O casamento gay não existe

Digo, há de fato os anseios dos homossexuais pelos direitos civis exclusivos ao homem e mulher como casal (o que inclui, portanto, o chamado “casamento civil”), mas o casamento religioso e subjugado aos conceitos mais elementares da filosofia cristã está longe de abranger, ainda que por imposição legal, o chamado “matrimônio homossexual” sob a bênção do líder espiritual. É dizer: o casamento civil é uma ficção jurídica e irrelevante à religião. Se é imposta a ela por meios escusos, muitos deles mediante condições verdadeiramente tirânicas, é intrínseco ao cristianismo, por exemplo, a negação e o embate a qualquer manipulação cesarista dos vínculos milenares religiosamente criados. Diria que, nesse ponto, o cristianismo sempre foi e sempre será pré-conceituoso, quando o que se tem em pauta é a análise fria e já testada das consequências de quaisquer tolerâncias mínimas.

É dessa autoridade religiosa sobre a ficção do casamento civil que podemos traçar uma tese dos motivos pelo quais os ateus são esmagadoramente favoráveis ao casamento homossexual – o que inclui, leia-se, o casamento religioso. Ao desconhecerem ou ignorarem os alicerces filosóficos do matrimônio os ateus acabam por denegrir a religião, tratando-a como mero estorvo às liberdades mais puras e inocentes imploradas pelos homossexuais e submetendo o rito do casamento a detalhes ínfimos, senão racionalmente extintos. Os ateus, assim, descaradamente abandonam aquela característica inerte – em sinal de desprezo à religião – para adentrar ao campo do ativismo, que se fundamenta na interferência coercitiva.

Interessantemente, o ateísmo gera em regra não um argumento favorável de afirmação ao casamento, mas sim de exclusão. A antirreligiosidade belicosa do neoateísmo no Ocidente é um conflito anti-cristão (isto é, de negação ao cristianismo), e não uma busca de expansão e fortalecimento das bases filosóficas do ateísmo. Da mesma forma, a retórica homossexual do preconceituoso líder religioso que se nega a realizar uma cerimônia religiosa parte não da busca pelos direitos religiosos – pois que os direitos civis já estão sendo concedidos – mas sim da submissão da religião aos caprichos de uma afetividade estritamente sexual.