O jurista é, em regra, um semi-analfabeto latinizado

Há algum tempo duvidaria se seria possível o semi-analfabetismo imbuído de pomposidades linguísticas e alterações vocabulares que indicam não o letrismo e erudição, mas a demência da falácia e inconsistência intelectuais. Equivocado, reconheço que nos estudos jurídicos o uso constante do latim e de expressões alemãs inócuas reflete e sentencia o acadêmico de Direito como uma poça de incultismo e prepotência.

O mesmo semi-analfabeto que sabe utilizar data venia em sua devida estrutura jurídica desconhece os fundamentos básicos da lógica, da qual é negado, consequentemente, o bom senso da escrita formal. Assim, o formalismo jurídico acaba por informalizar a língua, fazendo-a mero alicerce de técnicas que visam a complexidade irrelevante em oposição à devida erudição jurídica dos antigos doutrinadores, considerados, pelos dementes, inevitavelmente ultrapassados.

O teste é irrefutável. O jurista erudito atual, o mesmo que escreve nullum crimen, nulla poena sine praevia lege poenali com uma naturalidade filosófica indiscutível, é impossibilitado de entender explicações básicas de Hans Kelsen acerca do legalismo constitucional. O latinismo esconde a deficiência argumentativa dos juristas medianos. O Direito dos brocardos e de complexismos propositais consegue convencê-los que serão reconhecidos verdadeiros filósofos lendo meio livro por ano. É ver que o Direito é o curso mais procurado por aqueles que fazem das universidades a extensão do animalismo cultural diariamente vivenciado.

Certa vez li de um linguista que os juristas destroem a língua portuguesa em nome de uma obtusidade velada, nunca assumida, mas visível a todos. Dou-lhe total razão, sem tirar nem por.