrbio de caráter para adentrar em uma afronta significativa à religião. De forma que Maquiavel, então intimamente vocacionado a fazer da política uma extensão da perversidade diabólica, promove indistinções reais entre o personagem – criado pela crítica majoritária como de fato um adorador do Estado absoluto – e sua tese essencial de O Príncipe – que fez do italiano um inescrupuloso, politicamente maléfico e tão somente preocupado em perpetuar o Estado vigoroso. Maquiavel, portanto, seria além de um teórico também pessoa de caráter desprezível, manipulador constante dos anseios de seus conhecidos mais simples e pobres e bajulador fugaz dos poderosos políticos.

Isaiah Berlin em “Estudos sobre a humanidade” já não lhe imputa tamanha sordidez. Para o inglês, Maquiavel não era um filósofo, sequer um grande conhecedor das filosofias para que lhe sejam confinadas as perversidades de um sujeito acima dos próprios ímpetos e realmente capaz de produzir um sistema filosófico condizente, compreensível. Daí que a contradição espalhafatosa entre O Príncipe e o republicano Discurso é justamente a oposição comum daqueles que, desapegados à consistência filosófica, fazem-se ora abraçados em uma paixão, ora em outra. Maquiavel, assim, era tão somente um teórico comum de um utilitarismo sincero, porém de expressividade reconhecida.

Contudo, assumo que as adjetivações atribuídas por Carvalho a Maquiavel são no mínimo interessantes, mas nunca inéditas. Repetem-se costumeiramente, já que é praticamente impossível consolidar outras teses que não aquelas já produzidas, ainda que se tente de toda maneira reformular os fundamentos básicos de velhas interpretações. É dizer que a magnitude de “Maquiavel ou A confusão demoníca” não se encontra em uma releitura nunca antes imaginada nas entranhas dos estudos maquiavélicos, e sim na relação clara que o autor faz entre Maquiavel e seus escritos, citando inclusive acontecimentos pessoais e que podem eventualmente sugerir de fato a dissimulação perversa com a qual a maioria o vincula como um personagem criador do totalitarismo perfeito.

Se tal característica torna a obra única, também é por ela que qualquer interessado em concepções filosóficas sobre Maquiavel pode vir a rejeitá-la, tal qual a doutrinação anti-nietszcheana que se baseou em desmerecimentos pessoais, por exemplo, na relação entre o filósofo e sua irmã. Isso ocorre pelo desprezo sempre presente de qualquer descrédito filosófico que tenha como alicerce da chamada difamação “ad hominem”. Diz-se que, se pessoalmente perverso mas de bela filosofia, estudar-se-á a filosofia, e não o filósofo. Sua biografia é indistinta e totalmente alheia aos seus escritos, devendo por ser restrita a meras investigações paralelas, as quais não contaminariam suas teses.

Nesse ponto cresce o abismo entre Isaiah Berlin e Olavo de Carvalho, porquanto o primeiro, ao contrário do segundo, observa Discurso um argumento de fato honesto, nele não se imputando qualquer perversidade subliminar. Se não era filosofo, separar então a moral da política era mera condição essencial na constituição do Estado proposto, ainda que, naqueles tempos, não imaginado como possível. Da mesma forma, ironiza a atribuição demoníaca feita ao italiano pelos chamados “elisabetanos”:

“Mas a visão mais comum de Maquiavel, pelos menos como pensador político, é a ainda a da maioria dos elisabetanos, tanto dramaturgos como eruditos, para que ele é um homem inspirado pelo diabo para levar os homens à sua ruína, o grande subversivo, o professor do mal, le docteur de la scélératesse, o inspirador da Noite de São Bartolomeu, o original de Iago. Esse é o “Maquiavel asssassino” das famosas quatrocentas e poucas referências na literatura elisabetana. Seu nome acrescenta em novo ingrediente à figura mais antiga de Old Nick. Para os jesuítas, ele é “o parceiro do diabo no crime”, “um escritor desonrado e um ateu”, e O Príncipe é, nas palavras de Bertrand Russell, “um manual para gângsteres (compare-se essa declaração com a descrição do livro feita por Mussolini como um “vade mecum para os estadistas”, uma visão tacitamente compartilhada, talvez, por outros chefes de Estado). Essa é a visão comum a protestantes e católicos, Gentillet e François Hotman, cardeal Pole, Bodin e Frederico, O Grande, seguidos pelos autores de todos os muitos antimaquiavéis, e entre os mais recentes desses últimos estão Jacques Maritain e Leo Strauss”. (Berlin, “Estudos sobre a humanidade”, Ed. Schwarcz, p. 305, 2002)

Berlin antecipou Carvalho, o qual está, ao menos no que condiz às características maléficas de Maquiavel, inserido em antigos movimentos hoje esquecidos. Em uma análise estritamente filológica diria que Berlin nos proporciona teses mais maduras, mas que não abrangeram, por exemplo, as suposições de uma confusão proposital pelo italiano ao ponto de maquiar sua maleficência dissimulada.

Posteriormente explicarei sucintamente os motivos pelos quais considero Isaiah Berlin, no que concerne aos estudos maquiavélicos, ainda uma referência inescapável, da qual sequer conseguiu escapar Olavo de Carvalho.

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