A doutrinação cristã

A relativização metodológica, que veio a criar o relativismo como método, insere nos aspectos intelectuais a devida desconsideração do alicerce das estruturas de pensamento. Se está a se falar constantemente que o homem pós-moderno, conquanto coletivista, anseia igualmente reafirmações de teses amplamente massificadas (ou seja, teses sob o domínio comum), contrariamente a tal caráter é o filósofo que, em sendo minoria, estuda e nega as perspectivas coletivistas para afirmar a Filosofia como fenômeno que emana tão somente do indivíduo em sua consciência individualizada.

Ocorre que a massificação intelectual filosófica abrange não somente a Filosofia em seus métodos, mas também a Teologia como a sistematização dos estudos decorrentes da religiosidade; inexiste pior degradação doutrinária que aquela vinculada à pretensa intuição do estudo teológico pelas vias do relativismo metodológico. E se há intelectualidade que não está envolvida no domínio comum é a Teologia Cristã.

Por isso, desde já afirmo que o relativismo conceitual que degrada a todo momento os estudos doutrinários cristãos se respalda e se alimenta da fragilidade e firmeza filosóficas a que abandonaram, diariamente, os grandes doutrinadores cristãos da atualidade. Se a Filosofia traz o esclarecimento, também faz-se as sombras da prostituição dos métodos em suas virtudes e desgraças irrefutáveis.

Ao observar a Teologia em seu atual estágio decadente, soçobrando as migalhas de teses ultrapassadas e arcaicas, constato sua incapacidade rasteira de produzir novidades sem inevitavelmente recostar-se na estrutura do relativismo. Isto porque o relativista promove o inédito pelas veredas do desconstrucionismo, as quais são permeáveis por toda sorte de vício intelectual ao ponto de retirar do indivíduo a responsabilidade pelas palavras proferidas e ativismos defendidos, o que lhe imputa, após, a irresponsabilidade intelectual acovardada, mas não mais denunciada.

Denunciá-la, contudo, indicando-a o fenômeno da decadência civilizacional, é tomar partido de uma minoria silenciosa e estagnada que não consegue por esforços isolados desmitificar a irresponsabilidade intelectual relativista, que é nada além que o retorno aos sofismos em sua estrutura basilar da qual brotam toda sorte de ideias interpostas, mas desconstituídas de substância filosófica. A Doutrina não escapa ao fenômeno. Não se distancia da degradação. Está inevitavelmente forçada a considerar a relevância filosófica, que se não contaminada pelo edema do relativismo sofismático se faz o amparo a métodos que, antes de serem teses, são escalonamentos de aniquilação da intelectualidade basilar.

A doutrinação cristã perde seu caráter plausível no seio religioso se não está apta a afirmar veementemente seus fundamentos mínimos e inasfatáveis, os quais são desprezados pelo relativismo metodológico, mas que permite, ainda, novidades interpretativas de validades litúrgica e teológica. O rito e a sistematização do culto por decorrência de pressupostos teológicos elevados são impossíveis se não há a aproximação entre indivíduo cristão e a individualização doutrinária por meio da Teologia, esta proferida por fontes isoladas e descontaminadas da irresponsabilidade intelectual.

Terminologias coletivistas que inferem na Teologia o âmago de tendências massificantes decorrem da inércia filosófica que, se insistente, perfaz em toda a estrutura da cristandade a ruína gradativa e imperceptível de seus conceitos espirituais essenciais.

E retirada a essência, aniquila-se a Fé.

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Pensamentos latinos

A melhor forma de suplantar o desenvolvimento filosófico através da reafirmação constante de chavões niilistas é citar Nietzsche em uma revista filosófica. Se houve a tendência em engrandecer o filósofo como “aquele que destruiu o pietismo”, na atualidade tupiniquim, nas fronteiras onde o filósofo professor universitário é sustentado pelo Estado, nos recônditos da defasagem vergonhosa perante a universalidade estrangeira temos Nietzsche como aquele que “promove o igualitarismo, a justiça, a denúncia da religiosidade da burguesia elitista”.

Reunidos e humilhados pela derrocada da causa relativista como padrão metodológico intelectual, os pensamentos latinos que se denominam filosóficos – dentre os quais se apresentam humildemente sociólogos, psicólogos, juristas e teólogos -, submetem-se e restringem-se a teorizações meramente casuísticas, de cunho medianamente previsível e que tende a aspirações politicamente corretas.

Você não verá, caro leitor, a análise econômica da obras de Ludwig von Mises, sequer ponderações filosóficas dos aspectos anticoletivistas de Milton Friedman ou considerações acerca de Ayn Rand; o que ser-lhe-á ofertado, caro leitor, é a análise e tão somente a análise da “aberração astrológica de Aristóteles” ou, além, a “função libertadora do sadomasoquismo como instrução à repressão sexual conservadora”.

Bons resultados

Tal fraseologia é necessária se alguém quer nomear as coisas sem trazer à tona as imagens mentais a elas associadas. Pense, por exemplo, em um professor inglês, do alto de seu conforto, defendendo o totalitarismo russo. Ele não pode dizer às claras: “Defendo o assassinato de seus oponentes quando se pode obter bons resultados com isso.” Por isso, é bem provável, ele diria algo assim:

“Enquanto é senso comum que o regime soviético exibe certas características que os humanitários talvez estejam inclinados a deplorar, devemos, creio eu, concordar que um certo cerceamento dos direitos políticos dos opositores é uma inevitável concomitância em períodos de transição, e que os rigores que o povo russo foi chamado a suportar são amplamente justificados na esfera das conquistas concretas.”

George Orwell em Politics and the english language

Leitura classista

O perigo de um socialista tupiniquim basear sua leitura classista em obras americanas é desperceber acerca das contradições evidentes de uma sociedade que anseia, como água, ao funcionarismo público. O ódio à classe-média, que na civilização representa os indivíduos aptos ao consumo irrestrito, exigências qualitativas de produto e investimentos intelectuais crescentes, torna-se mera faceta da quimera revolucionária, quando não enxerga a realidade vinculada ao povo tutelado pelo Estado: a classe-média brasileira é, essencialmente, servidora governamental e por ele sustentado.

Desde já afirmo que em nada tenho contra ao funcionário público que honra a seu título. Contudo, assumir uma postura condizente ao cargo é o passo vital para que seja instalado o pensamento social do funcionarismo como um câncer que, se não contido, alastrar-se-á aos moldes europeus. Que sirva a seu labor, mas sabido que será socialmente reprimido, conquanto não gerador de riqueza faz-se antes o ralo da produção privada, esta de fato mantenedora da ordem econômica.

Belíssima a cena de certa atividade ocorrida nas terras do Império Opressor, quando foram negados aos funcionários públicos da Justiça Federal Americana participar de um evento sobre economia e investimento privados. Ora, não interessando aos tais o que é de cunho empresarial, e em sendo o funcionário público, além, aquele que adquire parte dos rendimentos empresariais pelas vias do imposto estatal, que lhes sejam dignificados os rótulos de personas non gratas ao recinto.

O indivíduo quando percebe a danosidade de determinado fenômeno coletivo imediatamente infere seus conceitos de reprovação, que se não reprimidos pelo Estado culminam inevitavelmente em humilhação social justificada. Tais quais aos funcionários públicos que representam a decadência do labor individual, aquele que adquire os rendimentos do assistencialismo há de ter as consequências vindouras irrefutavelmente segregacionistas, invariavelmente discriminadoras.

A equação de problemas globais

Assim, num mundo em que os problemas cada vez mais tomam uma proporção global e exigem que extrapolemos as noções de individuo ou de soberania nacional para uma ação conjunta, notamos ao mesmo tempo uma cultura fortemente narcisista baseada na imitação de estereótipos, como a busca pelo corpo perfeito ou pela riqueza sem esforço, explodindo em verdadeiras epidemias de depressão e suicídios, ou mesmo pelo sacrifício de nossos bodes expiatórios preferidos: seja por sua cor de pele no racismo, seja pela orientação sexual na homofobia, seja esmagando os mais fracos na luta abortista.

Portanto, a equação de problemas globais com cultura narcisista é uma bomba relógio que pode explodir a qualquer momento como, por exemplo, a conotação sagrada e religiosa em torno dos problemas climáticos entre alguns ambientalistas radicais no qual o meio ambiente é o bode expiatório moderno que endeusamos ao mesmo tempo em que o destruímos e destruímos a nós próprios. Nesse sentido, essa sacralização do meio ambiente é compreensível pois ele parece talvez o ultimo objeto disponível que toma um caráter religioso (na acepção clássica de religar) todos os homens em busca de um objetivo comum, que não desperte rivalidades e destruição. Em um mundo cada vez mais global teremos que descobrir o que realmente importa e o que desperta os bons sentimentos de todos os homens, para não vivermos um revival global do teatro da inveja.

Felipe Cherubin

O cristão perturbado

Escreve-me um leitor:

“Não imagino hoje o cristianismo desinfectado do pentecostalismo. A discussão chega a ser inócua, se realmente se espera que essas pessoas se retirem do âmbito da igreja reformada e construa sua própria parafernália teológica. De qualquer forma imagino que se o câncer do protestantismo é o pentecostalismo, o câncer do catolicismo é a Teologia da Libertação”.

A discussão é inócua mas necessária. O cristão perturbado em seus fundamentos percorre, a todo momento, diferentes círculos de crédulos que afirmam disparidades teológicas. Não importa ser esse cristão aquele que fundamenta a decadência do movimento evangélico: é este também o indivíduo crédulo que merece o desprezo da comunidade. De tal forma que se houve o ultrapassado e cansativo movimento pela anulação da Instituição, há agora a percepção de que o indivíduo cristão inconstante é também aquele que esfacela calmamente qualquer que seja a congregação sadia em sua profissão de fé.

Sua exclusão é inevitável, não pela Instituição, que nada pode fazer, mas pelos seus conviventes quando percebem nele a origem da animalização do cristianismo manifestado em ativismos de demência e negação da intelectualidade. É por tal motivo que, ainda, certas instituições conseguem  refrear e anular o movimento carismático; ao negá-lo, rejeitam a posterior e inevitável decadência intelectual de seus membros e, na tangente do problema, a decadência teológica basilar da instituição reformada.

Multiculturalismo

A pobretização e mendigagem dos conceitos de determinado mestre exaspera a sobrevalorização do modo de vida como fator inevitável à proximidade divina, ao tempo em que seus princípios e valores claramente definidos são relativizados em nome do multiculturalismo. O fenômeno da marginalização dos atos (diminuindo-se consequentemente os princípios proferidos) não é novo é já deturpou nomes e ícones sociais: Gandhi não será chamado antissemita senão por insistentes personagens irrelevantes, e Nelson Mandela continuará a não ser lembrado aquele integrou e engendrou organismos terroristas na África.

Assim Jesus Cristo tem seus princípios e valores diminuídos em nome de sua vivência econômica, de tal forma que indicar o Nazareno como destituído de recursos materiais credibiliza sua caminhada e flexibiliza seus próprios conceitos, transmutando-o de Filho de Deus a mero Revolucionário aos moldes já conhecidos, imputando ao cristianismo a finalidade máxima de, por meio do Mestre, divulgar a pobreza como virtude e condição sine qua non ao Reino de Deus. Jesus, como revolucionário, não pode ultrapassar o aspecto materialista de sua mensagem: o Reino de Deus há de ser constituído em Terra, diz-se.