Do igualistarismo de tudo e todos

Estarei sendo ingênuo se considerar os problemas semânticos e de mera interpretação textual uma casualidade irrelevante na mente burocrata. Se até mesmo o desejo é opressor, quanto mais as palavras, estas que constroem e destroem tão facilmente qualquer intenção no coração mais bondoso.

Por exemplo, a generalização do todo nas palavras masculinas talvez se justifique por questões linguísticas, de cunho literário, mas nunca por uma aceitabilidade natural e inevitável da língua em reduzir para simplificar. As advertências, contudo, têm sido amplamente discutidas: “homens”, cujo termo expressa o todo e o gênero, fora incutido na mente dos indivíduos sob uma forma velada de opressão. Conquanto um termo opressivo, deve ser então “democraticamente debatido”. A conclusão democraticamente aceita explica ao coletivo que, eis que revelados os estratagemas, “homem” e “mulher” são termos simetricamente opostos – com os quais é impossível qualquer considerável confusão -, mas genericamente idênticos. É o desigual fundindo-se com a ausência total de diferenças. O masculino é “homem” e o feminino é “mulher”. Ponto. Algo além disso são dominações escondidas na sordidez do agente opressor.

E, veja bem, não estou falando de feminismos e outros coitadismos: falo, de certo, da ansiedade coletiva na anulação da cognição individual da compreensão da língua nativa.

Os exemplos são vastos: dos acentos inúteis às reformas ortográficas, da catalogação burocrática das regras gramaticais às exigências linguísticas de órgãos de regulação da educação, tenho uma especulação que é, diria, um fenômeno do Século. Um fenômeno justificável, se considerarmos que a teoria do inconsciente coletivo prega rudemente o igualitarismo de tudo e todos, inclusive da língua.

O cúmulo de tamanha justiça linguística é ler nos jornais uma palavrinha feia, estranha, agora denominada “presidenta”.

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