No que capitalistas e socialistas concordam

Se há um consenso que reúne e fundamenta toda e qualquer teoria econômica desde o século XVI, impelindo reformas político-econômicas, perfazendo a imaginação de um mundo imaculado onde seus habitantes estariam subjugados à perfeição moral e igualitária, construindo a mentalidade do Progresso Eterno, é aquele que exclui ou penaliza o indivíduo que, podendo, não produz; e, apto ao trabalho, implora por regalias permanentes de ordem financeira.

A censura a tal comportamento, degradante em suas premissas filosóficas e impensável no âmbito econômico, é de tamanha pertinência sociológica que sequer nos regimes de insistência anti-meritocrática, estancados na mera objetivação da força de trabalho, as regalias econômicas eram vistas como de saudável sustentabilidade e submersas no brocardo marxista da paridade entre trabalho e produto, labor e obtenção inafastável de seus resultados, ainda que destituídos da concepção do lucro e investimento capitalistas.

Se no Capitalismo “não há almoço grátis”, no Socialismo “não há comida para quem não trabalha” no que se refere às rações alimentares rateadas àqueles que participavam do “processo revolucionário industrial”. Se no Capitalismo o trabalhador é visto como partícipe na construção econômica de geração de riqueza, no Socialismo o “proletário“ é agente atuante na manutenção perpétua do progresso igualitarista, no qual são escamoteadas as condições que viabilizam o crescimento do processo revolucionário.

Tal realidade de regalias pagas por seus concidadãos se concebe em tamanha destrutividade social que sequer o indigente, como indivíduo que geralmente está mergulhado em decadências pessoais e vícios de toda sorte, é definido em paridade para com aquele que tem os meios de sustento próprio, mas que não o faz por saber que outrem, impelido pelo Estado, prover-lhe-á subsistência. A mendigagem, do contrário, é geralmente tida como decorrente de fatores externos que retiram do inapto qualquer chance de labor e subsistência, porque o mesmo se encontra incapaz de coadunar sua atual condição produtiva com as condições minimamente exigidas pelo mercado.

O desprezo inevitável ao viciado considera, antes, a performance de hábitos socialmente reprováveis e que são, à sociedade, exemplos a não serem perseguidos; quando menos, indivíduos a serem amparados por atividades caridosas individuais. O indigente, ainda que menosprezado, dificilmente será tratado como agente que se submete às rédeas do Estado para auferir benefícios esparsos, pois que, do contrário, é ele ignorado até mesmo nas concepções essenciais do estatismo assistencialista. O indigente é economicamente inócuo, e basta a provisão de meios que estejam relativos à sua capacidade produtiva para que, como em um relance de virtude, superados os vícios, a mendigagem seja imediatamente abandonada e tida como passado de vergonha a nunca mais ser vivenciada.

Opostamente, o indivíduo que se beneficia do assistencialismo estatal é antes menosprezado não por sua real incapacidade de manutenção de subsistência, mas pelo real entendimento de que, não laborando, ter-se-á em mãos as verbas providenciadas pelo sujeito produtivo, que fora anteriormente coagido pelo Estado a transferir de seus rendimentos valores ao beneficiado. Este, observado pela sociedade como um edema, faz-se constantemente a célula do processo cancerígeno que perpetua na sociedade toda sorte de discrepâncias não somente políticas, mas também de cunho moral.

O desprezo pelo beneficiado por programas de assistência estatal não é em vão: ele há de ser socialmente execrado e naturalmente julgado por seus próximos tal qual aquele que vergonhosamente usufrui das benesses do labor alheio, visualizado como a decadência personificada que com cinismo particular exige respectivos direitos ausentes de deveres. Esse processo, que está em sua fase originária e que ainda não encontrou ressonância na opinião majoritária, começa somente agora a se alastrar para o que parece ser um dos poucos pontos possíveis de reunião de movimentos anti-coletivistas, os quais se antes eram sequer rememorados, atualmente estão em expansão exponencial.