Black Swan e o rostinho delicado “éhonté” após a opressão materna

O rostinho delicado de uma jovem de aparência fraca, ingênua e inocentemente oprimida pelas exigências da mãe não poderia ser mais bem interpretado que pela crescida Natalie Portman. Ocorre que um filme indicado ao Oscar é tudo, menos “arte”. Apesar da Academia contemporânea aspirar a premiação de filmes inconstantes, geralmente existencialistas e de cunho proto-filosófico, é óbvio que o sucesso cinematográfico de Inception é indiscutível, apesar de ser agora, e somente agora, um “filme comercial”.

Valha-me Deus tamanha sabedoria poética! Ocorre também que o blockbuster sui generis da santa que se torna uma pervertida escandalosamente reprimida pelo indescoberto toque das genitálias é detalhe tão superficial que, se quiser “arte”, faça da película cinematográfica a exteriorização da frustração de uma inocente bailarina “oprimida pelas exigências da mãe”.

O resultado é inevitável: ter-se-á, caros leitores, a intensidade de qualquer filme sexualista aliado à inocência redacional de meninas bailarinas geralmente abraçadas com ursinhos de pelúcia; ou, em Black Swan, a dócil sonolência decorrente de uma caixinha de música. A menina, antes inocente, se transforma na mulher, agora vívida de experiências antes impensáveis.

Eu poderia aqui discorrer das características dostoievskianas do enredo existencial de Nina, do conflito shakespeariano entre o desejo e a repressão familiar ou do vitimismo girardiano de suas concorrentes também e claramente puras. Mas limito-me a dizer que a criatividade cinematográfica, submersa no coitadismo existencial, fez de Black Swan o novo, irreversível e imaculado Blockbuster do Século XXI.

Educação pública, doutrinação política

Assumo que é cativante as expressões de piedade daqueles que, com voz branda e olhar sereno, afirmam contundentemente que a “educação deve ser pública”. O publicismo não é somente um fenômeno econômico, é de se constar: é, antes, um estigma que inevitavelmente pesa no indivíduo [“egoísta e ganancioso”] a submissão irrestrita à educação que fora antes decidida atrás das mesas de burocratas e outras excelências. Do mais obtuso opinante ao esclarecido estudioso das “ciências sociais”, é uníssona a conclusão de que a educação pública, conquanto aprendizagem pura e simples, é necessária não somente como método de desenvolvimento intelectual, mas também de doutrinação política. E não falo, caros, de uma opinião sórdida e falada em cantos obscuros somente para poucos esclarecidos.

A doutrinação política é assumidamente um ideal que para se desenvolver faltam somente os recursos necessários. Se inexistentes, apressam-se em forjar suas estruturas basilares; se já amplamente divulgados, basta a inserção na mente do estudioso que o mérito é seu dilema antagônico: basta a aniquilação do mérito e a supressão gradativa do esforço e destaque intelectuais como virtudes individuais para que se faça florescer, na mente do mais puro coração, que a ciência de um é a opressão de todos, que o sucesso intelectual individual é a ofuscação causadora da incompetência do coletivismo.

O novo rebelde tornou-se praticamente inútil

O republicanismo teve um lado ascético em Franklin ou Robespierre bem como um lado expansivo em Danton e Wilkers. Por isso eles criaram algo com substância e forma sólidas, a igualdade social completa e a riqueza campesina da França. Mas desde aquele tempo a mente revolucionária ou especulativa da Europa se enfraqueceu pelo seu distanciamento de qualquer proposta por causa dos limites inerentes ao que se propunha. O liberalismo degradou-se em liberalidade. Os homens tentaram transformar o verbo “revolucionar” de transitivo em intransitivo. Os jacobinos não apenas sabiam dizer contra que sistema se rebelariam, mas também (o que é mais importante) contra que sistema não se rebelariam, o sistema em que confiariam.

Mas o novo rebelde é um cético, e não confia inteiramente em nada. Não tem nenhuma lealdade; portanto, ele nunca poderá ser de verdade um revolucionário. E o fato de que ele duvida de tudo realmente o atrapalha quando quer fazer alguma denúncia. Pois toda denúncia implica alguma espécie de doutrina moral; e o revolucionário moderno duvida não apenas da instituição que denuncia, mas também da doutrina pela qual faz a denúncia. Assim, ele escreve um livro queixando-se de que a opressão imperialista insulta a pureza das mulheres; e depois escreve outro (sobre o problema do sexo) no qual ele mesmo a insulta. Ele amaldiçoa o sultão pela perda da virgindade de garotas cristãs; e depois amaldiçoa a sra. Grundy pela preservação dela. Como político, ele grita que toda guerra é um desperdício de vida; e depois, como filósofo, grita que toda vida é um desperdício de tempo.

Um pessimista russo denunciará um político por matar um camponês; e depois, pelos mais elevados princípios filosóficos, provará que o camponês deveria ter-se suicidado. Alguém denuncia o casamento como uma mentira; e depois denuncia os libertinos aristocráticos por tratarem essa mesma instituição como uma mentira. Alguém chama a bandeira de bugiganga; e depois acusa os opressores da Polônia e da Irlanda de terem suprimido aquela bugiganga. O adepto dessa escola primeiro participa de uma reunião política, na qual se queixa de que os selvagens são tratados como se fossem animais; depois apanha o chapéu e o guarda-chuva e vai para um reunião científica, na qual prova que eles são praticamente animais.

Em resumo, o revolucionário moderno, sendo um cético sem limites, está sempre ocupado em minar suas próprias minas. No seu livro sobre política ele ataca os homens por espezinharem a moralidade; no seu livro sobre ética ele ataca a moralidade por espezinhar os homens. Portanto, o homem moderno em estado de revolta tornou-se praticamente inútil para qualquer propósito da revolta. Rebelando-se contra tudo, ele perdeu o direito de rebelar-se contra qualquer coisa específica.

Chesterton em Ortodoxia

Do igualistarismo de tudo e todos

Estarei sendo ingênuo se considerar os problemas semânticos e de mera interpretação textual uma casualidade irrelevante na mente burocrata. Se até mesmo o desejo é opressor, quanto mais as palavras, estas que constroem e destroem tão facilmente qualquer intenção no coração mais bondoso.

Por exemplo, a generalização do todo nas palavras masculinas talvez se justifique por questões linguísticas, de cunho literário, mas nunca por uma aceitabilidade natural e inevitável da língua em reduzir para simplificar. As advertências, contudo, têm sido amplamente discutidas: “homens”, cujo termo expressa o todo e o gênero, fora incutido na mente dos indivíduos sob uma forma velada de opressão. Conquanto um termo opressivo, deve ser então “democraticamente debatido”. A conclusão democraticamente aceita explica ao coletivo que, eis que revelados os estratagemas, “homem” e “mulher” são termos simetricamente opostos – com os quais é impossível qualquer considerável confusão -, mas genericamente idênticos. É o desigual fundindo-se com a ausência total de diferenças. O masculino é “homem” e o feminino é “mulher”. Ponto. Algo além disso são dominações escondidas na sordidez do agente opressor.

E, veja bem, não estou falando de feminismos e outros coitadismos: falo, de certo, da ansiedade coletiva na anulação da cognição individual da compreensão da língua nativa.

Os exemplos são vastos: dos acentos inúteis às reformas ortográficas, da catalogação burocrática das regras gramaticais às exigências linguísticas de órgãos de regulação da educação, tenho uma especulação que é, diria, um fenômeno do Século. Um fenômeno justificável, se considerarmos que a teoria do inconsciente coletivo prega rudemente o igualitarismo de tudo e todos, inclusive da língua.

O cúmulo de tamanha justiça linguística é ler nos jornais uma palavrinha feia, estranha, agora denominada “presidenta”.

Cuba de Berlim

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Dois dias depois, em 15 de agosto, começou a construção do Muro de Berlim. O muro era constituído de tijolo e concreto, e levou dois anos para ser finalizado. Quando concluído, ele tinha 45 quilômetros de extensão e 2,74 metros de altura, com arame farpado no topo. Os guardas do lado oriental estavam sempre armados com metralhadoras e atiravam em qualquer um que tentasse cruzar o muro. Havia também uma área de 183 metros, entre o primeiro obstáculo e o muro, coberta de minas terrestres e patrulhada por cães policiais.

Entretanto, apesar disso, durante os 28 anos da existência do Muro, entre 1961 e 1989, um número estimado de 5.000 pessoas conseguiu fugir – sobre, sob e através do Muro. Alguns escaparam através da rede de esgoto que passava debaixo do muro. Outros cavaram túneis – o mais longo deles tinha 153 metros, e 57 pessoas utilizaram-no para fugir para Berlim Ocidental em 1964.

Uma mulher coseu uniformes militares soviéticos para três amigos homens, que conseguiram atravessar de carro um dos pontos de controle. Ela também estava no carro, toda comprimida debaixo do assento dianteiro. Um homem munido de um arco e flecha subiu até o topo de um prédio em Berlim Oriental e disparou uma flecha amarrada a um cabo até o outro lado do muro. De alguma forma, ele conseguiu deslizar pelo cabo até o lado ocidental, ganhando a liberdade.

Alguns construíram balões de ar quente e máquinas voadoras toscas que utilizavam motores de motocicleta para propulsionar voos sobre o muro. Outros nadaram ao longo de canais ou rios que separavam partes de Berlim Oriental da Ocidental.

Também surgiram empresas especializadas em gerenciar fugas. Elas faziam anúncios nos jornais da Alemanha Ocidental. Uma dessas empresas, chamada Aramco, com sede em Zurique, Suíça, divulgava informações sobre suas “mais modernas técnicas”. Os preços cobrados pela empresa não eram tão absurdos assim: de $10.000 a $12.000 por pessoa, sendo que para famílias havia um “desconto proporcional à quantidade”, pagável em uma conta numerada em um banco suíço. Se a tentativa de fuga fracassasse, a empresa restituía a maior parte do dinheiro à pessoa que estava patrocinando financeiramente a escapada.

Em Berlim Oriental, o governo da Alemanha Oriental distribuiu fotos do diretor da Aramco, Hans Ulrich Lenzlinger, oferecendo 500.000 marcos alemães pela sua captura. Essas fotos – naquele estilo “Procurado” – referiam-se negativamente ao suíço como um “comerciante de pessoas”. Em fevereiro de 1979, alguém coletou o prêmio pela cabeça de Lenzlinger, após ele ter sido baleado várias vezes no peito e morto em sua casa em Zurique.

Ele não foi a única vítima das tentativas de fuga. Durante os 28 anos da existência do muro, 80 pessoas perderam suas vidas tentando chegar ao lado ocidental do muro. E mais de 100 outras morreram tentando escapar através de pontos da altamente bem vigiada fronteira da Alemanha Oriental.

Do republicanismo em sua fragilidade coletivista

Texto escrito no Império Conservado.

Todo e qualquer movimento, instituição e concepção política pode ser maculado pelo seu descrédito filosófico, o qual proporciona toda sorte de distorções conceituais que não encontram respaldo nas teses originais. Do liberalismo econômico ao tradicionalismo institucional, do conservadorismo político ao fundamentalismo religioso, o entendimento de suas proposições foram alterados e, hoje, refere-se tão somente a um resquício histórico estudado por uma minoria interessada na desambiguação entre conceito originário e o conceito coletivo, este alicerçado no amadorismo intelectual e senso comum previsível.

Mas se falamos de ideologias de Governo já amplamente efetivadas (o que afasta a limitação teórica da utopia governamental), falamos consequentemente em suas características essenciais, tendo em vista a observação histórica pela qual se testifica a falibilidade em sua implementação. Portanto, sendo falível e perseguida corriqueiramente por nações culturalmente subdesenvolvidas, a ideologia governamental nelas aplicada ou é maciçamente defendida por sua proeminência, ou é questionável justamente por sua facilidade de implementação, em geral decorrente de simplismos institucionais e ausência de critérios elevados para sua manutenção qualitativa.

Basta visualizar o esquema político global para que se constate esta realidade: a civilização contemporânea, as virtudes – não alcançadas pelos latino-americanos – da Democracia, a liberdade individual e econômica, o tradicionalismo institucional e o conservadorismo político, o respeito religioso em sua coexistência pacífica e o desenvolvimento exponencial da intelectualidade científica se encontram consolidados na Monarquia Parlamentarista.

Porém, contestá-lo como um fato exige do contestador a perigosa tarefa de enfatizar justamente o fenômeno republicano de colocar na fraqueza institucional o poder supremo do exercício do voto, seja ele de inaptos, seja ele de desinteressados para com a própria política nacional. O voto, assim, torna-se a expressão máxima do republicanismo, quando verdadeiramente é a exteriorização de sua debilidade institucional travestida de ativismos democráticos.

É como querer convencer-me de que há, quando o povo elege seu tirano, a total validade institucional republicana, porque “se um povo quer a tirania, assim a terá pelo voto”, como disse certa vez um grande jurista republicano.

Obviamente, não é coincidência que o autoritarismo e regimes despóticos modernos foram quase em suas totalidades criados e imaginados no seio do republicanismo: não por uma coincidência imatura e desconexa da política, mas sim pela vereda republicana que permite e, além, incentiva a debilidade democrática em prol do populismo regente dos incompetentes na decisão pelo voto, facilmente manipuláveis a fins políticos perversos, mas amparados pela ausência na República de uma figura que esteja acima do pleito eleitoral e que tenha amplos poderes de por sua identidade supra-eleitoral dissolver as casas representativas.

Percebe-se que a preocupação central dos teóricos republicanos foi e continua a ser as medidas efetivas de controlar, ainda pelo dito “voto democrático” (como se Democracia se limitasse a tal concepção), quaisquer tendências totalitárias. Da famigerada “conscientização do voto” a métodos arcaicos e ineficientes de separação do presidente de sua influência coletivista, o voto republicano, que impele a manutenção de casas representativas decadentes, está fadado a ser conservado na mente da população como dívida de medidas assistencialistas irrefutáveis e de tendências crescentes.

De certo que se falamos das terras tupiniquins falamos de fenômenos grotescos da política. Em sendo o voto obrigatório e não uma discricionariedade do individuo, o pleito contamina-se já de antemão por meio da inserção coercitiva daqueles que não têm qualquer discernimento político e que, se não por obrigação, sequer pensariam em exercer tal prerrogativa. Aliás, a obrigatoriedade do voto é caracteristicamente a objetivação do sufrágio, pela qual é de sumo interesse do Poder Executivo manter por questões obviamente pragmáticas.

A deturpação do voto republicano é tamanha que a República, hoje, tornou-se sinônimo de Democracia. Falar em atos democráticos é falar em República; falar na dissolução parlamentar é, hoje, uma afronta democrática por decorrência do desrespeito dos interesses do povo. Falar em República Democrática é afirmar, sem mais palavras, que independentemente das consequências tirânicas o povo soberano assim o quis.

A tendência crescente em refutar a proliferação das chamadas Repúblicas Socialistas segue o mesmo trilho da proliferação daqueles que observam no voto a maior e talvez única expressão democrática realmente válida. Tal é o pensamento reinante nas escolas políticas latinas, que transferem ao voto a capacidade ampla e indiscutível de uma maioria decidir sobre uma minoria declarada irrelevante. Não se trata, caros, de um antagonismo político, mas sim que de fato a República tornou-se o escopo do coletivismo de Estado, o qual é historicamente o passo anterior à aniquilação das instituições democráticas.

Dê-lhes o pão e terás o voto. Dê-lhes a República e terás o sufrágio como direito sacrossanto de eleger, talvez por um período caótico, aquele que pode manipular as instituições republicanas para sua perpetuação no Poder Executivo e aparelhamento das demais esferas de Poder. Dê-lhes o Brasil e terá o voto republicano obrigatório, que faz do inapto o mais feliz dos cidadãos, porquanto se antes era descartável politicamente hoje se transformou no principal e inevitável caminho de “seleção democrática”, de “exercício amplo da cidadania”, da “garantia da continuidade democrática da República moderna”.

É inegável que são existentes métodos e instituições que visam suprimir a falha irrefutável do voto republicano: chama-se, caros, Colégio Eleitoral; ou, mais precisamente, a institucionalização do voto indireto, que inibe consequentemente as regalias do assistencialismo e demais atividades perpetradas pelo presidencialismo.

Mas esse é assunto para outra oportunidade.

Homeschooling

O que penso do fenômeno em minha contribuição não-interesseira ao Dicta&Contradicta:

Esse é um dos assuntos que, assim como métodos de pesquisa, tendo a duvidar de qualquer afirmação meramente teórica como “o desempenho desses alunos costuma ser significativamente melhor”, ainda que ditado em artigos e reportagens obviamente tendentes ao tema. É conversar com um estrangeiro irrestritamente submetido a esse método de estudo para perceber uma deficiência intelectual evidente. De todos os contatos dos quais mantive, todos eles (e quando digo todos, falo em nenhuma exceção) eram verdadeiros débeis intelectuais, limitados a perspectivas científicas ultrapassadas e totalmente contrários ao bom senso intelectual. Mas entendo quem os defenda. Pois que não falamos de estudo e desenvolvimento intelectual, e sim da validade ou não do Estado educar nossos rebentos. Ou seja, a discussão não é meritocrática, e sim ideológica. Assumo, contudo, que a massa estudantil latina está geralmente na ralé daqueles submetidos ao Homeschooling, o que não significa que essa realidade seja um padrão aceitável perante o mundo civilizado.