E Deus criou Lenin

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O artigo exposto nessa semana no eSkeptic é sobre a tentativa Soviética de erradicar a religião do povo russo por decreto. A tentativa falhou miseravelmente. O experimento histórico carrega em si importantes lições para os que hoje estudam sistema de crenças em geral e religião em particular: você não pode legislar crenças e fé. Hoje ateistas que estão encorajados pelo chamado do clarim lennonesco de Richard Dawkins ao “imagine no religion” devem ler este artigo (e o livro no qual se baseia) cuidadosamente, e então tentar imaginar outra solução aos problemas causados pelos religiosos extremistas, como outro biólogo evolucionário – Edward O. Wilson – nos advertiu no seu livro vencedor do prêmio Pulitzer, Da Natureza Humana:

Céticos continuam a sustentar a crença que ciência e aprendizado irá banir a religião, que eles consideram não ser nada mais do que um tecido de ilusões…. Hoje, cientistas e outros acadêmicos, organizados em grupos de aprendizado como a Sociedade Humanista da América e Instituto sobre Religião em uma Era de Ciência, promovem pequenas revistas distribuídas por assinatura e organizam campanhas para desacreditar o fundamentalismo Cristão, astrologia e Immanuel Velikovsky. Suas concisas lógicas, endossada por toda a arrogância de laureados do prêmio Nobel, passam como balas de metal na fumaça.

Há algo, certamente, algo profundamente elemental sobre o poder de acreditar.

– Michael Shermer.

Um Impulso Elemental – Religião É Tão Poderosa Que Até A Política Antireligiosa Soviética Falhou

por Paul Gabel

A separação de igreja e estado foi construída pelo estado em que as igrejas mesmas e tudo o que as cercavam, foi instaladas nelas, e pintadas nelas pertencendo ao estado, e a única igreja que sobrou foi a igreja que, de acordo com as Escrituras, vive no coração.

– Alexander Solzhenitsyn.

Enquanto Vladimir Lenin estava refugiado na Europa esperando a revolução, ele capitaneava liberdade de expressão religiosa na Russia. Mas quando ele chegou ao poder em Novembro de 1917, ele reverteu-se ao imperativo marxista de destruição de toda fé religiosa – quer institucional ou psicológica. A Teoria marxista predizia que o fim da guerra de classes iria automaticamente colapsar a superestrutura da religião baseada em classes, e Leon Trotsky dizia que a supersticiosa muzhik russa já estava a beira do ateísmo – tudo o que precisava para o corpo apodrecido colapsar era um bom empurrão (como assassinar o Patriarca Ortodoxo Tikhon). Mas Lenin sabia que a missão não seria fácil.

Enquanto os Bolcheviques trabalhavam para persuadir governos estrangeiros que nenhuma perseguição religiosa existia na Russia, Lenin e a Cheka (polícia secreta) decidiram ajudar o processo automático de Marx prendendo o clero e mandando matá-los, aprisioná-los, ou exilá-los, frequentemente sem julgamento.

O governo espionava os padres, censurava seus sermões, aumentavam seus impostos (como cidadãos improdutivos), e ordenaram eles a viver fora das vilas que serviam. Capturavam igrejas e monastérios, e reabriam como museus anti-religiosos. Aboliram as escolas religiosas e proibiram a educação religiosa até a idade de 18. Quando um desastre de fome atingiu a região de Volga entre 1921 e 1923, os Bolcheviques usaram como uma desculpa para confiscar ouro, prata e pérolas das igrejas – alegando que era para apaziguar a fome mas de fato iam para a os bolsos de comissários – enquanto se recusavam a vender as jóias da coroa do tsar para comprar pão para os famintos. A Igreja Ortodoxa, a Igreja Católica, e outras ofereceram todos os tesouros não consagrados, mas tudo de valor foram retirados dos lugares de culto.

Os bolcheviques promoveram um cisma “progressista” dentro da Igreja Ortodoxa com uma pompa de padres comunistas – afinal, Jesus não uniu a classe trabalhadora da Palestina e ordenou os ricos a oferecer suas riquezas aos pobres? O governo derramou tantos recursos nessa Igreja Viva (em contraste à Igreja morta) que pessoas começaram a chamá-la de Igreja Vermelha. Finalmente, em 1927 essa tática foi abandonada em favor de apoiar o recentemente eleito Patriarca Sergei, que se submeteu a um status de peão.

Paradas selvagens tiveram erupção nas largas cidades, escarnecendo e ridicularizando a celebração cristã do nascimento de Cristo. Jovens, ateístas da classe trabalhadora desfilavam nas ruas carregando efígies de líderes religiosos de cada fé eles poderiam imaginar. Eles se vestiam como padres, monges, rabbis, mullahs, e shamans, enquanto seus companheiros de Parada zombavam e escarneciam deles. Um artigo em Izvestia descreviam alguns dos personagens: Deus abraçando uma mulher nua, a Maria Virgem, o papa em um motorizado carro decorativo abençoando o povo, um monge passeando num caixão cheio de relíquias sagradas, um padre oferecendo-se a casar com qualquer um por um preço, um pastor protestante, um rabino judeu, um Buda de vestes amarelas, Marduk da Babilônia, e um grupo de demônios com longos rabos e chifres vindo atrás.

Por séculos monges estavam fabricando “relíquias” de santos usando papelão, cera, ossos de animais, e pêlo de cabra. Os bolcheviques descobriram essas fraudes e filmaram então as pessoas podiam ver como foram enganadas.A Liga da Juventude Comunista e a Liga dos Sem Deus distribuíram milhões de tratados científicos e anti-religiosos pelo país. Eles substituíram os feriados religiosos por feriados dos trabalhadores – O Dia da Indústria no lugar da Festa da Transfiguração, e Dia da Colheita no lugar da Festa da Intercessão – como se tradições pudessem ser inventadas. E eles organizaram festividades aos domingos para atrair os jovens das Igrejas. Bíblias não podia ser mais impressas ou importadas. Até mesmo o ensino de xadrez foi mobilizado pela causa – enfase na lógica iria certamente minar a fé irracional.

A Igreja Ortodoxa parecia um alvo fácil. Existindo há quase mil anos na Russia, era um produto do sincretismo pagão e Cristão. Os camponeses plantavam figurinos pagãos de pênis nos seus campos para encorajar a fertilidade da colheita e pagavam o padre local para borrifar água benta na colheita para proteger das pestes. A fé não era espiritual mas habitual. Eles trabalhavam durante a semana, bebiam e lutavam nos dias de festas, então confessavam seus pecados e tudo voltava ao mesmo regime em um ciclo sem fim. A maioria considerava padres como mágicos ao invés dos delegados de Deus na Terra. Eles se entregavam naquilo que os Ocidentais pareceriam como as mais imbecis das superstições e raramente rezavam por qualquer coisa exceto por melhor tempo.

Como cada dia ia sem nenhuma retribuição divina, parecia aos bolcheviques que eles estavam certos. Se Deus havia criado Lenin, Ele poderia tê-lo descriado com um estalar dos seus dedos onipotentes. E se Deus verdadeiramente existisse, porque ele não o tinha feito? Certamente o partido cruzou todos os limites que que o Todo-Poderoso teria dado ao comportamento humano. Até lhes parecia que excederam a transgressão de Eva, entretanto seus líderes não haviam sido banidos do Eden, se tornados em pilares de sal, ou consumidos pelo fogo.

Entretanto nos dias de fragilidade ideológica eles devem ter se sentido como os cristãos primitivos esperando diariamente pela Segunda Vinda que nunca veio. Teve até mesmo um avivamento da igreja durante o ano de 1920, pelo tanto de cidadãos – especialmente a intelligentsia – que redescobriram o que eles haviam perdido. Nikolai Bukharin escreveu palavras em 1919 o que ele poderia igualmente ter escrito em 1991, quando o experimento comunista acabou.

Era comparativamente fácil para a autoridade proletária afetar a separação da igreja do estado e da escola da igreja, e essas mudanças foram feitas quase sem dor. É muito mais difícil lutar com os preconceitos religiosos que já estão profundamente enraizados na consciência das massas no qual se agarram-se à vida de forma obstinada.

A Longa Caminhada

Religião é como um prego: quanto mais forte você bate, mais profundo ele adentra. Nossos esforços deviam ter sido direcionados em puxar para fora.

– Anatoly Lunacharsky, Comissário do Esclarecimento

Enquanto os comunistas governavam a Russia, religião (cristãos e outros) nunca morreram. Tiveram seus recuos, certamente – não havia muitos padres, muitas igrejas foram fechadas, e era perigoso ser muito vocal sobre idéias religiosas – mas emoções religiosas se enterraram profundamente na mente coletiva da Russia.

Em 1936 Stalin sentiu que ele devia fazer progresso no front antireligioso, mas rumores circulavam que por volta de 40 a 45 por cento da população permanecia religiosa. Indo bem no processo de eliminar todos os rivais ao poder, ele estava com um humor tolerante. Participando de um encontro na composição da Constituição de 1936, ele comentou: “Porque o clero deve ser socialmente excluído? Nem todos eles são desleais.” . Entretanto, o censo nacional de 1937 revelou uma surpreendente permanência do sentimento religioso; aparentemente muitos ousaram marcar na caixa “crente” como um protesto silencioso, e muitos que eram indiferentes quanto a religião não conseguiram chegar a marcar a caixa “descrente”. Stalin estava furioso. Ele só poderia evitar o constrangimento recusando-se a publicar os números exatos, através de sumir com 50 milhões de crentes. Outra fonte ocidental reportou que 57 por cento disse ter status de crente, o que se verídico aumentaria o número para 80 milhões de pessoas. Essas figuras foram chocantes quando nós consideramos que os nomes dos respondentes estava nos formulários.

Porque essa persistência religiosa? Comunistas, obcecados com ciência, aproximaram-se das igrejas da Russia como se elas fossem um produto de ciência mal formada. Eles acreditavam que se eles pudessem simplesmente educar a população na “ciência correta,” religião sumiria. Daí que eles arranharam a religião na sua superfície, expondo contradições internas, revelando as origens dos deuses em medos do homem primitivo da forças da natureza e ridicularizando a existência de milagres.

Embora esse método, vindo da falta de apreciação dos profundos aspectos psicológicos da religião, teve efeito em alguns indivíduos, não pode penetrar na psicologia social das massas. Robert Casey, escrevendo em 1946, usou uma metáfora diferente: “Os soviéticos realizaram pouco mais do que um podador que corta as folhas e galhos em excesso das árvores. O resultado à longa distância foi encorajar um crescimento mais saudável.” Durante a Grande Guerra Patriótica de 1940, Stalin até chegou a apelar à fé do povo para manter o país unido contra o assalto de Hitler.

Em 1960 Nikita khrushchev, irritado com a falta de progresso antireligioso, ordenou uma nova repressão nas igrejas e seu clero. Compelatemente sem imaginação (nunca um ponto forte dos socialistas), todas as mesmas táticas que falharam foram regurgitadas a serem tentadas de novo. Crentes somente ficaram em oculto e esperaram – o tempo estava do lado deles.

Eventualmente, como um modo de vida pós-guerra avançou, russos desenvolveram uma certa apatia pela igreja, mas isso não pareceu ser um resultado dos prognósticos marxistas ou táticas bolcheviques – em vez disso espelha as experiências européias ocidentais que menos sofrimento leva a menos comparecimento à igreja.

Desculpas abundaram. Nos primeiros dias, falhas do front anti-religioso foram atribuídas à dificuldades práticas com implementação: caixilhos treinados inadequadamente, organização ruim, trabalhadores preguiçosos e problemas de comunicação. Então os apologistas soviéticos selaram a sobrevivência da religião na transferência dos tempos czaristas. Marx predizia que a vida pós-revolucionária “seria estampada com as marcas de nascimento da velha sociedade cuja tumba ela emergiu”. Essa ainda parecia uma explicação razoável da persistência religiosa quando Emelyan Yaroslavsky, chefe da Liga dos sem-Deus, usou em 1923:

O espírito humano é caracterizado pela inércia. embora o corpo já se encontra em novas relações de labor, a mente se atrasa em compreender as novas formas. Tradições, lendas, tiveram sua influência nos cérebros dos vivos.

A contribuição de Stalin à fábrica de desculpas marxistas foi sua “cercado pelo capitalismo” teoria, argumentando que desde que a Revolução devia ser internacional ela não veio a fruir enquanto nações capitalistas existiam na periferia Soviética. Enquanto a URSS era temporariamente um mero enclave do socialismo aguardando pela vitória mundial ultimata, seria de esperar que a havia restado alguma vida de religião dentro do país.

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A fórmula para enlouquecer o mundo

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Adam Smith observa que em toda sociedade coexistem dois sistemas morais: um, rigidamente conservador, para os pobres; outro, flexível e permissivo, para os ricos e elegantes. A história confirma abundantemente essa generalização, mas ainda podemos extrair dela muita substância que não existia no tempo de Adam Smith. O que aconteceu foi que o advento da moderna democracia modificou bastante a convivência entre os dois códigos. Primeiro elevou até à classe dominante o moralismo dos pobres: na América do século XIX vemos surgir pela primeira vez na História uma casta de governantes que admitem ser julgados pelas mesmas regras vigentes entre o resto da população. No século seguinte, as proporções se invertem: a permissividade não só se instala de novo entre a classe chique, mas daí desce e contamina o povão. É verdade que não o faz por completo: metade da nação americana ainda se compreende e se julga segundo os preceitos da Bíblia. Mas os efeitos da “revolução sexual” foram profundos, espalhando por toda parte o permissivismo e o deboche para muito além da esfera sexual. O episódio Clinton, perdoado pelo Parlamento após ter usado o Salão Oval da Casa Branca como quarto de motel, mostra que, para uma grande parcela da opinião pública, até as aparências de moralidade se tornaram dispensáveis. Um breve exame das estatísticas de gravidez infanto-juvenil e do uso de drogas mostra que idêntica transformação ocorreu nos países da Europa ocidental, onde a dissolução dos costumes já vinha desde o fim da I Guerra Mundial (v. Modris Eksteins, Rites of Spring ).

As conseqüências dessa transformação se ampliam para muito além do domínio “moral”. Conforme vem demonstrando E. Michael Jones numa série memorável de estudos ( Degenerate Moderns: Modernity as Rationalized Sexual Misbehavior , San Francisco, Ignatius Press, 1993, e volumes subseqüentes) , é aí mesmo que se deve procurar a causa do sucesso das ideologias totalitárias no século XX. Articulando o seu diagnóstico com o de Gertrude Himmelfarb em One Nation , Two Cultures: A Searching Examination of American Society in the Aftermath of Our Cultural Revolution (New York, Vintage Books, 1999), podemos chegar a algumas conclusões bem elucidativas.

O poeta Stephen Spender, após romper com o Partido Comunista, já havia admitido que o que conduzia os intelectuais ocidentais à paixão por ideologias contrárias à própria liberdade de que desfrutavam era o sentimento de culpa e o desejo de livrar-se dele a baixo preço. A origem dessa culpa reside no fato de que amplas faixas da classe média passaram a desfrutar de lazeres e prazeres praticamente ilimitados, sem ter de arcar com as responsabilidades políticas, militares e religiosas com que a antiga aristocracia pagava o preço moral dos seus desmandos sexuais e etílicos. Num tempo em que a França era o país mais cristão da Europa, Luís XIV tinha nada menos de 28 amantes, mas sua rotina de trabalho era mais pesada que a de qualquer executivo de multinacional, sem contar o fato, tão brilhantemente enfatizado por René Girard ( Le Bouc Émissaire , Paris, Grasset, 1982), de que a função real trazia consigo a obrigação de servir de bode expiatório para os males nacionais: quando a cabeça de Luís XVI rolou em pagamento das dívidas de seu pai e de seu avô, isso não foi uma inovação revolucionária, mas o simples cumprimento de um acordo tácito vigente no cerne mesmo do sistema monárquico. Já na Idade Média, os encargos da defesa territorial incumbiam inteiramente à classe aristocrática: ninguém podia obrigar um camponês ou comerciante a ir para a guerra, mas o nobre que fugisse aos seus deveres bélicos seria instantaneamente executado pelos seus pares. Noblesse oblige : a classe aristocrática era liberada de parte dos rigores morais cristãos na mesma medida em que pagava pela sua liberdade com a permanente oferta da própria vida em sacrifício pelo bem de todos. A democratização da permissividade espalha os direitos da aristocracia por uma multidão de recém-chegados que de repente se vêem liberados da pressão religiosa sem ter de assumir por isso nenhum encargo extra, por mínimo que seja, capaz de restaurar o equilíbrio entre direitos e deveres. Ao contrário, junto com a liberdade vem o acesso a bens inumeráveis e a um padrão de vida que chega mesmo a ser superior ao da velha aristocracia – tudo isso a leite de pato. Ortega y Gasset notou, no seu clássico de 1928, La Rebelión de las Masas , que o típico representante da moderna classe média, o “homem massa”, era realmente um filhinho-de-papai, um señorito satisfecho que se julgava herdeiro legítimo de todos os benefícios da civilização moderna para os quais não havia contribuído em absolutamente nada, pelos quais não tinha de pagar coisa nenhuma e dos quais, geralmente, ignorava tudo quanto aos sacrifícios que os produziram.

Por toda parte, nas civilizações anteriores, um certo equilíbrio entre custo e benefício, entre direitos e deveres, entre prazeres e sacrifícios, era reconhecido como o princípio central da sanidade humana. A liberação de massas imensas de população para o desfrute de prazeres e requintes gratuitos é uma das situações psicológicas mais ameaçadoras já vividas pela humanidade desde o tempo das cavernas. Para cada indivíduo engolfado nesse processo, o efeito mais direto e incontornável da experiência é um sentimento de culpa tanto mais profundo e avassalador quanto menos conscientizado. Mas como poderia ele ser conscientizado, se na mesma medida em que se abrem as portas do prazer se fecham as da consciência religiosa? O señorito satisfecho é corroído por um profundo ódio a si mesmo, mas está proibido, pela cultura vigente, de perceber a verdadeira natureza de suas culpas, e mais ainda de aliviá-las mediante a confissão religiosa e o cumprimento de deveres penitenciais. A culpa mal conscientizada, conforme a psicanálise demonstrou vezes sem conta, acaba sempre se exteriorizando como fantasia persecutória e acusatória projetada sobre os outros, sobre “o mundo” sobre “o sistema”. O homem medianamente instruído do nosso tempo joga suas culpas sobre “o sistema”, fingindo para si mesmo que está revoltado pelo que ele nega aos pobres, quando na realidade o odeia por aquilo que esse sistema lhe dá sem exigir nada em troca. Não que o sistema seja isento de culpas; mas a mesma prosperidade geral que espalha os benefícios da civilização entre massas crescentes que jamais poderiam sonhar com isso nos séculos anteriores mostra que essas culpas não são de ordem econômica, mas cultural: o capitalismo não cria miséria e sim riqueza; mas junto com ela espalha o laicismo e o permissivismo, rompendo o equilíbrio entre o prazer e o sacrifício, necessidade básica da psique humana. Daí o aparente paradoxo de que o ódio ao sistema se dissemine principalmente – ou exclusivamente – entre as classes que dele mais se beneficiam materialmente (lembre-se do que eu disse sobre o movimento gay no artigo da semana passada). A tentação socialista aparece aí como o canal mais fácil por onde as culpas do filhinho-de-papai são jogadas precisamente sobre as fontes do seu bem-estar e da sua liberdade. Vejam essa meninada da USP, gente de classe média e alta, depredando uma universidade gratuita, e compreenderão do que estou falando: o que esses garotos precisam não é de mais benefícios; é de uma cobrança moral que restaure a sua sanidade. Mas, como os representantes do Estado são eles próprios señoritos satisfechos que também não compreendem a origem das suas próprias culpas, sua tendência é fazer dos jovens enragés um símbolo da sua própria consciência moral faltante; daí que lhes cedam tudo, num arremedo de penitência, corrompendo-os e corrompendo-se cada vez mais e precipitando uma acumulação de culpas que só pode culminar na suprema culpa da sangueira revolucionária. “Vivemos num mundo demente, e sabemos perfeitamente disso”, dizia Jan Huizinga na década de 30, pouco antes que o desequilíbrio da alma européia desaguasse no morticínio geral. Transcorridas quase oito décadas, a humanidade ocidental nada aprendeu com a experiência e está pronta a repeti-la. Hipnotizada pela lógica do desejo, que não enxerga cura para os males senão na busca de mais satisfações e mais liberdade, como poderia ela descobrir que seu problema não é falta de bens ou prazeres, mas falta de deveres e sacrifícios que restaurem o sentido da vida e a integridade da alma?

Não é preciso dizer que a adesão ao Ersatz revolucionário e socialista, sendo na base uma farsa neurótica, não alivia as culpas de maneira alguma, mas as recalca ainda mais fundo no inconsciente, onde se tornam tanto mais explosivas e letais quanto mais encobertas por um discurso de autobeatificação ideológica (Marilena Chauí sonhava em “viver sem culpas”; o sr. Luís Inácio Lula da Silva admite modestamente ter realizado esse ideal). O ódio ao sistema – com sua expressão mais típica hoje em dia, o anti-americanismo — cresce na medida mesma em que a ilusão autolisonjeira da pureza de intenções induz cada um a sujar-se cada vez mais na cumplicidade com a corrupção e os crimes do partido revolucionário. Os capitalistas, os representantes do “sistema”, por sua vez, aceitam passivamente ser objeto de ódio e até se regozijam nele, na vã esperança de assim purgar suas próprias culpas; mas, como estas não residem onde as aponta o discurso revolucionário, cada nova concessão ao clamor esquerdista os torna ainda mais culpados e vulneráveis.

Antecipando as análises de Jones e de Himmelfarb, Igor Caruso ( Psychanalyse pour la Personne , Paris, Le Seuil, 1962) localizava a origem das neuroses não na repressão do desejo sexual, mas na rejeição dos apelos da consciência moral. O abandono da consciência de culpa não pode trazer outro resultado senão a proliferação de culpas inconscientes. E as culpas inconscientes necessitam de novos e novos bodes expiatórios, cujo sacrifício só as torna ainda mais angustiantes e intoleráveis.

O homem civilizado

O advento do ocidentalismo atesta a superioridade do cristianismo, assim como o advento de manifestações naturalistas é o alicerce das comunidades primitivas. Ocorre que o primitivismo é atualmente um elogio à perversidade humana respaldado no mito do “bom selvagem” – melhor explicado por Rousseau -, tal como no repúdio de técnicas civilizatórias, que afastando o homem do contato direto com a natureza fez dele um animal impossível de conviver harmoniosamente com seus pares. O caos, a discórdia, a pobreza em todos os aspectos são fatores deletérios, mas inevitáveis como sentença da humanidade que escolheu se distanciar da inocência do primitivismo. Pois a civilização e o desenvolvimento de métodos de manipulação ambiental, como a agropecuária e a higiene artificial, seriam em si mesmas antinaturais. O resultado, afirmam, é a degradação humana inevitável.

Nada mais pueril.

Todavia cresce a ressalva de que “o ambientalismo é anticristão”. Fundamentalmente não a nego. Porém deve ser entendido que o primitivismo antecede o ambientalismo, abrangendo toda sorte de manifestações contrárias não somente ao cristianismo, mas também ao individualismo que é, resumidamente, a autodeterminação das decisões pessoais. Se o ambientalismo é anticristão, o primitivismo ideológico tem seu caráter anti-civilizacional, que prega que o homem deve abdicar imediatamente do conforto assimilado por seu distanciamento da natureza. Mediante tal ato a humanidade estaria mais próxima de entender a “harmonia natural”, ainda que ausentes quaisquer traços de civilização.

A beleza mitológica desse discurso é cativante, mas sua manutenção é impossível. E todo e qualquer discurso que está além das possibilidades minimamente aceitáveis de realização humana é relegado ao descaso, ao tempo em que é tido como uma pérola rara dentre seus adeptos. Não coincidentemente é que vemos o ambientalismo, enquanto mera demagogia, sendo louvado a todo instante ao mesmo tempo em que é abandonado exponencialmente. Falar em aquecimento global se tornou ridículo; falar em “alterações climáticas” se tornou o único remédio ante a extinção [dita “breve”] da humanidade.

Não importam quais sejam as tais alterações. Importa que as mesmas sejam causadas pelo homem, o homem civilizado, aquele que abandonou seu estado primitivo natural. “O homem cristão”, como li certa vez.

Da crescente ridicularização do esoterismo

Em uma conversa sobre a decadência intelectual da mentalização positiva o assunto enveredou para a seguinte questão: qual é a razão da crescente [e exponencial] ridicularização do esoterismo? Na roda composta por uma maioria de ateus era evidente que a resposta se daria no aspecto resumidamente material, que abrangeria desde o caráter anti-intelectualizado do fenômeno esotérico até sua previsibilidade moderna. Enganei-me. Ateus, então sabidos de minha condição como cristão, falaram com todas as letras que a ridicularização do esoterismo precede de sua própria falácia retórica, travestida de um aspecto espiritual.

Apesar da pertinência, era certo que o esoterismo também continha em si o amadorismo de todo movimento ocidental, mas que absorvia em si filosofias orientais. Pois que, com o advento de métodos ditos racionais, o esoterismo espirituoso tenta agora ser o esoterismo científico, este que comprova “pela ciência” teorias metafísicas e utilitárias à “alma daqueles que estão ligados a um Ser Superior”. Vou mais além: não à toa que o esoterismo é ridicularizado não somente no ocidente, onde encontra seu maior público cativo, mas também no próprio oriente, que vê no discurso esotérico o empobrecimento das virtudes lecionadas por budistas e hindus. É dessas terras inclusive que se encontram os melhores pensamentos sobre a irrelevância do esoterismo no oriente, tal qual a deturpação das religiões orientais, no ocidente, pelo esoterismo.

Arrisco ir mais além, se me permitem. A tentativa do esoterismo em sempre se acoplar a fenômenos históricos de outras religiões era no início aceitável por sua novidade. Toda novidade tem seu tempo ao glamour. Contudo, hoje tais afirmações são motivos de leves risos, quase imperceptíveis, revelando sua depreciação até mesmo entre as camadas intelectuais mais baixas. Dos faraós aos maias, de Jesus Cristo a Maomé, o esoterismo tenta se infiltrar, mediante concepções já ultrapassadas, em todos os grandes nomes da História, no esbravejo de que eles foram [ou são] conhecedores dos mistérios esotéricos ainda não totalmente revelados. Não ouso afirmar que dessa investida esotérica haja má-fé, dissimulação ou outras adjetivações.

Limito-me, todavia, a dizer que a ingenuidade da mente esotérica é ela mesma um de seus grandes pilares, que por fim sustentam toda sorte de argumentações dotadas de um estigma ideológico facilmente identificável. Isso fica mais evidente quando estudiosos dos astros afirmam que o esoterismo representa a decadência máxima da astrologia, ou quando o ocultista diz que o estudo esotérico é uma representação deturpada e falsificada das chamadas “ciências ocultas”. Ou seja, aqueles que os esotéricos mais apreciam ao final são os mesmos que repudiam e depreciam a mentalidade esotérica.

Enquanto o esoterismo tentou contaminar toda forma de pensamento espiritual, ao mesmo tempo em que trouxe uma justificatica científica, foi ele próprio excluído e rebaixado, de “terceira via”, a um subproduto do discurso espiritual. E por subprodução leia “aquilo que persiste no tempo, mas não na seriedade”.

É evidente que os próprios esotéricos perceberam que a credibilidade de seu movimento depende de uma retórica cientificista, que comprovaria, mediante a experimentação metodológica, os motivos que transcendem o conhecimento humano. Para tal será necessário abandonar determinados conceitos já ameninados, como o naturalismo ambientalista e a exaltação dos primitivos incivilizados.

Questão de sobrevivência.

Ayn Rand quer destruir o bem-estar da humanidade

Ayn Rand tem todas as características essenciais para causar manifestações de repúdio à sua filosofia: é atéia, liberal, anti-coletivista, defensora inafastável do empresariado e russa erradicada nos Estados Unidos. D’A Virtude do Egoísmo às famosas entrevistas da década de 60, Rand surgiu no cenário literário considerada a mais influente pensadora do Século XX. Atlas Shrugged, publicado em 1957, é um marco literário universal e obra magna do liberalismo clássico pós-Segunda Guerra. A síntese de Ayn Rand, contudo, é tão exacerbadamente simples que complicá-la é um exercício praticamente insustentável, tendo em vista o antagonismo existente entre Estado e indivíduo, coletivo e individualismo. A explicação da filósofa (chamo-a desse modo sem quaisquer constrangimentos) pauta-se na intervenção estatal que, visando o “bem comum”, enfraquece comedida e sorrateiramente a livre negociação ao ponto de torná-la uma concessão governamental, um mal necessário que deve ser limitado sempre que possível.

Por estas terras leio que o Estado pretende elevar o Imposto sobre Operações Financeiras de 0,38% para 4%, medida que pretende “evitar o endividamento excessivo da população”, porque o Grande Irmão pensa no bem-estar da coletividade. Obviamente que não se trata de um ensejo à arrecadação oriunda do lavor individual; é antes uma condescendência de como o Estado faz por você o que você não faz por si próprio. É tudo uma questão de preocupação justificada, que deve ser aceita para o bem de todos, sob pena de uma coerção – deixe-me achar a palavra certa – educativa.

Na Itália, leio que o Ministro da Indústria, Paolo Romani, quer impedir a FIAT de transferir sua sede para os EUA (os motivos são mais que óbvios), na alegação de que “a direção da montadora tem que ficar em Turim… precisa continuar sendo uma multinacional italiana”. Romani, preocupado, afirmou que Turim deve ser a sede do grupo e – sua preocupação foi mais além – também o “centro de planejamento e de decisões estratégicas”. O presidente da sexta maior montadora da Europa teve de dar explicações ao Estado sobre suas pretensões perversas de destruir o bem-estar do cidadão italiano.

Ayn Rand já nos explicou quais serão as consequências de tais medidas. A diferença está entre o romance e a realidade, naquilo que predissera suas palavras acerca do coletivismo e a ilusão do conforto oriundo da ociosidade fomentada pelo Estado. Mas estou tranquilo, pois já me explicaram que “o inimigo do desenvolvimento é a ganância do indivíduo”. E o ganancioso sou eu, que mereço severas advertências por acreditar na autodeterminação de minhas escolhas, e de meus erros.

Em dobro

‘A Bíblia nos ensina a amar o próximo e também a amar nossos inimigos provavelmente porque eles em geral são as mesmas pessoas’.

‘É infrutífero falar da contraposição entre razão e a fé. A razão é ela mesma uma questão de fé. É um ato de fé asseverar que nossos pensamentos tem alguma relação com a realidade’.

Chesterton