Ayn Rand quer destruir o bem-estar da humanidade

Ayn Rand tem todas as características essenciais para causar manifestações de repúdio à sua filosofia: é atéia, liberal, anti-coletivista, defensora inafastável do empresariado e russa erradicada nos Estados Unidos. D’A Virtude do Egoísmo às famosas entrevistas da década de 60, Rand surgiu no cenário literário considerada a mais influente pensadora do Século XX. Atlas Shrugged, publicado em 1957, é um marco literário universal e obra magna do liberalismo clássico pós-Segunda Guerra. A síntese de Ayn Rand, contudo, é tão exacerbadamente simples que complicá-la é um exercício praticamente insustentável, tendo em vista o antagonismo existente entre Estado e indivíduo, coletivo e individualismo. A explicação da filósofa (chamo-a desse modo sem quaisquer constrangimentos) pauta-se na intervenção estatal que, visando o “bem comum”, enfraquece comedida e sorrateiramente a livre negociação ao ponto de torná-la uma concessão governamental, um mal necessário que deve ser limitado sempre que possível.

Por estas terras leio que o Estado pretende elevar o Imposto sobre Operações Financeiras de 0,38% para 4%, medida que pretende “evitar o endividamento excessivo da população”, porque o Grande Irmão pensa no bem-estar da coletividade. Obviamente que não se trata de um ensejo à arrecadação oriunda do lavor individual; é antes uma condescendência de como o Estado faz por você o que você não faz por si próprio. É tudo uma questão de preocupação justificada, que deve ser aceita para o bem de todos, sob pena de uma coerção – deixe-me achar a palavra certa – educativa.

Na Itália, leio que o Ministro da Indústria, Paolo Romani, quer impedir a FIAT de transferir sua sede para os EUA (os motivos são mais que óbvios), na alegação de que “a direção da montadora tem que ficar em Turim… precisa continuar sendo uma multinacional italiana”. Romani, preocupado, afirmou que Turim deve ser a sede do grupo e – sua preocupação foi mais além – também o “centro de planejamento e de decisões estratégicas”. O presidente da sexta maior montadora da Europa teve de dar explicações ao Estado sobre suas pretensões perversas de destruir o bem-estar do cidadão italiano.

Ayn Rand já nos explicou quais serão as consequências de tais medidas. A diferença está entre o romance e a realidade, naquilo que predissera suas palavras acerca do coletivismo e a ilusão do conforto oriundo da ociosidade fomentada pelo Estado. Mas estou tranquilo, pois já me explicaram que “o inimigo do desenvolvimento é a ganância do indivíduo”. E o ganancioso sou eu, que mereço severas advertências por acreditar na autodeterminação de minhas escolhas, e de meus erros.