O homem civilizado

O advento do ocidentalismo atesta a superioridade do cristianismo, assim como o advento de manifestações naturalistas é o alicerce das comunidades primitivas. Ocorre que o primitivismo é atualmente um elogio à perversidade humana respaldado no mito do “bom selvagem” – melhor explicado por Rousseau -, tal como no repúdio de técnicas civilizatórias, que afastando o homem do contato direto com a natureza fez dele um animal impossível de conviver harmoniosamente com seus pares. O caos, a discórdia, a pobreza em todos os aspectos são fatores deletérios, mas inevitáveis como sentença da humanidade que escolheu se distanciar da inocência do primitivismo. Pois a civilização e o desenvolvimento de métodos de manipulação ambiental, como a agropecuária e a higiene artificial, seriam em si mesmas antinaturais. O resultado, afirmam, é a degradação humana inevitável.

Nada mais pueril.

Todavia cresce a ressalva de que “o ambientalismo é anticristão”. Fundamentalmente não a nego. Porém deve ser entendido que o primitivismo antecede o ambientalismo, abrangendo toda sorte de manifestações contrárias não somente ao cristianismo, mas também ao individualismo que é, resumidamente, a autodeterminação das decisões pessoais. Se o ambientalismo é anticristão, o primitivismo ideológico tem seu caráter anti-civilizacional, que prega que o homem deve abdicar imediatamente do conforto assimilado por seu distanciamento da natureza. Mediante tal ato a humanidade estaria mais próxima de entender a “harmonia natural”, ainda que ausentes quaisquer traços de civilização.

A beleza mitológica desse discurso é cativante, mas sua manutenção é impossível. E todo e qualquer discurso que está além das possibilidades minimamente aceitáveis de realização humana é relegado ao descaso, ao tempo em que é tido como uma pérola rara dentre seus adeptos. Não coincidentemente é que vemos o ambientalismo, enquanto mera demagogia, sendo louvado a todo instante ao mesmo tempo em que é abandonado exponencialmente. Falar em aquecimento global se tornou ridículo; falar em “alterações climáticas” se tornou o único remédio ante a extinção [dita “breve”] da humanidade.

Não importam quais sejam as tais alterações. Importa que as mesmas sejam causadas pelo homem, o homem civilizado, aquele que abandonou seu estado primitivo natural. “O homem cristão”, como li certa vez.