Sobre os anjos de Dnepropetrovsk e o abortismo do humanitário

Se há um fato em que eu poderia indicar como perturbador, sádico, doentio e repugnante é o caso dos Maníacos de Dnepropetrovsk. Não, não se trata de homens excluídos pela sociedade, produtos do meio, oprimidos pela ausência de perspectiva financeira, subjugados à humilhação familiar e exigências paternas; trata-se de dois garotos à época com 19 anos apenas, filhos de famílias estruturadas e tidos por seus pares como pessoas normais e muito agradáveis. São, ambos, crianças as quais podemos cruzar a todo instante, sem qualquer indício de perversidade digna de um néscio em estado terminal.

Como já penso que há um lugar especialmente reservado no Inferno para quem maltrata animais indefesos por mero prazer, os garotos iniciaram suas atividades depravando cães, gatos e coelhos, estripando-os, retirando suas mandíbulas, mas com a sutileza de mantê-los respirando durante o processo. Passaram então dos animais aos humanos (psicólogos, eis um caso de análise moral que foge a essa meninice universitária): em 15 dias mataram 21 pessoas, todas com um machado, uma faca e uma chave-de-fenda, achadas totalmente desfiguradas e com sinais evidentes de tortura física.

Um ano e meio após os acontecimentos, no julgamento dos fedelhos foi mostrado o vídeo do assassinato de Sergei Yatzenko, homem de 48 anos que em sua bicicleta estava a caminho da residência de sua neta. Abordado com uma machadada em sua cabeça, ainda vivo foi arrastado para o interior do matagal, torturado e finalmente eliminado com um golpe desferido em sua face já totalmente deformada. O vídeo de 4 minutos ficou conhecido na internet como 3 guys 1 hammer e é considerado um dos mais perturbantes registros da história virtual. Outro caso, registrado somente por fotos e também mostrado no julgamento, se trata de uma jovem, grávida de 8 meses, que teve seu filho esfacelado por uma chave-de-fenda introduzida em seu útero antes de ter a cabeça esmagada pelo machado amarelo. No julgamento houve quem não conseguisse manter a sobriedade perante tais imagens, caindo em prantos. O juiz olhava ora à televisão, ora aos animais, estarrecido.

Por que lhe mostro isso, leitor? Porque uma das discussões mais calorosas à época dos fatos, que pode ser lida em jornais, periódicos e fóruns estrangeiros referentes ao caso, cujos argumentos são comuns em terras tupiniquins de homens humanitários, amigos de Gaia, inimigos da punição conservadora, amantes das “penas socializantes para o bem-estar coletivo”, era de que tais garotos são o que são e fizeram o que fizeram por uma opressão inexprimida e inexplicável, mas perceptível por qualquer iluminado que estivesse apto a entender a mentalidade reprimida de jovens anormalizados por circunstâncias externas, fora de sua alçada moral. Não eram eles os responsáveis, e sim a sociedade, o meio, os Outros. Havia alguma explicação sociológica para o fenômeno, diziam. Senti-me sentado em uma cadeira de uma Universidade brasileira qualquer.

No outro lado da mesma moeda temos a questão abortista, que obviamente consegue aproveitar os aspectos elementares da religião, moral e culpa. Eu poderia aqui ser mais radical e dizer claramente que não há diferenças morais elementares entre aqueles que pregam o abortismo e os dois santos que, matando, também impuseram seus instrumentos na dilaceração total do feto. Serei então comedido. Na tangente, pergunto: qual a diferença moral, leitor, daquele que prega o aborto como ato de escolha da mulher sobre seu próprio corpo e os garotos que conseguiram o mesmo e previsível desfecho com uma chave-de-fenda? Arrisco dizer que a justificativa antecipada, mediante conceitos pré-definidos, escritos e teorizados tem o poder de fazer com que dois atos factualmente idênticos se tornem moralmente opostos. Que um defensor do aborto – ainda que sinta o cheiro da carniça que escorre dentre as pernas de uma mulher, ainda que presencie sem pestanejar a cena inevitável, ainda que seja ele próprio um médico abortista – pode se esquivar moralmente de seu ato para que se torne convalescido por uma questão, digamos, de saúde pública, de um direito feminino que há de ser fomentado pelo Estado piedoso.

Mesmo que o ato, a consequência e a finalidade sejam identicamente irresistíveis, há no abortista uma mão confortadora que pousa e diz, suavemente: “você não é um assassino”. Convencido, após propagar ideais progressistas em prol de uma nova sociedade, o abortista consegue deitar-se na cama e, com a consciência livre de quaisquer traços de culpa, relaxadamente dormir. Presumo que os garotos de Dnepropetrovsk também tivessem a mesma pureza moral.

E vejam que não falo aqui de crimes inscritos em códigos penais. Falo tão somente da relação direta e cristalina de dois atos que se confrontados em um aspecto moral apenas diferem em suas explicações antecedentes. Um dos anjos, apesar de pousar ao lado de suásticas em algumas das fotos mostradas no julgamento, explicou que “não sabia o porquê de matar”.

O abortista sabe.