Releitura teológica, velharias juvenis

A crescente ridicularização dos movimentos teológicos liberais tem na tolerância aos jovens o seu sustento. Lembro-me que em 2004 houve grande explosão, no Brasil, dos famosos fenômenos “libertários”, dos quais ressurgiram das cinzas literaturas americanas já esquecidas e por lá relegadas ao descaso. Era a novel teologia tupiniquim novamente escorada na América protestante, que produz alhos e bugalhos. A Igreja tolerou o relativismo teológico até os limites da mera exegese bíblica, das análises históricas e das discussões acaloradas entre criacionismo e evolucionismo. Mas quando começou a se falar na famosa “ampliação interpretativa” dos pilares do cristianismo o resultado já se mostrava óbvio: seus principais preletores estariam sentenciados às chacotas.

As exceções persistem. É evidente que qualquer movimento teológico, por mais anticristão que seja, tem público e consegue lançar algumas sementes que brotam tortas, porém floreadas. Por exemplo, o Open Theism, traduzido no Brasil como Teologia Aberta, sequer conseguiu fôlego para ser considerado algo de relevante na construção doutrinária; manteve-se, contudo, estagnado na boca daqueles que insistem em professá-lo.

No início, veja, essa teologia apenas abarcava novos conceitos acerca da atuação divina e de sua extensão nos acontecimentos históricos. Nada além disso, a teologia que se pretendia aberta a novas adesões exegéticas calcificou-se em uma única prerrogativa essencial e inafastável: a Bíblia é um documento humano e o futuro é desconhecido. Como qualquer teologia anticristã, as características epicuristas saltavam aos olhos de qualquer religioso, tendo em vista sua beleza inicial para a posterior degradação dos estudos religiosos. O humanismo exalava fortes odores e a pregação da caridade compulsória, como “dever” de todo homem, era fundamental.

Criou-se o embate: os tais afirmando que havia muito estudo literal da Bíblia; os ortodoxos afirmando que a Teologia Aberta era a negação da Bíblia. Movimentos foram criados, dissensões e divisões foram formadas e, ao final, a Teologia Aberta foi escancarada como mais um dos movimentos que tinham em centenas de seus adeptos um agnosticismo velado, raramente assumido senão em reuniões gravadas e que tinham na internet o registro para a eternidade. Com terra na boca, a lápide, porém, ainda não estava assinada.

Vá lá falar no relativismo dos milagres bíblicos. Tolerável dizer que Jesus Cristo era um agente de construção da história em direção ao Reino de Deus instituído pelos homens. Tais afirmações eram discutíveis, mesmo que maciçamente negadas. Mas quando esses movimentos resolveram demonstrar sua índole marxista não houve escapatória. Foram, em definitivo, lançados para o esquecimento doutrinário. Sua seriedade exegética de antes agora pululava de afirmações vitimistas e de uma falsa contrição de seus adeptos nas virtudes da caridade individual e, portanto, nunca obrigatória.

Tal faceta se tornou tão evidente e apelativa que os mesmos movimentos que antes se declaravam materialmente dialéticos, nas barbas do espiritualismo, posteriormente fixaram uma terceira via entre o fundamentalismo religioso e o agnosticismo ridicularizado. A terceira via, por óbvio, descartava a Bíblia como Palavra e a tratava ainda similarmente a um registro histórico. Ausentes relevantes publicações americanas nos assuntos das novas teologias, e ausentes, portanto, quaisquer “revoluções” sob a perspectiva do coitadismo latino, a Teologia Aberta findou, sendo relembrada apenas em círculos diminutos de blogues, revistas e reuniões pastorais.

Porém o fraquejamento de um movimento significa sua acomodação permanente.

A exaltação das “releituras teológicas” dos fenômenos bíblicos é constante e as novas teses baseiam-se essencialmente em um desconstrutivismo menos aprimorado que o desconstrutivismo das universidades europeias. É, assim, regionalmente amador, seguindo as diretrizes de velhos pensamentos importados, mas tidos por inovadores.

Há quem diga que esses movimentos morreram por falta de estudo prévio. Eu, entretanto, afirmo que todo e qualquer movimento que se assuma marxista tem no cristianismo seu descaso inevitável. O vitimismo e o revanchismo dos discursos que abarrotaram templos e seminários têm uma beleza indiscutível, mas cansativa. É passageira, apesar de sempre deixar um rastro característico. Talvez seja esse um dos motivos pelos quais os ícones de antes agora se tornaram personagens políticos, pregando revisionismos que são tão previsíveis quanto a posterior aclamação, pelos jovens, do velho que abandona sua fé de outrora.

A minha tese é esta: se um movimento quer explosão e paixão iniciais, com a degradação inevitável do estudo e da intelectualidade, basta que abrace a juventude, fazendo dela amparo para ativismos barulhentos. Evidentemente imaturos, jovens que tentam revisar na garganta a construção milenar da Teologia Cristã acabam sendo esquecidos, e da mesma forma seus mentores.

Não coincidentemente, as figuras que ainda apreciam o bolor desses movimentos são justamente os jovens que à época das conturbações mais relevantes eram adolescentes ou desconhecedores de qualquer parâmetro mínimo de análise das teses apresentadas.