Do personagem e as narrativas

A descrição de um personagem segundo Dostoiévski é a descrição de suas fraquezas: a observação dos gestos e a composição do cenário, a formação do mistério narrativo e sua consumação caótica são meras facetas de tudo aquilo que de fato importa à literatura, a qual somente pode ser conduzida ao leitor se transmite a ele as indignações e sofrimentos que envolvem o enredo. Essa é a diferença contumaz entre a literatura de antes e a literatura de agora, que salvo exceções peroladas abraça não o personagem, mas a resolução narrativa, ainda que em sua forma mais simplória e rude.

Talvez seja dessa perspectiva comparativa pelo qual é gerado o desprezo maciço a comediantes como Stephenie Meyer, e por maciço leia “aqueles que já leram Dostoiévski”. Pois quem ainda não o leu, caros, é um leitor incompleto e definitivamente não consegue sobrepor o conceito do personagem ao conceito da narrativa.

Os comentários de Crime e Castigo enveredam a Rodion Românovitch Raskólnikov. A análise de Os Irmãos Karamazon é a análise de Aliéksiei Fiodórovitch Karamazov, Ivã Fiodórovitch Karamazov e Dmítri Fiodórovitch Karamazov. A discussão de O Jogador é a discussão sobre Aleksei Ivánovitch. Não se discute Hamlet quando ausente o entendimento do personagem Príncipe Hamlet, assim como é impossível discutir O Nome da Rosa se não existe qualquer comentário acerca de William de Baskerville. A narrativa de Guerra e Paz é incompleta se Nicolau Rostov for esquecido.

Se o personagem se torna mero adendo à narrativa, não se fala em literatura, mas em escrevências.