Liberalidade caridosa

Bem define certos economistas que a caridade, enquanto forma individualista de expressão da piedade, é antes a expressão da autodeterminação do indivíduo perante aquele que há de merecer as indulgências da sociedade. Basta lembrar que em sociedades estritamente individualistas, as quais encontram-se em estado avançado de civilização, o conceito de caridade é reportado à liberalidade do indivíduo, que afasta imediatamente o Estado dos fenômenos sociais de manutenção do inapto.

Ocorre que, se está a falar das nuances da pobreza, fala-se também na deliberação social em face do fenômeno que rege a degradação da própria sociedade: o indivíduo que “exige caridade” (em oposição àquele que “pede caridade”) faz-se indivíduo que exige regalias amparadas pela ociosidade.

É nessa perspectiva que são diferenciados os indivíduos então pedintes e merecedores da compaixão humana, conquanto a sociedade oferta as mãos àquele que busca incessantemente prover o próprio sustento por meio do labor que gera, dentre outros fatores, a dignidade da independência que se alastra aos âmbitos econômico, político e moral.

Ora, se faço caridade, faço-a por deliberação inafastável e individualista, que percorre os critérios por mim gerados e que a mim somente pertencem. A ninguém é dado o sabor de exigir que minha liberalidade caridosa seja transformada em exigência a ser tutelada pelas vias estatistas.

Contudo, René Girard afirma que essa é a era do anticristianismo manifestado pelas formas do ultracristianismo. E não discordo. A característica daquele que tenta de todo modo suplantar a mensagem de Cristo é se tornar, gradativamente, o mensageiro de palavras que estão além do próprio Evangelho, imputando a agentes governamentais a finalidade moral da caridade individualista, que é não de outra forma a caridade cristã em si definida.

O homem caridoso somente perpetua os desígnios do Evangelho quando não coagido ao ato postulado. Do contrário, estar-se-ia perante a inépcia de sua vontade em face do assistencialismo que se traveste de vontade humana, mas que mostra a História ser a falácia da aniquilação dadivosa dos bens materiais; ou, em outras palavras, o início e gênese da aniquilação da vontade humana em dispor da caridade como e a quem implicar merecimento.