O descontentamento do coitado; ou: “nada a declarar”

O erro de determinados leitores que insultam o escritor é crer piamente que este tenta convencê-los e manipulá-los aos fins mais perversos e maniqueístas, coisificando suas mentes e fazendo dela uma projeção de fatos politicamente incorretos e que não podem ser refutados. Pressuponho que seja, além de tática, uma externação de descontentamento, tornando a teorização de um fenômeno algo intrinsecamente indiscutível e inafastável, cuja única finalidade é impelir ao interlocutor a vergonha de ser intelectualmente derrotado.

E, sim, acredito em derrotas intelectuais.

Desde a publicação do texto “No que socialistas e capitalistas concordam” foram incontáveis as reclamações, reivindicações de resposta e fraquíssimas ameaças de um eventual processo. O motivo? Afirmei que o indivíduo que se beneficia do assistencialismo é até mesmo inferior ao indigente, porque enquanto este é político e economicamente inócuo, aquele é agente de toda sorte de degradações, sendo necessária sua exclusão dos círculos sociais como represália de sua destrutividade moral.

A ofensividade obviamente não se origina na comparação entre indigente e assistenciado, e sim que muitos daqueles que se incomodaram com a afirmação são eles próprios beneficiados pelo assistencialismo e se negam a estabelecer qualquer parâmetro de decadência pessoal. Do contrário, esperam ser tratados como legítimos coitados e vítimas de um sistema que lhes retira suas virtudes mais nobres, mas nunca antes reveladas, as quais devem ser externadas agora senão à força por meio da coerção do Estado.

Impressiona-me perceber que os beneficiados pelo assistencialismo estatal acham-se justificados em sua própria condição decadente. Se os conservadores consideram o vitimismo uma reação vaga e não percebida pelas pretensas vítimas, de certo que não se depararam com as aberrações assistenciais tupiniquins. Como em uma aula cujos professores são as vítimas, as argumentações vão desde a exploração do mais forte à mais-valia de Marx, ensinando-nos os contornos mais sutis de seus benefícios. De certo que em algum momento lhes ensinam sobre a falácia do proletariado e a exploração da burguesia, e não por acaso diversas das reclamações recebidas continham o discurso marxista provenientes de professores de Ensino Médio que tiveram, de alguma forma, acesso a texto.

Explica-me um leitor que o texto em questão “força as pessoas a terem uma visão deturpada do assistencialismo. Está certo que ele favorece o populismo eleitoreiro. Mas não é isso bom, se o Governo consegue tirá-los das garras do mercado avassalador? Prefiro observar pessoas cativas do Governo a observar que muitos deles trabalham apenas para sustentar o Sistema”.

Nada a declarar.

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