Todos amam o Aquecimento Global

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Governments love the issue because it provides a good excuse for more taxes, regulation and bureaucracy. Scientists love it because it provides grant money and subsidies, as well as fancy trips to exotic locales on someone else’s dime. Government bureaucrats love it for that too (actually, everyone involved loves it for that). Socialists love it because it shows the evils of capitalism. Environmentalists love it because it shows the evils of civilization. Religious leaders love it because it shows the evils of humanity. Statists love it because it seems to be a problem that can only be solved with a bigger state. Corporations love it because they can get government subsidies to pretend to invent “green” products that people can pretend will solve the non-existent problem. Guilt-ridden middle class liberals love it because it helps them to feel alive for a few brief moments before the emptiness returns. Celebrities love it because it gives them a feel good issue to advocate for in order to assuage their guilt over their own extreme wealth and lavish lifestyles. Pretty much every member of the political and intellectual class has a stake in this issue surviving, and so it probably will. Judah Cohen himself is in on the scam and has managed to mix in a bit of the military-industrial-complex for flavor.

The end of the world from climate change or global warming is probably not going to happen. They probably won’t even cause any inconvenience. If you are going to worry, worry about what the global bureaucrats and other AGW interest groups are planning to do to you.

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Do personagem e as narrativas

A descrição de um personagem segundo Dostoiévski é a descrição de suas fraquezas: a observação dos gestos e a composição do cenário, a formação do mistério narrativo e sua consumação caótica são meras facetas de tudo aquilo que de fato importa à literatura, a qual somente pode ser conduzida ao leitor se transmite a ele as indignações e sofrimentos que envolvem o enredo. Essa é a diferença contumaz entre a literatura de antes e a literatura de agora, que salvo exceções peroladas abraça não o personagem, mas a resolução narrativa, ainda que em sua forma mais simplória e rude.

Talvez seja dessa perspectiva comparativa pelo qual é gerado o desprezo maciço a comediantes como Stephenie Meyer, e por maciço leia “aqueles que já leram Dostoiévski”. Pois quem ainda não o leu, caros, é um leitor incompleto e definitivamente não consegue sobrepor o conceito do personagem ao conceito da narrativa.

Os comentários de Crime e Castigo enveredam a Rodion Românovitch Raskólnikov. A análise de Os Irmãos Karamazon é a análise de Aliéksiei Fiodórovitch Karamazov, Ivã Fiodórovitch Karamazov e Dmítri Fiodórovitch Karamazov. A discussão de O Jogador é a discussão sobre Aleksei Ivánovitch. Não se discute Hamlet quando ausente o entendimento do personagem Príncipe Hamlet, assim como é impossível discutir O Nome da Rosa se não existe qualquer comentário acerca de William de Baskerville. A narrativa de Guerra e Paz é incompleta se Nicolau Rostov for esquecido.

Se o personagem se torna mero adendo à narrativa, não se fala em literatura, mas em escrevências.

A menina à sarjeta

– E o que achas da menina à sarjeta, como que implorando por dinheiro? – desafiou.

Túlio virou-se e silenciosamente aquiesceu à pergunta. Não que demonstrara indiferença, mas perante tais circunstâncias era improvável que sua piedade significasse de fato qualquer coisa à pobre menina. Antes, refletindo, Túlio admirou a frieza e perspicácia em esconder sua conturbação. Disse então:

– Observei-a desde cedo quando, fazendo minhas compras, perambulava pela calçada com a mão estendida e com os olhinhos lacrimejados. Aproximou-se um senhor e deu-lhe duas notas. Outra, uma mulher acompanhada de seus rebentos, deu-lhe moedas que pareciam de alto valor. Outras crianças, ainda, deram notas e moedas à pobre menina, que momentaneamente exerceu um sorriso complacente e delicado. Mas a menina continuava com seu rosto tristonho. Outro senhor, agora com vestes mais finas, ofertou-lhe alimentos e a menina, esbaforida, tornou a comer festejando a caridade, agora de olhos fechados ao degustar a beleza de uma culinária que há tempos não apreciava. Porém, nada além que relembrando de sua condição inicial, tornou-se a sentar em tristes pensamentos. A mão estava estendida novamente. Pessoas continuavam a lhe dar mantimento.

– A que ponto queres chegar? – disse o amigo irritado. Procedeu Túlio:

– Contar-lhe-ei, caro, a minha análise sincera. Vejo-a então escorada na sarjeta e eis que as crianças se aproximam delicadamente, já com as notas e moedas em mãos. Atenta ao fato, a pobre menina na sarjeta não expressa qualquer reação promocional ou de contentamento explícito antes do necessário; como que prevendo o ato, visualizando sua inevitabilidade, mantém-se estagnada com o olhar inalterado ao nada, ainda com a mão estendida. Aproximadas as crianças, a menina em seu olhar fixo abre levemente a mão e controla-se para que não explicite qualquer reação que lhe custe sua depressão; caem-lhe as notas e as moedas, e a menina limita-se a sorrir delicadamente, mas não antes sem notar se outros pedestres notavam a cena. A menina percebe que ninguém, absolutamente ninguém notara a última caridade! O que faz ela? Coloca as moedas e notas ao bolso, esfrega as mãos ao chão e põe-se do sorriso à tristeza, com os dedos agora deveras sujos cujo caráter transmite a ausência de qualquer que seja a ajuda peticionada. O velho em terno inglês oferece-lhe alimento. Bom alimento, por sinal, pois charutos árabes não se acha em qualquer lugar. Limpara as mãos com seu pano já umedecido, porquanto a menina que antes pedia por dinheiro delicia-se com o alimento, mas não sem antes escorar-se debruçada sobre o prato. Ajeitara os cabelos. “Por que esconder o alimento?”, pensaria o mais ingênuo, porém é inconcebível que o mantimento ofertado pelos transeuntes se limitasse tão somente à alimentação imediata. As mãos, ainda limpas, novamente se esfregam ao chão e tornam-se a pedir pelas esmolas. A histeria mudara à tristeza, a felicidade do alimento deu lugar aos pequenos braços estendidos, as mãos novamente sujas, os olhos retos que contemplavam abstrações. Quero lhe explicar algo, meu caro: a menina que ali empulha as mãos, cujo rostinho delicado implora por manutenção, pode ensinar os conceitos mais elevados da arte ao mais nobre intelectual terreno, certamente pode confundir os sábios das sinagogas e fazer chorar o mais rude. Nas ruas, aprende-se o teatro nunca ensinado pelos mestres e saiba que não escondo minha indignação. Estar nas ruas é estar mergulhado na indiferença e conceber que mecanismos piedosos são inevitáveis, senão obrigatórios. Por que tamanha surpresa? Se há, caro, algo que me fascina é a perspicácia dos pequenos. Ao olhar tênue eles o consomem inteiramente, deixando-o à mercê ou da vergonha, ou da covardia; fazem-no coadjuvante no palco e, ao final, ditam-no carrasco ou santo. Aquela menina ali sentada tem o poder em acusá-lo o pior dos homens ou o mais belo dos anjos; é ela quem pode em um instante mínimo assolar seu caráter e apontar-lhe como responsável de sua condição existencial. A menina é a vítima, e nada há que fazer para mudar tal acusação: já és réu culpado submetido tão somente às indulgências. Negue-lhe o pão, e estarás assinando sua sentença definitiva. Serás ditado o cruel e tirano opressor que não se rende à dissimulação da pobre e inocente criança.

O colega preferiu o silêncio. Aturdido, retirou-se a passos leves.

O leproso lambe suas chagas

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Afinal, por que um sujeito tem fé na Bíblia? Tem porque acha que ela é a Palavra de Deus. Mas por que ele acha que ela é a palavra de Deus? É porque tem fé nela? Esse círculo vicioso exigiria uma capacidade de aposta no escuro que transcende os recursos da média humana. A fé não surge do nada, muito menos da própria fé. É preciso um indício, um sinal, um motivo racionalmente aceitável para acender na alma a chama da confiança em Deus. A definição mesma da “fé” como crença numa doutrina é perversão do sentido da palavra. A doutrina cristã formou-se ao longo dos séculos. Os primeiros fiéis confiaram em Jesus antes de saber nada a respeito dela. Não acreditavam numa doutrina, confiavam num homem. E por que confiavam nele? Ele próprio explicou isso. Quando João Batista, da cadeia, manda perguntar se Ele é o enviado de Deus ou se seria preciso esperar por outro, Jesus não responde com nenhuma doutrina, mas com fatos: “ Vão e contem a João as coisas que vocês ouvem e vêem: os cegos enxergam, e os paralíticos andam; os leprosos ficam limpos, e os surdos ouvem; os mortos são ressuscitados, e os pobres recebem boas notícias. E bem-aventurado é aquele que não se ofende comigo .” O que esses versículos ensinam é que a fé é apenas a confiança em que Aquele que devolveu a vida a alguns mortos pode devolvê-la a muitos mais. É um simples raciocínio indutivo, um ato da inteligência racional fundado no conhecimento dos fatos e não uma aposta no escuro. A única diferença entre ele e qualquer outro raciocínio indutivo é que a conclusão a que ele conduz traz em si uma esperança tão luminosa que toda a tristeza e o negativismo acumulados na alma se recusam a aceitá-la. A alma prefere apegar-se à tristeza e ao negativismo porque são seus velhos conhecidos. São a segurança da depressão rotineira contra o apelo da razão à ousadia da confiança. O que se opõe à fé não é a razão, é a covardia. Para legitimar essa covardia ergueram-se masmorras de pseudo-argumentos. No fundo delas, o leproso lambe suas chagas, o cego adora sua cegueira, o paralítico celebra a impossibilidade de caminhar. Os pobres, imaginando-se reis e principes, festejam a rejeição da boa notícia. Orgulhosos da sua impotência, adornam com o nome de “ciência” a teimosia de negar os fatos.

Minha mensagem de Natal a todos os desvalidos

A minha relutância em escrever sobre datas específicas é a mesma em tentar definir a misericórdia segundo os Evangelhos. Se o Natal é a data que provém de uma concepção religiosa cristã, alastrando-se aos quatro cantos do mundo ainda que pela máscara da bondade, é inevitável dizer que dia após dia, ano após ano, década sobre década o Natal tem se esvaído para se curvar às benesses do pietismo coletivo. Isso significa que, sim, a tentativa da humanidade em propagar o Natal tal qual a materialização inafastável da piedade é um dos fatores de deformação de seu significado principal, inevitavelmente submetido a Jesus Cristo.

Brota nos corações a mais íntima compaixão, a caridade aflora-se como algo imanente de suas personalidades, palavras e gestos de carinho são proferidos e distribuídos desmedidamente, e sorrisos são externados temporariamente a todo e qualquer bem-feitor.

Famílias se reúnem e desafetos são esquecidos.  Relembram-se das antigas virtudes e todos os defeitos são abandonados. Irmãos contra irmãos temporariamente batalham pela restituição da convivência. Amigos merecidos em seu desprezo são citados como exemplo de altruísmo e conservação do relacionamento.

Indivíduos patéticos são convidados à mesa, e dá-se a eles outra chance dissimulada de reconciliação. Doações são obrigatórias, mas não menos justificadas: “ajude, e será recompensado”.

O Natal é abandonado e o altruísmo é a regra.

A não ser que você tente me convencer que o espírito natalino é o espírito do exercício das virtudes inexistentes.

Descarnada América Latina

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Hoje, em que pese a suposta derrocada da União Soviética e a queda do Muro de Berlim, além da falência de Cuba e o assentimento da China ao capitalismo de Estado, o “pensamento” de Marx, contra todas as evidências da insensata experiência comunista, permanece ativo e continua a causar estragos e até a apresentar-se como “hegemônico”, sobretudo no espaço retardatário da descarnada América Latina. É puro nonsense, mas pelo menos no Brasil é inquestionável a supremacia da dogmática marxista, pois o país tornou-se o espaço vital onde milhares e milhares de militantes esquerdistas, comandada por uma máquina bem-azeitada e nutrida nos fundos públicos (com recursos subtraídos a muque do bolso do trabalhador e dos empresários contribuintes), atuam sistemática e proficuamente dentro do aparelho do Estado, nas cátedras, parlamentos, púlpitos, quartéis, tribunais, mídias, associações civis e militares, sindicatos, prisões, ONGs, palcos, telas e até prostíbulos, com o objetivo único e irreversível de “socializar” a nação. Tal qual uma Cuba ou Coréia do Norte, o Brasil consolidou a imagem de ser uma economia das mais centralizadas do planeta, onde nada se faz sem o beneplácito do governo.

Assim é um líder

O líder é um canalha. Dirá alguém que estou generalizando. Exato: estou generalizando. Vejam, por exemplo, Stalin. Ninguém mais líder. Lenin pode ser esquecido, Stalin, não. Um dia, os camponeses insinuaram uma resistência. Stalin não teve nem dúvida, nem pena. Matou, de forma punitiva, 12 milhões de camponeses. Nem mais, nem menos: – 12 milhões. Era uma maravilhoso canalha e, portanto, o líder opuro.

E não foi traído. Aí está o mistério que, realmente, não é mistério. É uma verdade historicamente demonstrada: – o canalha, quando investido de liderança, faz, inventa, aglutina e dinamiza as massas de canalhas. Façam a seguinte experiência: – ponham um santo na primeira esquina. Trepado num caixote, ele fala ao povo. Mas não convencerá ninguém, e repito: – ninguém o seguirá. Invertam a experiência e coloquem na mesma esquina, e em cima do mesmo caixote, um pulha indubitável. Instantaneamente, outros pulhas, legiões de pulhas, sairão atrás do chefe abjeto.

Mas, dizia eu que Stalin não foi traído, nem Hitler. O Führer, para morrer, teve de se matar. (Nem me falem do atentado dos generais grã-finos. Há uma só verdade: – nem o soldado alemão, nem o operário, nem o jovem, nem o velho, traíram Hitler.) E, quanto a Stalin, ninguém mais amado. Só Hitler foi tão amado. Aqui mesmo, no Brasil. Bem me lembro, durante a guerra, dos nossos stalinistas. Na queda de Paris, um deles veio-me dizer, de olho rútilo e lábio trêmulo: – “Hitler é muito mais revolucionário que a Inglaterra”.

Sim, o que se sentia, aqui, por Stalin, era uma dessas admirações hediondas. Eu via homens de voz grossa, barba cerrada, ênfase viril. Em cada um dos seus gestos, a masculinidade explodia. E, quando falavam de Stalin, eles se tornavam melífluos, como qualquer “travesti” do João Caetano ou do Teatro República. O que se sentia, por trás desse arrebatamento stalinista, era um amor quase físico, uma espécie de pederastia idealizada, utópica, sagrada. Com as mandíbulas trêmulas, uma salivação efervescente, os fanáticos chamavam o Guia de “o Velho”. E essa paixão era de um sublime ignóbil.

Já o Czar foi o antilíder. Há um quadro russo da matança da Família Imperial. (A pintura de lá, tanto a czarista, como a soviética, é puro Osvaldo Teixeira.) Eis o que nos mostra a tela: empilhados, numa bacanal de defuntos, o Czar, a Czarina, as princesinhas, etc., etc. Uns por cima dos outros, e cravejados de bala. Os soldados receberam a ordem e estouraram a cara dos velhos, das mocinhas, dos meninos. Mas não vamos assumir, aqui, nenhuma postura sentimental. Eis o que importa diser.

Na véspera de morrer, o nosso Nicolau entretinha-se na redação do seu diário. Fazia diário como qualquer heroína da Coleção das Moças. Reparem no antilíder, no anti-rei, no antitudo. No dia seguinte estariam à mostra os intestinos dele mesmo, as tripas da mulher, dos filhos, dos sobrinhos, dos netos. Mas ele não teve nenhum sentimento da morte. No jardim havia um “lago azul” como o da nossa canção naval. E, lá, dois ou três cisnes deslizavam mansamente. Um mundo já morria e outro ia nascer. E o Czar estava fascinado pelos cisnes, e a última página do diário era a eles dedicada. Um homem assim teria de ser exterminado a bala ou a pauladas, como uma ratazana.

Alguém lembrará a figura de Kennedy. Era um líder que preservava um mínimo de humanidade. Mas não era líder. Lembro-me da babá portuguesa da minha garotinha. Ao ver o retrato de Kennedy, gemeu com sotaque: – “Bonito como uma virgem”. Era um líder de luxo, isto é, um antilíder. Ao entrar na política, o pai, outro aristocrata, deu-lhe um cheque de um milhão de dólares. E mais: – Johnny casou-se com Jacqueline. E a mulher bonita é própria do falso líder. Nem Stalin, nem Hitler, fariam essa dupla concessão ao sentimento e ao sexo. Reexaminem toda a vida de Kennedy: – não foi, em momento nenhum de sua história e de sua lenda, um canalha. E não soube fazer pulhas para juntá-los em torno de sua liderança.

Pensem no pacto germano-soviético. Todos os que o aceitaram ou que ainda hoje o justificam eram e são perfeitos, irretocáveis canalhas. De um só lance, Stalin e Hitler degradaram toda uma época. Eis o que desejo ressaltar: – faltava a Kannedy essa capacidade de aviltar um povo. Ao passo que Stalin fez seu povo à imagem e semelhança da própria abjeção. Mas foi na morte que Kennedy demonstrou a ineficácia e falsidade de sua liderança.

O líder não morre antes, nem depois. O derrame escolheu a hora certa para matar Stalin. Hitler meteu uma bala na cabeça no momento justo em que precisava estourar os miolos. Waterloo aconteceu quando se esgotou a vitalidade histórica da era napoleônica. Se Lenin vivesse mais quinze dias, seria outro Trotski. E Kennedy caiu antes do tempo, morreu quando não tinha que morrer. Imaginem um cristo morto de coqueloche aos três anos. Não seria Cristo, não seria nada. Kennedy morreu ao lado da mulher bonita. E, de repente, veio a bala e arrancou-lhe o queixo, forte, crispado, vital. Restava tudo por fazer; o horizonte da reeleição abria-se diante dele. Esta morte antes do tempo mostrou que Kennedy não era Kennedy. O amor que lhe consagramos é um equívoco.

Falo, falo, e não sei bem por que estou dizendo tudo isso. Agora me lembro, Eu disse algo parecido ontem, num sarau de grã-finos. Não achem graça. Aprende-se muito no grã-finismo, e repito: certos grã-finos têm um sutil faro histórico, diria melhor, profético. Sentem, por vezes, antes dos outros, o que eu chamaria “odor da História”. E um desses estava-me dizendo, num canto, com uma convicção forte: – “Vai haver o diabo neste país”. Disse e fez um “suspense”. Instiguei-o: – “O diabo, como?” E ele, misterioso: – “Você não sente que vem por aí não sei o quê?” Esse “não sei o quê” era pouco para a minha fome. O grã-fino punha mais gelo no copo. Insinuou: – “”Há muita insatisfação”. Ainda era pouco. E eu queria saber, concretamente, o que vinha por aí. Perguntei: – “Sangue?” E o outro: cara a cara comigo e um ar de quem promete hemorragia nacional inédita: – “Sangue”.

Todavia, o “suspense” continuava. “Sangue”, dissera ele. Mas, quem ia derramar o sangue, e que sangue? Ainda olhei para os lados, como a procurar, entre os convidados, um possível Drácula. Quando, porém, o grã-fino falou em “esquerda”, a minha perplexidade não teve mais tamanho. Recuei dois passos avancei outros tantos e perguntei: – “Você acredita na nossa esquerda? Nessa que está aí?”

Ele acreditava. Então perdi a paciência e falei sem parar, Quem ia mudar qualquer coisa neste País? A esquerda tem um canalha para exercer uma liderança concreta e proveitosa? Senhoras entraram no debate. Fez-se, ali, uma alegre pesquisa de pulhas. Mas os canalhas lembrados eram, ao mesmo tempo, imbecis. E o que a história pedia era um crápula com seu toque de gênio. Em suma: não ocorria aos presentes um nome válido. A última palavra foi minha. Disse eu mais ou menos o seguinte: – enquanto a esquerda que aí está não for substituída até seu último idiota, não vai acontecer nada, rigorosamente nada.

Nelson Rodrigues