A criança

As mazelas da comunidade inferem inevitavelmente à destruição dos rastros de civilização. A pequena vila, então assombrada pela morbidade de seus transeuntes, apresentava em seu aspecto inerte agora o aspecto da decadência e dos odores cadavéricos, porquanto havia ainda as intenções da manutenção da ordem, da continuidade do mercado local, das aulas atribuídas aos mestres que rastejam procurando pelo alimento inexistente. A singeleza de suas praças e a ternura de seus jardins, irreconhecíveis, perpetrou o último lastro alimentar da região: evidente que as folhas aos dentes de seus habitantes não decorria da peste, mas da fome. Não obstante, observando o velho à criança apercebeu os contornos de algo humano em sua boca, dilacerado veementemente como o banquete diário e, além, encharcado pela cor viva do vermelho; a criança, já então agonizando pela febre cavalar, deliciava-se com os restos humanos que encontrara na venda, os quais deram-lhe ao menos a imaginação do alimento. Percebeu-se que as mazelas da peste não eram seus sintomas nefastos, sequer o desmantelamento familiar, mas a ausência de alimento que potecializada aflorava aos homens seus instintos primitivos de sobrevivênvia; a pequena menina alimentava-se por fome, e pela fome estava disposta a outras causalidades.

Carregada pelo velho, que retirou-lhe das mãos os restos arroxeados, limpou-lhe levemente o rosto, dando-lhe seu último suprimento de água.

– O que tens, menina, a fazer isso? – O velho tentava a conversa.

Mas não houve resposta. A criança, estancada em seus pensamentos, não apresentava reflexos, sequer esforçava-se a levantar os olhos. Pelo contrário, fechando-os levemente mas apertando os punhos do velho, suspirando pausadamente e com o rosto fixado ao chão, a menina trouxe a si as últimas forças existentes e também suas últimas lembranças: a mãe acariciando-lhe o rosto, o pai chamando-a para a escola. Ergueu a face àquele que lhe carregava, mas não suportou. Deitada e ainda manchada em vermelho, a criança, vestida aos trajes de princesa e de cabelos escuros, desvaneceu em suspiro, quase inaudível, porém sua sentença inafastável.