Black Swan e o rostinho delicado “éhonté” após a opressão materna

O rostinho delicado de uma jovem de aparência fraca, ingênua e inocentemente oprimida pelas exigências da mãe não poderia ser mais bem interpretado que pela crescida Natalie Portman. Ocorre que um filme indicado ao Oscar é tudo, menos “arte”. Apesar da Academia contemporânea aspirar a premiação de filmes inconstantes, geralmente existencialistas e de cunho proto-filosófico, é óbvio que o sucesso cinematográfico de Inception é indiscutível, apesar de ser agora, e somente agora, um “filme comercial”.

Valha-me Deus tamanha sabedoria poética! Ocorre também que o blockbuster sui generis da santa que se torna uma pervertida escandalosamente reprimida pelo indescoberto toque das genitálias é detalhe tão superficial que, se quiser “arte”, faça da película cinematográfica a exteriorização da frustração de uma inocente bailarina “oprimida pelas exigências da mãe”.

O resultado é inevitável: ter-se-á, caros leitores, a intensidade de qualquer filme sexualista aliado à inocência redacional de meninas bailarinas geralmente abraçadas com ursinhos de pelúcia; ou, em Black Swan, a dócil sonolência decorrente de uma caixinha de música. A menina, antes inocente, se transforma na mulher, agora vívida de experiências antes impensáveis.

Eu poderia aqui discorrer das características dostoievskianas do enredo existencial de Nina, do conflito shakespeariano entre o desejo e a repressão familiar ou do vitimismo girardiano de suas concorrentes também e claramente puras. Mas limito-me a dizer que a criatividade cinematográfica, submersa no coitadismo existencial, fez de Black Swan o novo, irreversível e imaculado Blockbuster do Século XXI.