Breve discurso sincero para todos os povos e nações

A decadência do estudo filosófico corrobora a desgraça filosófica das academias. Na teologia, a propagação de reinterpretações insensatas e de cunho estritamente ideológico persevera nos estudos teológicos a ideia de que qualquer um, imbuído de boas intenções e bom público, pode se dar ao prazer de lançar ao vento “uma visão revolucionária” da tese. Não coincidentemente, o revolucionarismo atual está intimamente ligado à inconstância dos adolescentes, que tentam a todo modo ser levados a sério na implementação de atos ora infantis, ora de pretensa maturidade.

Os exemplos são vastos. Quem há 100 anos imaginaria Nietszche sendo alvo da baixa-literatura dos livros de auto-ajuda? Quem imaginaria Platão sendo escorado como um “filósofo da felicidade”? Nesse ponto, a teologia e a filosofia caminham juntas para o mesmo precipício, tendo em vista que para ambas a condenação da literatura utilitarista – esta que como um vírus se apossa de nomes, títulos, fatos e coisas – é iminente e inevitável.

Mas a crítica à auto-ajuda faz do crítico uma ameba fora dos anseios mais puros externados por tais autores. Se podemos dizer que Nietzsche hoje virou uma estrela literária, posso também afirmar que Rubem Alves se tornou um teólogo de interpretações inimagináveis, e por isso tão cativantes. Aquele teve seu aspecto filosófico rebaixado à auto-ajuda; este teve sua condição de escritor medíocre elevado a de teólogo de novas fronteiras.

Por isso, lanço aqui a sincera proposta universal e de bom coração para todos os povos e nações: que a auto-ajuda seja retirada das estatísticas de literatura consumida. A auto-ajuda seria um prospecto de seleção do bom e mau leitor; um verdadeiro filtro, utilizada pelas universidades como histórico de medição da inteligência média. Presidentes e primeiro-ministros que tiverem em seus currículos a leitura de auto-ajudas seriam execrados pelo povo e humilhados em praça pública. Reis e rainhas seriam guilhotinados e o Papa, removido. Haveria perseguições. Livrarias que colocassem um livro de auto-ajuda na vitrine seriam queimadas sob os gritos do povo. Ao comprá-lo, saberia o pretenso leitor que de nada adiantaria reclamar quando, recebendo alguém em sua residência, falasse o visitante em tom repugnante de descaso: “mas você só lê auto-ajuda? Onde estão os livros?”.