Não espere ser bajulado

É evidente que a publicação de qualquer que seja a ideia faz de você um alvo fácil para contestações diversas, ainda que infundadas. Ora, já perdi amizades e aqueles que antes me viam como um pacato tem em mim o estigma de um possível louco, que gosta de besteiras como Chesterton, Rand, Aristóteles, Carvalho. Assumo que não tenho uma ideia formada sobre o fenômeno, mas no fundo sei que a propagação de qualquer frase, e de seus autores, é a maior arma de ofensa possível, porquanto devidamente registrada, inapagável.

Ao externar suas ideias na escrita não somente pelo palavreado, mas também pelos livros – alguns centenários, outros milenares -, a única esperança possível de se manter incólume perante suas amizades iniciais é dar a elas a esperança de que nem tudo o que está sendo falado há de ser levado a sério. Como penso, escrevo e aponto o contrário, inimizades são então quase bem-vindas e, portanto, necessárias.

Abraça centenas de amizades quem escreve futilidades sobre situações irrelevantes, e as deseja constantemente quem reconhece escrever inutilidades. Ao teorizar, por exemplo, de que o sufrágio universal é fundamentalmente a anulação qualitativa dos pleitos eleitorais, não espere ser bajulado como quem escreve pérolas tal qual “o amor do homem é o amor de um animal irracional”. Ao afirmar que o homossexualismo é uma condição de desestruturação familiar e, assim, um mal socialmente percebido que tem no Estado sua muleta, não espere que, logo após, lhe seja atribuído resquício algum de veracidade por quem imagina ser “esta sociedade uma máquina de consumo e degradação”.

Tenha em mente que a linha que separa a bajulação do desprezo é tênue. Ter consigo essa percepção lhe poupará de muitas preocupações, inclusive das amizades que se perderam e das que se mantêm até que seja falado algo que as ofenda.

Talvez seja esse o maior mérito do cristão e, consequentemente, do homem civilizado. Ao abrir a Palavra, é ofendido e esculachado sabendo que a responsabilidade é intransferível. O cristão tem sua maturidade construída no embate e no confronto perante a Pedra Angular, sabido que seu fardo é realmente irrelevante e já justificado. Inexistindo qualquer bode expiatório, o cristão reconhece que tudo está consumado. Não há bajulações, não há elogios cativos, sequer a aprovação das multidões.

E Tiago Cavaco sentencia: “Os cristãos não se salvam pelo facto de ler, mas por acreditarem que Deus se revela através de um livro acabam por ter uma relação especial com a literatura. A interpretação, fruto desta árvore, não é um fechamento mas uma abertura. Acreditar na revelação particular da Bíblia é ser transformado pelo que ela diz e pela maneira como ela diz. Esta declaração de exclusividade, nada cômoda para o pluralismo dos tempos, assusta porque muitas vezes os crentes parecem estar em fuga de compreender melhor quando na verdade a Palavra chama-os a isso. A dificuldade da tarefa confirma-lhe a urgência”.