Breivik concede um presente a outros genocidas

Os fatos não importam, e sejam quais forem as conclusões finais, Anders Behring Breivik será contado na história como um cristão fundamentalista, que influenciado pela direita percorre ideias que vão do anti-islamismo à condenação da imigração dos países africanos. Breivik então se tornou mais um cristão fundamentalista na mesma esteira de outros pastores, padres, bispos e presbíteros que pregam do animalismo do Islã à decadência inevitável do multiculturalismo. “São todos iguais”, gritam.

Significa dizer, caros leitores, que alguns dos pontos mais alavancados pela imprensa são de fato assuntos pertinentes, senão já constatados em centenas de obras publicadas. Breivik, tal como qualquer ativista, tão somente seguiu preceitos que, se válidos e inválidos, são defendidos por grandes nomes do conhecimento, nomes estes também odiados por quem necessita construir e fazer do pluralismo a gênese da chamada “nova civilização”.

Se me perguntarem um dia: “você viu aquele louco que falou isso e aquilo?”, não hesitarei em responder que a loucura de Breivik foi ter matado crianças, adultos e idosos como um autêntico revolucionário, mas que suas teorias, bem, nisso podemos ter alguma convergência. Essa é uma questão importante, pois não dou alguns meses para que seu manifesto de mil e quinhentas páginas seja considerado o novo Mein Kampf do Século XXI. E ai de quem tenha interesse em lê-lo.

A situação é instigante. Breivik abriu espaço para que o conservadorismo seja tratado, definitivamente, como uma ideologia que gera caos e loucuras das mais diversas, e não me espanta que já os conservadores sejam equiparados a verdadeiros nazistas (mesmo que suas ideias sejam de fato opostas). Perde também o cristianismo, que será citado. Foi aberto um novo campo de discussão antes inexistente: com Breivik, o Ocidente agora terá seu primeiro terrorista em prol de causas [inicialmente] ocidentais, ainda que o modus operandi seja caracteristicamente revolucionário; ainda que o nazismo seja uma ideologia partidária coletivista e estatizante; ainda que o darwinismo, conforme disse o próprio, seja então sua religião.

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Sobre o “terrorismo cristão”

Retirado d’aqui.

Agora que o consenso dos bem-pensantes já decidiu que Anders Breivik era cristão, neo-liberal e membro do Tea Party, olhemos para o depoimento que ele próprio deixou.

“Se você tem um relacionamento pessoal com Jesus Cristo e Deus, entáo você é um cristão religioso. Eu e muitos outros como eu não temos necessariamente um relacionamento pessoal com Jesus Cristo e Deus. Acreditamos, contudo, no Cristianismo como uma plataforma cultural, social, moral e de identidade. Isso nos faz cristãos. … A Cristandade européia e a cruz serão o símbolo no qual todo conservador cultural pode se unir em nossa defesa comum. Ele deve servir como o símbolo de união para todos os europeus, sejam eles ateus ou agnósticos.” (pág. 1309 do manifesto)

Ou seja: por admissão próprio, Breivik não é um cristão religioso. Bem, o Cristianismo é uma religião. Uma religião que gerou, junto com outras influências, uma cultura e uma civilização a que chamamos de ocidentais. Breivik é “cristão” apenas no sentido de querer preservar essa cultura historicamente ligada ao Cristianismo, mas que não se confunde com ele. Afinal, é possível ser cristão sem ser ocidental: coptas, maronitas e siro-malabares são todos cristãos, mas não são ocidentais. O Cristianismo dessas terras data de antes de existir uma civilização ocidental propriamente dita, à qual sempre correu paralelo. Assim, podemos até dizer que Reivik gosta e adere a um dos frutos do Cristianismo, embora rejeite a árvore.

Mark Juergensmeyer, no Huffington Post, argumenta que, se Reivik não é um terrorista cristão, então Osama Bin Laden não era terrorista islâmico, pois seu foco também era mais político que religioso. Primeiro há que se ver se a relação de Bin Laden com o Islã era meramente cultural e política. Se for o caso, então de fato Bin Laden também não era propriamente um terrorista islâmico. Agora, o mero fato de dar muita importância à política e à história não faz dele, necessariamente, um muçulmano meramente cultural. A adesão sincera a uma religião, principalmente quando essa religião se preocupa com o mundo e com a sociedade, como o Cristianismo e o Islã, não é incompatível com uma forte preocupação política. Bin Laden falava mais de política e história do que de teologia; e daí? Não é preciso ser teólogo para se aderir, profunda e honestamente, a uma religião.

Se Osama era muçulmano, não sei. Sei que Anders Reivik pode até se dizer cristão, e alguns podem até chamá-lo de cristão; só tenhamos em mente que esse “Cristianismo” é, pela própria admissão do terrorista, essencialmente diferente da religião cristã, a qual é completa e inequivocamente incompatível com um massacre desse tipo.

Rednecks e propriedade privada

A depreciação dos chamados “rednecks” (trabalhadores americanos rurais do sul conhecidos pela pele avermelhada, por consequência da exposição constante ao sol escaldante) não é somente uma piada a determinado grupo de características comuns, mas também a depreciação do labor familiar que estruturou instituições e consolidou a defesa irrestrita da propriedade privada, mediante a exaltação do cristianismo. Se na literatura do Século XIX foram conhecidos como os imigrantes do norte europeu que conquistaram terras e respeito mediante o esforço individual e a rejeição a qualquer amparo do Estado, hoje são chamados “rudes” que, se de fato rudes, representam um dos últimos movimentos anti-coletivistas dos Estado Unidos. Não obstante, grande parte de seus detratores são esquerdistas latinos ou, além, liberais progressistas que formam uma identidade universal inseparável: a de rechaçar qualquer grupo que não queira se adaptar às novas infecções culturais.

Maquiavel em duas faces

Para Olavo de Carvalho (leia-se: o que interpreto de seus escritos), a dissimulação maquiavélica transcende ao mero distúrbio de caráter para adentrar em uma afronta significativa à religião. De forma que Maquiavel, então intimamente vocacionado a fazer da política uma extensão da perversidade diabólica, promove indistinções reais entre o personagem – criado pela crítica majoritária como de fato um adorador do Estado absoluto – e sua tese essencial de O Príncipe – que fez do italiano um inescrupuloso, politicamente maléfico e tão somente preocupado em perpetuar o Estado vigoroso. Maquiavel, portanto, seria além de um teórico também pessoa de caráter desprezível, manipulador constante dos anseios de seus conhecidos mais simples e pobres e bajulador fugaz dos poderosos políticos.

Isaiah Berlin em “Estudos sobre a humanidade” já não lhe imputa tamanha sordidez. Para o inglês, Maquiavel não era um filósofo, sequer um grande conhecedor das filosofias para que lhe sejam confinadas as perversidades de um sujeito acima dos próprios ímpetos e realmente capaz de produzir um sistema filosófico condizente, compreensível. Daí que a contradição espalhafatosa entre O Príncipe e o republicano Discurso é justamente a oposição comum daqueles que, desapegados à consistência filosófica, fazem-se ora abraçados em uma paixão, ora em outra. Maquiavel, assim, era tão somente um teórico comum de um utilitarismo sincero, porém de expressividade reconhecida.

Contudo, assumo que as adjetivações atribuídas por Carvalho a Maquiavel são no mínimo interessantes, mas nunca inéditas. Repetem-se costumeiramente, já que é praticamente impossível consolidar outras teses que não aquelas já produzidas, ainda que se tente de toda maneira reformular os fundamentos básicos de velhas interpretações. É dizer que a magnitude de “Maquiavel ou A confusão demoníca” não se encontra em uma releitura nunca antes imaginada nas entranhas dos estudos maquiavélicos, e sim na relação clara que o autor faz entre Maquiavel e seus escritos, citando inclusive acontecimentos pessoais e que podem eventualmente sugerir de fato a dissimulação perversa com a qual a maioria o vincula como um personagem criador do totalitarismo perfeito.

Se tal característica torna a obra única, também é por ela que qualquer interessado em concepções filosóficas sobre Maquiavel pode vir a rejeitá-la, tal qual a doutrinação anti-nietszcheana que se baseou em desmerecimentos pessoais, por exemplo, na relação entre o filósofo e sua irmã. Isso ocorre pelo desprezo sempre presente de qualquer descrédito filosófico que tenha como alicerce da chamada difamação “ad hominem”. Diz-se que, se pessoalmente perverso mas de bela filosofia, estudar-se-á a filosofia, e não o filósofo. Sua biografia é indistinta e totalmente alheia aos seus escritos, devendo por ser restrita a meras investigações paralelas, as quais não contaminariam suas teses.

Nesse ponto cresce o abismo entre Isaiah Berlin e Olavo de Carvalho, porquanto o primeiro, ao contrário do segundo, observa Discurso um argumento de fato honesto, nele não se imputando qualquer perversidade subliminar. Se não era filosofo, separar então a moral da política era mera condição essencial na constituição do Estado proposto, ainda que, naqueles tempos, não imaginado como possível. Da mesma forma, ironiza a atribuição demoníaca feita ao italiano pelos chamados “elisabetanos”:

“Mas a visão mais comum de Maquiavel, pelos menos como pensador político, é a ainda a da maioria dos elisabetanos, tanto dramaturgos como eruditos, para que ele é um homem inspirado pelo diabo para levar os homens à sua ruína, o grande subversivo, o professor do mal, le docteur de la scélératesse, o inspirador da Noite de São Bartolomeu, o original de Iago. Esse é o “Maquiavel asssassino” das famosas quatrocentas e poucas referências na literatura elisabetana. Seu nome acrescenta em novo ingrediente à figura mais antiga de Old Nick. Para os jesuítas, ele é “o parceiro do diabo no crime”, “um escritor desonrado e um ateu”, e O Príncipe é, nas palavras de Bertrand Russell, “um manual para gângsteres (compare-se essa declaração com a descrição do livro feita por Mussolini como um “vade mecum para os estadistas”, uma visão tacitamente compartilhada, talvez, por outros chefes de Estado). Essa é a visão comum a protestantes e católicos, Gentillet e François Hotman, cardeal Pole, Bodin e Frederico, O Grande, seguidos pelos autores de todos os muitos antimaquiavéis, e entre os mais recentes desses últimos estão Jacques Maritain e Leo Strauss”. (Berlin, “Estudos sobre a humanidade”, Ed. Schwarcz, p. 305, 2002)

Berlin antecipou Carvalho, o qual está, ao menos no que condiz às características maléficas de Maquiavel, inserido em antigos movimentos hoje esquecidos. Em uma análise estritamente filológica diria que Berlin nos proporciona teses mais maduras, mas que não abrangeram, por exemplo, as suposições de uma confusão proposital pelo italiano ao ponto de maquiar sua maleficência dissimulada.

Posteriormente explicarei sucintamente os motivos pelos quais considero Isaiah Berlin, no que concerne aos estudos maquiavélicos, ainda uma referência inescapável, da qual sequer conseguiu escapar Olavo de Carvalho.

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Leia também: Maquiavel e Estado

A Preservação da Democracia (Parte I)

Texto traduzido pelo Érick Luiz Wutke Ribeiro, também editor e autor do blog Império Conservado. A seguir, todo o texto conforme publicado.

[Este é um excerto retirado de um ensaio finalizado em Novembro de 1939, dois meses após o início da Segunda Guerra Mundial. As considerações de Voegelin sobre as ações e atitudes requeridas para a sobrevivência da democracia naqueles dias são tão válidas quanto hoje. Este excerto aparece em três partes]

Parte 1: A Primeira Condição

De acordo com ideia popular, [democracia] é uma forma de governo em que o governo faz o que o povo quer; e as pessoas defendem, um governo que age conforme seus interesses, participando no procedimento governamental por meio de eleição de representantes legislativos e de cargos executivos e judiciais que dependem da condução dos assuntos enquanto ocupam o cargo para serem reeleitos. Esta é uma descrição razoavelmente correta do lado estrutural da democracia, e o único problema com isso é o fato de que o lado estrutural não tem muita significância.

Sabemos – por meio dos esforços dos principais acadêmicos que analisaram os problemas do parlamentarismo e representação popular no último centênio, por Hegel e Bagehot, por Grey e Renan, por Mosca, Pareto, LeBon e Max Weber – que o problema essencial de uma democracia que funciona não é o voto do povo, mas antes o tipo de elite governante e suas relações com a massa popular. A eleição de homens e votação de demandas é a última e relativamente menos importante fase do processo democrático. A pergunta decisiva é, Quem molda as demandas e quem dispõe a oferta dos homens?

[O plebiscito foi usado pelos Nazistas] porque é um procedimento aceito como legítimo no mundo das ideias políticas do Ocidente; e foi usado com sucesso até o momento, pelo menos por um tempo e segundo seguimentos da opinião pública ocidental, alegando que foi, afinal, escolha dos Alemães se gostavam do regime Nacional Socialista, até o ponto que eleição e plebiscito pareceram provar. A efetividade do véu plebiscitário, na mentalidade ocidental, está condicionada pelo fato de que na opinião pública dominante, a ideia de democracia foi formalizada.

Para o propósito deste estudo, podemos dizer grosseiramente que a qualidade democrática de um governo depende de três pontos: (1) o tipo de elite que molda as demandas, (2) as próprias demandas, e (3) o estado mental em que o eleitor vai aos pleitos. Os três problemas estão intimamente entremeados.

A primeira condição da democracia é que a elite governante permita que as demandas somente sejam elaboradas de modo a não excitar emoções muito profundas e não estejam aptas a produzir uma irreconhecível clivagem no povo. Isso exige, é claro, um explícito ou tácito acordo de cavalheiros entre as lideranças partidárias para refrear o recebimento de votos resultantes de uma inflação violenta das emoções para além de um limite definido. Isso requere uma relação de confiança mútua entre os líderes para que nenhum deles tomará vantagem indevida sobre os outros usando de meios desleais de excitação de multidões a seu favor.

Quando uma situação como existente na Alemanha, em que o Partido Nacional Socialista, mesmo durante os dias da República de Weimar, persistentemente se arrogava o monopólio da luta pela honra nacional e ressurreição e estigmatizava todos os demais como traidores do país e besta subumana apta a ser totalmente destruída, a democracia não existe mais, embora suas formas estejam preservadas, são utilizadas para acúmulo de poder por via legal.

Isso nos leva ao terceiro ponto, o estado mental do eleitor. Quando o eleitor é excitado a um nível de frenesi histérico por desmesurada caluniação permanente do opositor, por constante apelo para a agressividade, e glorificação dela, moléstia a Judeus, etc., ele não é um eleitor democrático mesmo que vote secreta e livremente. Ao menos os pensadores democráticos clássicos do século dezoito e os pais da constituição deste país não o teriam reconhecido como tal. E ele é um eleitor ainda menos democrático quando vota contra sua vontade porque tem consciência do que acontecerá a ele caso não o faça.

Resumindo: O plebiscito é uma eficaz forma de véu porque a ideia da democracia se formalizou, e porque as forças agentes que moldam as opiniões, tais como jornais, revistas intelectuais, textos didáticos, etc., não parecem sequer cientes de que há o problema da democracia substancial, diferente da formal. O conhecimento do problema está reservado aos tipos de homem e de literatura que não tem possibilidade de influenciar a opinião a um grau político relevante.¹

Eric Voegelin
“Published Essays, 1940-1952”, CW: Vol. 10, “Extended Strategy: A new Technique of dynamic Relations,” pp 19-20.

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¹ A análise da técnica Nacional Socialista como um abuso da estrutura democrática formalizada não é uma percepção tardia do intérprete. Na ocasião do julgamento da Reichswehr em Ulm, 1930, Adolf Hitler testemunhou em corte sobre a legalidade de seu movimento: “O movimento Nacional Socialista tentará alcançar seus objetivos neste estado por meios constitucionais. A constituição limita nossos métodos, não nossos propósitos. Deveremos vencer por meios constitucionais a decisiva maioria nas instituições legislativas em ordem, e tão logo tenhamos chegado nessa condição, remodelar o estado.”

Traduzido de: Voegelin View – The Preservation of Democracy: Part 1 [from The Collected Works]

Maquiavel e Estado

Em “Maquiavel ou A confusão demoníaca”, de Olavo de Carvalho, não esperava encontrar já nas primeiras páginas a citação de uma das maiores autoridades em maquiavelismo: Isaiah Berlin. Elaborador do grandioso “Estudos sobre a humanidade – Uma antologia de ensaios“, e criador do conceito das liberdades positiva e negativa, Berlin explica que Maquiavel tem em suas costas a criação de movimentos que ora se apoiavam no louvor total ao Estado, ora no anti-estatismo característico dos primeiros franceses liberais. Em suma, os estudos sobre o italiano partiram inevitavelmente da percepção factual das ideias que pululavam ora em consonância à sua obra, ora em extrema rejeição, as quais moldaram historicamente as análises principais de O Príncipe.

Se cínico ou dissimulado, se um bajulador dos reis e exaltante das proezas da ordem estatal, Maquiavel continua a ser um dos personagens mais enigmáticos da atualidade, ainda que submetido às adjetivações que levam em seu nome considerações irrelevantes, senão anti-literárias. Não obstante, a síntese de Berlin acerca do italiano, conceito que não observei no introito de Olavo de Carvalho (que explica inclusive ser “Maquiavel ou A confusão demoníaca” um dos capítulos de “A Mentalidade Revolucionária”, obra que aguardo com apreço), parte da ideia de que o estigma dos príncipes à época se consumava nas fragilidades decadentes da corrupção das cortes e da impostura dos súditos, os quais desacreditavam, exponencialmente, na proeminência divina das coroas. Se um manual, O Príncipe então apenas conserva e organiza a atividade do Estado, não o deturpando, mas efetivamente o revelando.

Meus estudos sobre Maquiavel são limitados e não pretendo aqui expor qualquer juízo sobre sua obra. Mas fica evidente que a percepção de Olavo de Carvalho se distingue daqueles que observam o italiano ora como um mentiroso nato e amante da democracia, ora como um completo tirano em que lhe faltava somente o Poder. Com todas as palavras, Carvalho afirma que o maquievalismo antecede os Estados Totalitários do Século XX que, como o Fascismo, seguiram à risca as recomendações maquiavélicas ao ponto de tão somente externarem as implicações teóricas elencadas pelo italiano.

Significa dizer – e aqui simplifico propositalmente – que o totalitarismo enquanto maximização do Estado é a essência maquiavélica devida e tão somente burocratizada aos fins ideologicamente determinados. Ressalto que essa seria, portanto, a essência do coletivo total e supressão completa dos ímpetos individuais conquanto meta básica de quaisquer que sejam os movimentos totalitários, estes antecedentes ao próprio Estado Totalitário e que almejam sumamente o Poder, seja ele manárquico-absolutista, seja democrático-liberal.

Como um erro que pretendo corrigir futuramente mediante publicações ainda irrealizáveis, haja vista os estudos pessoais sobre o totalitarismo – que inclusive me fizeram produzir em pleno Direito uma monografia¹ que não cita, em canto algum, lei ou norma alguma -, deixei escapar por mero lapso investigativo a íntima relação entre Maquiavel e o Estado em si instituído e, inobstantemente, totalitarizado. Porém, creio que supri tal erro ao me basear interinamente na análise de Hannah Arendt, da qual temos um dos mais completos estudos sobre os fenômenos totalitários que insurgiram, inclusive, por meio de ficções forjadas no caso Dreyfus e documentos d’Os Protocolos dos Sábios de Sião, citado tão efusivamente por Adolf Hitler que não sei se o mesmo era, de fato, um néscio em estado terminal.

Se “A Mentalidade Revolucionária” seguir os mesmos passos de sua prole “Maquiavel ou A confusão demoníaca”, definitivamente teremos em mãos um dos maiores estudos sobre o tema, que unido às pesquisas de Arendt transfere ao estudioso do Estado o necessário a um verdadeiro conhecimento dos fenômenos revolucionários: Arendt então restrita às técnicas e características elementares dos movimentos totalitários, e Carvalho mergulhado no estudo das concepções revolucionárias e diametricalmente inseridas no contexto do coletivismo contemporâneo.

Explico, em um artigo futuro, os motivos pelos quais considero esta obra de grande relevância na literatura atual e, de fato, indispensável a qualquer leitor interessado.

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¹ Mesmo o estudo do Estado produz em iluminados e doutos professores certa repulsa, pois que tudo aquilo que foge ao adestramento dos elogios à burocracia é visto como um indício de conservadorismo político. Assim, ainda que seja de fato tal constatação uma verdade inevitável, qualquer produção acadêmica alheia ao culto do público e do coletivo sofrerá represálias. Tenha isso em mente, sempre.