Reforma e catolicismo

Certos textos me fazem pensar se um lúcido como Chesterton merece a companhia de teóricos que, submetidos a um estudo meramente sofístico da História, conseguem expor em poucos parágrafos conceitos de evidente equívoco, porque anti-biográficos e anti-teológicos. É o que costumo chamar de “dissimulação intelectual” que percorre o catolicismo da baixa Europa, proeminentemente receosa em atribuir, com todas as letras, a ociosidade histórica de países como Portugal, Itália ou Espanha a uma opressão maléfica dos reformistas do norte. É, em tese, o vitimismo característico de países europeus latinos que se eram antes monárquico-absolutistas, agora constituem o bojo das “repúblicas populares” seculares que estão a negar ano após ano práticas religiosas no meio público.

Não coincidentemente os grandes teólogos católicos atuais são maciçamente não-latinos.

A relação entre a Reforma Protestante e as revoluções marxistas é falácia antiga, tal qual a relação entre catolicismo e a vagabundagem nordestina. A dificuldade dos católicos [que ignoram as sumas protestantes] em analisar a Reforma como o retorno à essência bíblica faz parte da insistência em se considerar a doutrina católica uma proeminência do saber papal nas reafirmações dos mestres teológicos, que nos concílios definiram bons e maus caminhos à Igreja.

A Reforma como um ato meramente político e de interesses escusos da burguesia é justamente a interpretação dialética pela qual o marxismo consegue proezas intermináveis dentro do cristianismo. Da mesma forma, a atribuição gnóstica dos ensinos reformados (essencialmente predeterministas) é reducionismo frustrado, que insiste em fazer dos rompimentos doutrinários biblicamente fundamentados um estorvo subversivo à ordem. É de se lembrar que a represália justamente política emanou da Contra-Reforma quando, pelo Concílio de Trento, abandonou-se a centralidade do ensino para a instauração dos catecismos ensinados na língua pátria. Foi, de imediato, a decisão que cravou no coração da Igreja de Roma a veracidade do clamor reformista pelas traduções bíblicas e sacramentos instituídos.

A Contra-Reforma calcificou a Reforma Protestante como um movimento biblicamente legítimo.

Conseguiria, ainda, impor ao Vaticano as mesmas bases gnósticas da Sophia como a emanação da luz da Virgem Maria ou a interpretação infalível do Sumo Pontífice. Mais facilmente, poderia eu alegar que toda a tradição dos santos católicos não-bíblicos tiveram início justamente na gnose dos primeiros séculos cristãos, que tentaram definir nos evangelhos um caminho além das Escrituras mediante a autoridade espiritual. Bibliografia não me falta. As afirmações que poderia elencar são intermináveis, e nem todas dignas de validade teológica. Isso ocorre pela assumida posição política dentro da teologia; a mesma que interfere na análise histórica declarando que a Reforma foi não uma petição teológica/religiosa, mas tão somente um movimento secular, como quer o autor. Porém, a principal besteira de seu artigo se refere ao conceito tomista do “futuro em aberto”, portanto desconhecido e indefinido.

O autor confunde (já que imbuído de política) a ideia marxista do determinismo histórico ante a luta de classes e o conceito bíblico e profético da Segunda Vinda como ápice da mensagem salvífica. Explica ele que São Tomás de Aquino, no conceito filosófico dos “futuros contingentes”, refutou a gnose ao provar que o futuro não pode, de forma alguma, ser conhecido e delineado. Safadamente o autor não especifica se falava do homem ou de Deus, da falibilidade humana em oposição à presciência divina dos futuros. Consideremos ambos os extremos.

Tomás de Aquino é claro ao afirmar que o “futuro contingente” é desconhecido pelo homem, mas já amplamente conhecido por Deus, tendo em vista que a eternidade e simultaneidade de todos os conhecimentos são indistintos. Ressalta o teólogo:

“Embora, porém, os contingentes se atualizem sucessivamente, Deus não os conhece, como nós, sucessivamente, tais como são, mas simultaneamente. Porque o seu conhecimento, como o seu ser, mede-se pela eternidade; e a eternidade, existindo toda simultaneamente, abrange o tempo todo, como já dissemos. Donde, tudo o que existe no tempo é abeterno presente a Deus; não somente porque ele encerra as razões das coisas, para si presentes, como alguns dizem, mas, porque a sua intuição projeta-se abeterno sobre tudo, enquanto existente na sua presencialidade”.

Ora, foi pela teoria dos “futuros contingentes”, prelecionado por Aristóteles e aprofundado por Aquino, que Calvino estabeleceu o limiar teológico que separou as águas da soberania de Deus. Da soberania há a onisciência da eternidade, sendo qualquer relativização desse conceito a gênese da destruição do Deus bíblico. É o que soberanamente endurece o coração do grande faraó e que, em seu filho, faz Paulo cegar-se ante a repentina aparição. Da mesma forma, foi dada ao homem tão somente a certeza que o futuro não lhe pertence; antes, pertence Àquele que conhece a eternidade e que a observa em um presente constante.

Essa distinção é fundamental na percepção dos textos bíblicos. A relativização do conceito da simultaneidade dos futuros perante Deus é o primeiro passo já conhecido de relativização das profecias bíblicas para a posterior desconsideração da própria validade doutrinária dos evangelhos. Não coincidentemente, foi pela relativização do conhecimento dos futuros que as modernas doutrinas se estabeleceram, primeiro alegando o distanciamento entre a divindade e sua Palavra e, segundo, denegrindo a relação bíblica entre a onisciência e as profecias apocalípticas.

É evidente que ao homem não foi concedido qualquer entendimento futurístico. Todavia, a revelação na Palavra está além do próprio homem. Considerá-la uma extensão das vontades humanas, ou mero documento histórico-teológico, está em oposição evidente no que concerne às profecias, estas eminentemente atreladas à onisciência divida.

A confusão crescente – pela qual tendo a imaginar ser um fenômeno meramente contemporâneo – das distinções entre o Reino de Deus como argumento marxista-religioso e a proposição da segunda vinda de Jesus Cristo é geralmente espalhada por quem ora se escora na total literalidade bíblica, ora em sua total irrelevância. São os dois ápices que juntos formam verdadeiros arcabouços de um combate ao gnosticismo na apresentação de um entendimento obsequioso dos escritos tomistas e reformados. Não obstante, essa mesma insistência faz com que o conceito do predeterminismo seja uma base ideológica do movimento revolucionário do Século XIX. É desconhecimento teológico puro, senão mera ignorância deliberada, em nome do determinismo histórico da dialética de Marx, que perante a teologia não tem qualquer relevância doutrinária.

Obs.: como estou sem paciência para embates teológicos ou discussões sem fim, suprimi o link que direcionava ao texto comentado. Portanto, vejam estes comentários como uma resposta genérica, mas que de fato tem sua origem em outros argumentos.