Chesterton comenta Deepak Chopra

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Tem aparecido em nossos dias uma classe particular de livros e artigos que sincera e solenemente penso que possa ser chamada a mais idiota que os homens já conheceram. São livros mais selvagens que os romances mais selvagens de cavalaria e mais enfadonhos do que o mais enfadonho tratado religioso. Ademais, os romances de cavalaria eram pelo menos sobre cavalaria; os tratados religiosos sobre religião. Mas esses livros são sobre nada; são sobre o que é chamado de Sucesso. Em qualquer livraria, em qualquer revista, você encontrará obras dizendo ao povo como ter sucesso. São livros mostrando aos homens como obter sucesso em tudo; eles são escritos por homens que não conseguem obter sucesso escrevendo livros. Para começar, não há certamente tal coisa chamada sucesso. Ou, se você desejar, não há nada que não seja bem sucedido. Que uma coisa seja bem sucedida apenas significa que ela é; um milionário é bem sucedido em ser milionário e um asno é bem sucedido em ser um asno. Qualquer vivente é bem sucedido em viver; qualquer falecido pode ter sido bem sucedido no suicídio. Mas, ignorando a má lógica e filosofia da frase, podemos considerar o sucesso, como os escritores fazem, no sentido ordinário de obter dinheiro ou uma posição na vida. Esses escritores afirmam que podem ensinar o homem comum a obter sucesso em seu negócio ou especulação – como, se ele é um construtor, ele pode obter sucesso como construtor; como, se ele é um corretor da bolsa, ele pode ser bem sucedido como corretor da bolsa. Eles afirmam que podem ensiná-lo como, se ele é um merceeiro, ele pode ser um dono de iate; como, se ele é um jornalista de décima categoria, ele pode se tornar um nobre; e como, se ele é um judeu alemão, ele pode se tornar um anglo-saxão. Esta é uma proposta do tipo comercial, e penso realmente que as pessoas que compram esses livros (se alguém os comprar realmente) têm um direito moral, se não legal, de exigir seu dinheiro de volta. Ninguém ousaria publicar um livro sobre eletricidade que não dissesse literalmente nada sobre eletricidade; ninguém ousaria publicar um artigo sobre botânica que demonstrasse que o autor não sabe qual extremidade de uma planta cresce debaixo da terra. Todavia, nosso mundo moderno está cheio de livros sobre Sucesso e pessoas bem sucedidas que não contêm literalmente nenhuma idéia e dificilmente algum sentido verbal.

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Infelizmente, contudo, Midas pode falhar; ele falhou. Seu caminho não o levou infalivelmente para o alto. Ele morreu de fome porque tudo que ele tocava, um biscoito ou um sanduiche de presunto, virava ouro. Esse é o ponto central da história, embora o escritor tivesse de suprimi-lo deliberadamente, ao escrever tão proximamente a um retrato de Lord Rothschild. As antigas fábulas da humanidade são, de fato, incompreensivelmente sábias; mas não devemos corrigi-la no interesse do Sr. Vanderbilt. Não devemos apresentar o Rei Midas como exemplo de sucesso; ele foi um fracasso de um tipo dolorosamente raro. Ademais, ele tinha orelhas de burro. E também (como muitas outras pessoas ricas e proeminentes) ele empenhou-se em ocultar o fato. Foi seu barbeiro (se me lembro bem) quem teve de guardar segredo dessa peculiaridade; e ele, ao invés de se comportar como uma pessoa empreendedora da escola do sucesso-a-todo-custo e tentar chantagear o Rei Midas, foi sussurrar essa esplêndida pérola de escândalo social para os caniços, que se deliciaram enormemente. Conta-se também que eles sussurraram o fato enquanto os ventos os balançavam para lá e para cá. Olho reverentemente para o retrato de Lord Rothschild; leio reverentemente sobre as proezas de Vanderbilt. Sei que não posso transformar tudo que toco em ouro; mas também sei que nunca tentei, tendo eu a preferência por outras substâncias, como a grama e um bom vinho. Sei que essas pessoas foram certamente bem sucedidas em alguma coisa; que elas certamente ultrapassaram alguém; sei que elas foram reis num sentido que nenhum rei tinha sido antes; que elas criaram mercados e transpuseram continentes. Todavia, sempre me parece que há algum fato doméstico que estão escondendo, e algumas vezes penso ouvir do vento a risada e o sussurro dos caniços.

Pelo menos, esperemos que vivamos todos para ver esses livros absurdos sobre o Sucesso cobertos propriamente de escárnio e abandono. Eles não ensinam as pessoas a obterem o sucesso, mas ensinam-nas a serem esnobes; eles realmente difundem um tipo de má poesia do materialismo. Os puritanos estão sempre denunciando livros que inflamam a luxúria; o que diremos dos livros que inflamam as mais vis paixões da avareza e do orgulho? Cem anos atrás, tínhamos o ideal do Aprendiz Diligente;[3] era ensinado aos garotos que com parcimônia e trabalho eles todos se tornariam Lord Mayors.[4] Isso era falacioso, mas era viril, e continha um mínimo de verdade moral. Em nossa sociedade, temperança não evitará que um pobre enriqueça, mas pode ajudá-lo a se respeitar. Trabalho duro não o fará um homem rico, mas fá-lo-á um bom trabalhador. O Aprendiz Diligente sobe por meio de poucas e limitadas virtudes, mas ainda assim virtudes. Mas o que dizer do evangelho pregado pelo novo Aprendiz Diligente; o aprendiz que sobe não pelas suas virtudes, mas abertamente pelos seus vícios.

Chesterton