Minha mensagem de Natal a todos os desvalidos

A minha relutância em escrever sobre datas específicas é a mesma em tentar definir a misericórdia segundo os Evangelhos. Se o Natal é a data que provém de uma concepção religiosa cristã, alastrando-se aos quatro cantos do mundo ainda que pela máscara da bondade, é inevitável dizer que dia após dia, ano após ano, década sobre década o Natal tem se esvaído para se curvar às benesses do pietismo coletivo. Isso significa que, sim, a tentativa da humanidade em propagar o Natal tal qual a materialização inafastável da piedade é um dos fatores de deformação de seu significado principal, inevitavelmente submetido a Jesus Cristo.

Brota nos corações a mais íntima compaixão, a caridade aflora-se como algo imanente de suas personalidades, palavras e gestos de carinho são proferidos e distribuídos desmedidamente, e sorrisos são externados temporariamente a todo e qualquer bem-feitor.

Famílias se reúnem e desafetos são esquecidos.  Relembram-se das antigas virtudes e todos os defeitos são abandonados. Irmãos contra irmãos temporariamente batalham pela restituição da convivência. Amigos merecidos em seu desprezo são citados como exemplo de altruísmo e conservação do relacionamento.

Indivíduos patéticos são convidados à mesa, e dá-se a eles outra chance dissimulada de reconciliação. Doações são obrigatórias, mas não menos justificadas: “ajude, e será recompensado”.

O Natal é abandonado e o altruísmo é a regra.

A não ser que você tente me convencer que o espírito natalino é o espírito do exercício das virtudes inexistentes.