Nietzsche comenta Bruna Surfistinha

Costumo dizer que toda prostituta, uma vez alcançado o glamour do sucesso e da aptidão publicitária, tem para si o dever de ensinar a nós, mortais oprimidos, as virtudes da moral. Após toda sorte de degradação pessoal, a vítima tem a muleta da vivência perversa, que hoje justifica e santifica todo aquele que está disposto a se redimir perante determinado público. Tal qual um ex-bêbado que hoje se utiliza de sua condição pregressa como virtude de novos conceitos espirituais, a prostituta tem em si o escopo da imoralidade que bem conhecida tende a justificar palavras de conforto moral. É a autoridade que imagina ter aquele que vivenciou situações de extrema decadência.

Bruna Surfistinha – vítima oprimida – nos ensina que os pais que reprimem suas filhas são preconceituosos, por não aceitarem a livre escolha de uma menina inocente que pretende vender o próprio corpo. Segundo a sábia “ex-prostituta”, e traduzindo sua ideia ao campo do alfabetismo, a aceitação de uma condição decadente de total imoralidade não concerne aos educadores, mas tão somente ao indivíduo que pratica tais atos.

Não discordo. O discurso é válido se contado, por exemplo, a pessoas que compartilham de uma mesma concepção moral. Mas a falha desse tipo de argumento se mostra mais elucidativa quando se afirma, com todas as palavras, que toda mulher que vende o próprio corpo é prostituta. E vagabunda. A adjetivação, apesar de parecer rude, não é menos estranha ao fato de que Bruna Surfistinha, vítima, considera-se hoje apta a definir os liames da moral sem transparecer, em um único momento, que seus atos decorreram não somente de circunstâncias externas, mas de uma livre escolha que fazem dela espécie socialmente desprezível. Surfistinha está para além do bem e do mal, visualizando no pedestal das virtudes que a repressão familiar à prostituição “é coisa do passado”. Ela, então, representaria aquele que superou esses detalhes pequenos do homem civilizado.

Surfistinha mostra a que veio, e como celebridade diz o que diz sem remorsos. Se eu fosse mau diria que “ex-prostituta” é aquela que reprova os atos anteriormente praticados; se os reafirma, mantém-se prostituta (com todos os adjetivos que a acompanham).

Mas deixo a sentença às conversas de bar.