Uma mensagem otimista à democracia

Afloram as discussões sobre a capacidade do povo em definir e se deixar levar pela política através do voto universalizado. É claro que, pensando em um contexto onde voto é sinônimo de participação democrática na constituição política, qualquer crítica aos inaptos, bárbaros e incivilizados pode ser considerada um ode ao totalitarismo e uma submissão à moderna mentalidade aristocrática. É assim que o retorno ao mérito e à capacidade real de voto (em contradição à capacidade ideologicamente imputada ao indivíduo) têm sido discutido e, agora, amplamente divulgado. São as vantagens do radicalismo coletivista: ao universalizar o voto, o debate sobre quem não deveria pousar os dedos nas urnas se torna mais saboroso.

De um lado há a explicação mais simplista, mas nem por isso menos válida: todo aquele que não declara impostos sobre sua renda não teria motivos na participação eletiva. Quem tem propriedade, vota; e por propriedade entenda “patrimônio”. Em outras palavras, um beneficiário do assistencialismo estatal equipara-se a uma criança que, se improdutiva, estaria então destituída de tamanha responsabilidade, já que não há interesse efetivo na manutenção política saudável. Do contrário, o beneficiário do assistencialismo estatal estaria contaminado por toda sorte de favorecimentos estatais, silente em questões mais importantes, mas revolucionário naquilo que lhe provém sustento. Esse beneficiário, em suma, quer a mesada garantida. Nada mais.

De outro lado há a explicação mais abrangente e que inspirou a criação dos colégios eleitorais: o afastamento dos incultos e da massa ignara da seleção direta daqueles que representam os princípios máximos da moral política. Porquanto característica que se alastra nas repúblicas, o barbarismo e a ridicularização da moral política são facetas evidentes da população em geral, esta que em nações intelectualmente subdesenvolvidas, como o Brasil, constitui a regra. A degradação dos métodos democráticos é então questão de tempo, adiando-se somente seus efeitos deletérios e que influenciariam no agigantamento do Estado.

Ouso afirmar que a relevância de ambos os argumentos depende de um único fator ainda inalcançável: o esclarecimento de que esse bárbaro é também aquele que promove, aceita e prolifera o imoralismo político. Como edema que antes absorveu a degradação moral sexual, familiar e religiosa, tal sujeito, por estultícia assumida e ignorância deliberada, faz da política o estorvo de seus anseios diminutos, contanto que sua rotina não seja abalada. É que a barbaridade, como a plebe de outros séculos, é a escala da felicidade e da ausência de preocupações mais relevantes. É por ela que governos e déspotas são mantidos, sustentados e removidos; é pela incivilização, pelo imoralismo e relativismo de todas as virtudes que se torna aceitável um pedófilo eleger aquele que mais lhe agrada, segundo critérios que não precisam ser explicados.

Ocorre que essa separação de inaptos e aptos também define esclarecidamente, sem rodeios e meias palavras, perante a sociedade, os liames de ter para si as virtudes da civilização. E não há xingamento mais insuportável que ser impedido de votar por um único, simples e legível motivo: sua inteira incapacidade moral para tal.

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