Armas e dízimos para todos os homens

Gosto de comparar a regulação dos dízimos religiosos, por meio de impostos, com a regulação do porte de armas, por meio da criminalização. Ambos representam a liberdade milenar do homem em dispor de seus bens para o financiamento religioso e, paralelamente, da aquisição de ferramentas de defesa pessoal, por necessidades óbvias de desconfiança de meios externos de defesa. Ocorre que, ao tempo da crescente petição burocrática de eliminação do dízimo (ou de sua redução significativa), o Estado também exige que o cidadão se desarme sob o pretexto de que “um homem armado é um homem violento”.

É inócuo ressaltar o óbvio: que a região mais violenta do país, o nordeste, é aquela que possui menos armas, segundo os censos. Que os países mais pacíficos são aqueles que permitem ou permitiram por séculos a livre comercialização de armas. Que os países que proibiram o porte legal de armas sofreram consequências nefastas, ao ponto de repensarem tal argumento (pois, sim, o desarmamento é antes um discurso). Que a Europa, símbolo da região desarmada, possui em seu rol países aqueles que vislumbraram o crescimento da criminalidade por decorrência de medidas de “pacificação social”; leia-se, a transferência ao Estado da defesa de sua família, propriedade e pessoa.

Do outro lado do muro temos o dízimo, ato considerado por estadistas a mais degradante manifestação pessoal de interesses antissociais. Aquilo que é dado aos templos teria de ser dado ao Estado, para que este, em sua magnitude e sabedoria, distribuísse conforme a justiça social melhor adequada a uma finalidade qualquer, mas que obviamente vai de encontro aos interesses da religião.

Também gosto de dizer que só é dado discutir o dízimo a religião que lhe comporta, assim como só é dado discutir sobre armas aqueles que a possuem ou que desejam possuí-la. O que a Ford Foundation tem para opinar nessa situação, por exemplo? Ao dizer que é a favor do desarmamento, como fez na Suíça, tal fundação diz algo que não é de sua alçada, apesar de ser ela o braço esquerdo dos burocratas que também exigem a limitação da propriedade privada. Na Suíça foi relegada ao descaso; no Brasil, é ovacionada como detentora de uma opinião concernente ao “novo homem”.

É evidente que o dízimo sofre de uma crise fundamental, contudo sua análise é teológica e a politização do financiamento religioso é o que tentaram os governos totalitários já registrados na história.

O discurso anti-dízimo, tal como o discurso do desarmamento “por uma sociedade mais pacífica”, é teimoso, mas nunca inocente. Na Europa, utilizou-se do artifício de que uma sociedade pacífica não tem motivos para permitir armas de defesa pessoal e, além, que a religião, com seus fiéis manipulados por falsos profetas, produz o desvio de sua finalidade funcional, sendo portanto necessária a regulamentação de tudo aquilo que faz da instituição religiosa algo que permanece alheio e, digo, acima do próprio Estado. Como questão de mero pragmatismo, o imposto sobre o financiamento religioso é uma forma singela de se dizer: “estamos acima de todos, inclusive de sua crença”.

É esperar para ver.