Da incompatibilidade entre socialismo e absorventes

Era uma terça-feira. Deleitado nas palavras de um professor, escutava atentamente acerca de todas as concepções inimagináveis de dominação global por parte do Império do Norte. As exposições, que eram realmente interessantes e proporcionavam toda sorte de sentimentos nacionalistas, muitas vezes enveredavam a caminhos dos mais obscuros e genéricos, os quais de certo estavam a corroborar a decadência da civilização sul-americana pelas mãos e forças estrangeiras. O medo lhe era sincero. Faltaram-lhe apenas as lágrimas. Mas como todo discurso político chamuscado pelo ensino pedagógico, o mestre em História alegou veementemente que, além da opressividade militar, havia por bem a redescoberta da opressividade às minorias, estas que vítimas de um sistema lutavam incessantemente contra as nuances de outras dominações.

Falava o professor do feminismo.

Piou tarde o educador que na sobriedade afirmava também questões de cunho religioso. Poliglota de todas as facetas científicas e educador que entendia de todos os conceitos basilares de repressão, o professor era, disons simplement, um dos grandes marxistas da instituição de ensino, que alheia às perspectivas de profissionalismo negava-se a ensinar outras línguas que não aquelas provindas dos grandes revolucionários.

Piou tarde, porquanto em mesmo dia, dignificado o mestre com certo debate a ser conduzido pela Diretoria, apresentou a seus alunos o que seria a introdução de algo que estaria por se revelar intensamente pertinente.

Entram ambos debatedores; o outro,  não conhecido por nossa juventude, nos parecia caracteristicamente, conforme os ditados do mestre, um reacionário. Enquanto um no jaleco, o outro ao terno; enquanto a barba avantajada, ao outro a lisura do formalismo. O debatedor, que já de antemão mostrou-se o rival de antecessoras concepções libertárias, resumiu em condolências suas próximas palavras, pois que a temática exigida pela diretoria ao debate era nada além que “O Feminismo e a Opressão do Capitalismo Cristão”.

Nada mais sutil.

Os argumentos debruçaram-se sobre os alunos ali presentes, porém a nós o conforto da alegação da opressividade caía como luva a todo o momento em que o mestre, já não instruído nas palavras, alegava que em tudo devemos ter em mente que o sistema, o Cristianismo Capitalista, sempre trabalhara na justificativa do opressor ante o oprimido. Assim, citou a Epístola de Tiago tal qual um grande teólogo agostiniano. Citou a Bíblia o desceu levemente a estaca de suas palavras finais, aparentemente irrefutáveis.

“Permita-me um vídeo?”, retrucou o reacionário de vestimenta pomposa. “Claro”, respondeu o Diretor.

O vídeo mostrava inicialmente o feminismo como a bela organização declaradamente reprimida pelo falo masculino, e nada mais condizente que, ao espanto de todos, fosse a nós mostrado as manifestações ativistas de mulheres determinadas. Com sutiãs em mãos, rasgavam-no com fúria ao ponto de causar em nós, plateia, o genérico sentimento de que por uma causa vale-se a demonstração de irritabilidade desmedida, pela qual também nos deparamos semanalmente com o mestre de ensino histórico. Contudo, como que ao virar de uma página e sem quaisquer palavras, ausentes quaisquer sussurros ou comentários editados, eis que adentramos na bela e glamourosa Rússia, precisamente Moscou, A Capital, ofertada inicialmente em todo seu esplendor.

Percebemos a agitação corporal de nosso mestre.

Perambulando o indivíduo, a conversa por ele criada com diversas meninas e mulheres, de todas as idades, definiu os liames de uma necessidade básica e que, tal como os sutiãs, foram também dilacerados. Necessitadas n’A Capital, e induzidas por uma única pergunta, as mulheres e meninas, de todas as idades, explicaram como solucionavam suas dependências fisiológicas ante a menstruação mensal: papéis de jornais extremamente bem posicionados e que, antes umedecidos, conseguiam estancar, às vezes com pequenos acidentes, o sangue que escorria.

“Não há absorventes na Rússia”, disse uma das mulheres. “Se quiser comprá-los, tem de ir à Europa Ocidental ou consegui-los no mercado negro. Mas lá são muito caros”.  O homem, filmando, então estendeu a uma delas um pacote de absorventes descritos em inglês, que proporcionou sorrisos àquela que, no seio do igualitarismo, não conseguira ter acesso a algo que na terra das bravas mulheres determinadas era objeto de descarte diário.

O vídeo encerrou-se. Encerraram-se na plateia o triunfo que antes vislumbrara no mestre educador o inevitável vencedor do debate.

Não foram proferidas palavras por nenhum dos debatedores, e o Diretor limitou-se a despedir-se alegando a pertinência do “pluralismo de ideias”. A plateia, formada por alunos, retornou às salas de aula e por semanas comentou-se o ocorrido. Por semanas comentou-se a fisionomia de nosso mestre; por meses, seu silêncio ante questões que eram já previsivelmente elencadas.

Por um único debate, em um único vídeo que retirou das palavras as imagens do contraste e do antagonismo, assim o mestre pedagogo, desconcertado e incapaz de dizer o que antes afirmava, diariamente ridicularizado pelas lembranças de um debate escolar, diariamente tido como preletor de um debate que se tornou um fiasco institucional, preferiu a transferência a outra instituição.

Não se ouviu mais, posteriormente, nenhum dos argumentos utilizados pelo professor. Antes avisados, os futuros mestres pareciam desconfiar que, a qualquer palavra e a qualquer doutrinação, ser-lhes-iam lembrados o debate de terça-feira, em que o formalismo reacionário encerrou sem palavras a temática que definiria as veredas de estudo daqueles que lá presenciaram as imagens d’A Capital.

Imagens estas que ainda são contadas e rememoradas, anos depois.