A menina à sarjeta

– E o que achas da menina à sarjeta, como que implorando por dinheiro? – desafiou.

Túlio virou-se e silenciosamente aquiesceu à pergunta. Não que demonstrara indiferença, mas perante tais circunstâncias era improvável que sua piedade significasse de fato qualquer coisa à pobre menina. Antes, refletindo, Túlio admirou a frieza e perspicácia em esconder sua conturbação. Disse então:

– Observei-a desde cedo quando, fazendo minhas compras, perambulava pela calçada com a mão estendida e com os olhinhos lacrimejados. Aproximou-se um senhor e deu-lhe duas notas. Outra, uma mulher acompanhada de seus rebentos, deu-lhe moedas que pareciam de alto valor. Outras crianças, ainda, deram notas e moedas à pobre menina, que momentaneamente exerceu um sorriso complacente e delicado. Mas a menina continuava com seu rosto tristonho. Outro senhor, agora com vestes mais finas, ofertou-lhe alimentos e a menina, esbaforida, tornou a comer festejando a caridade, agora de olhos fechados ao degustar a beleza de uma culinária que há tempos não apreciava. Porém, nada além que relembrando de sua condição inicial, tornou-se a sentar em tristes pensamentos. A mão estava estendida novamente. Pessoas continuavam a lhe dar mantimento.

– A que ponto queres chegar? – disse o amigo irritado. Procedeu Túlio:

– Contar-lhe-ei, caro, a minha análise sincera. Vejo-a então escorada na sarjeta e eis que as crianças se aproximam delicadamente, já com as notas e moedas em mãos. Atenta ao fato, a pobre menina na sarjeta não expressa qualquer reação promocional ou de contentamento explícito antes do necessário; como que prevendo o ato, visualizando sua inevitabilidade, mantém-se estagnada com o olhar inalterado ao nada, ainda com a mão estendida. Aproximadas as crianças, a menina em seu olhar fixo abre levemente a mão e controla-se para que não explicite qualquer reação que lhe custe sua depressão; caem-lhe as notas e as moedas, e a menina limita-se a sorrir delicadamente, mas não antes sem notar se outros pedestres notavam a cena. A menina percebe que ninguém, absolutamente ninguém notara a última caridade! O que faz ela? Coloca as moedas e notas ao bolso, esfrega as mãos ao chão e põe-se do sorriso à tristeza, com os dedos agora deveras sujos cujo caráter transmite a ausência de qualquer que seja a ajuda peticionada. O velho em terno inglês oferece-lhe alimento. Bom alimento, por sinal, pois charutos árabes não se acha em qualquer lugar. Limpara as mãos com seu pano já umedecido, porquanto a menina que antes pedia por dinheiro delicia-se com o alimento, mas não sem antes escorar-se debruçada sobre o prato. Ajeitara os cabelos. “Por que esconder o alimento?”, pensaria o mais ingênuo, porém é inconcebível que o mantimento ofertado pelos transeuntes se limitasse tão somente à alimentação imediata. As mãos, ainda limpas, novamente se esfregam ao chão e tornam-se a pedir pelas esmolas. A histeria mudara à tristeza, a felicidade do alimento deu lugar aos pequenos braços estendidos, as mãos novamente sujas, os olhos retos que contemplavam abstrações. Quero lhe explicar algo, meu caro: a menina que ali empulha as mãos, cujo rostinho delicado implora por manutenção, pode ensinar os conceitos mais elevados da arte ao mais nobre intelectual terreno, certamente pode confundir os sábios das sinagogas e fazer chorar o mais rude. Nas ruas, aprende-se o teatro nunca ensinado pelos mestres e saiba que não escondo minha indignação. Estar nas ruas é estar mergulhado na indiferença e conceber que mecanismos piedosos são inevitáveis, senão obrigatórios. Por que tamanha surpresa? Se há, caro, algo que me fascina é a perspicácia dos pequenos. Ao olhar tênue eles o consomem inteiramente, deixando-o à mercê ou da vergonha, ou da covardia; fazem-no coadjuvante no palco e, ao final, ditam-no carrasco ou santo. Aquela menina ali sentada tem o poder em acusá-lo o pior dos homens ou o mais belo dos anjos; é ela quem pode em um instante mínimo assolar seu caráter e apontar-lhe como responsável de sua condição existencial. A menina é a vítima, e nada há que fazer para mudar tal acusação: já és réu culpado submetido tão somente às indulgências. Negue-lhe o pão, e estarás assinando sua sentença definitiva. Serás ditado o cruel e tirano opressor que não se rende à dissimulação da pobre e inocente criança.

O colega preferiu o silêncio. Aturdido, retirou-se a passos leves.