Liberalidade caridosa

Bem define certos economistas que a caridade, enquanto forma individualista de expressão da piedade, é antes a expressão da autodeterminação do indivíduo perante aquele que há de merecer as indulgências da sociedade. Basta lembrar que em sociedades estritamente individualistas, as quais encontram-se em estado avançado de civilização, o conceito de caridade é reportado à liberalidade do indivíduo, que afasta imediatamente o Estado dos fenômenos sociais de manutenção do inapto.

Ocorre que, se está a falar das nuances da pobreza, fala-se também na deliberação social em face do fenômeno que rege a degradação da própria sociedade: o indivíduo que “exige caridade” (em oposição àquele que “pede caridade”) faz-se indivíduo que exige regalias amparadas pela ociosidade.

É nessa perspectiva que são diferenciados os indivíduos então pedintes e merecedores da compaixão humana, conquanto a sociedade oferta as mãos àquele que busca incessantemente prover o próprio sustento por meio do labor que gera, dentre outros fatores, a dignidade da independência que se alastra aos âmbitos econômico, político e moral.

Ora, se faço caridade, faço-a por deliberação inafastável e individualista, que percorre os critérios por mim gerados e que a mim somente pertencem. A ninguém é dado o sabor de exigir que minha liberalidade caridosa seja transformada em exigência a ser tutelada pelas vias estatistas.

Contudo, René Girard afirma que essa é a era do anticristianismo manifestado pelas formas do ultracristianismo. E não discordo. A característica daquele que tenta de todo modo suplantar a mensagem de Cristo é se tornar, gradativamente, o mensageiro de palavras que estão além do próprio Evangelho, imputando a agentes governamentais a finalidade moral da caridade individualista, que é não de outra forma a caridade cristã em si definida.

O homem caridoso somente perpetua os desígnios do Evangelho quando não coagido ao ato postulado. Do contrário, estar-se-ia perante a inépcia de sua vontade em face do assistencialismo que se traveste de vontade humana, mas que mostra a História ser a falácia da aniquilação dadivosa dos bens materiais; ou, em outras palavras, o início e gênese da aniquilação da vontade humana em dispor da caridade como e a quem implicar merecimento.

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Lutando pela democracia; ou “Gabeira anuncia o óbvio”

“No caso da Dilma, existem diferenças na apreciação do que foi a nossa atuação”. […] “Todos os ex-guerrilheiros dizem que estavam lutando pela democracia. Mas se você examinar o programa que tínhamos naquele momento, queríamos uma ditadura do proletariado. Esse é um ponto de separação do passado. A luta armada não estava visando a democracia, ao menos não no seu programa”.

Fernando Gabeira

A essência da violência social

A essência da violência social é basilar na consideração do outro como objeto a ser mensurado dentre o coletivo. A partir do momento em que se observa seu oposto eventual inimigo ou parceiro social (portanto, dignificando-o com as características de alguém de valores), este lhe terá o respeito e você trará a ele a oferta comedida da respeitabilidade social.

Inexiste na sociedade a aniquilação da violência senão por dois métodos: ou o Estado elimina a violência afirmando-a ilegal e punível com penas capitais, precípua atuação socialista, ou o Estado deixa de mencionar o homem como ser tangente e submetido a seus afazeres; o que é, em outras letras, a instrumentalização do homem. E a principal forma em considerar seu oposto a ameaça ou eventual irmão social é visualizando-o por meio da célula familiar insubmissa ao Estado, que subjuga o outro ao tempo de trazê-lo ao jantar quando não mais é o símbolo do desmantelamento da ordem familiar.

Tal é o ato transmutado no pré-conceito necessário a toda ordem civilizacional.

Incitação demagógica

Mais aqui.

Também sabemos qual o procedimento-padrão da propaganda comunista para pintar o capitalismo como um regime genocida. O modelo foi fixado para toda a eternidade pelo Livro Negro do Capitalismo, de Gilles Perrault, resposta involuntariamente paródica ao Livro Negro do Comunismo de Stéphane Courtois. Convocado às pressas para abafar o escândalo dos 100 milhões de vítimas do comunismo produzindo como pudesse idêntico número de mortos do outro lado, Perrault descobriu um método infalível, constituído de dois itens. Primeiro: computou as mortes ocorridas em guerras internacionais, que Courtois excluíra propositadamente para concentrar-se na soma das vítimas civis assassinadas por seus próprios governos. Segundo: completando a fraude com o engodo, atribuiu ao capitalismo a culpa por todas as mortes ocorridas na II Guerra Mundial, na guerra civil da Rússia, na guerra do Vietnã, na guerra da Argélia e na guerra civil espanhola, rotulando como vítimas do capitalismo, indiscriminadamente, as populações dizimadas nesses conflitos pelas tropas comunistas, fascistas e nazistas. Para reforçar a soma, meteu nela até mesmo – santa misericórdia! – as vítimas do massacre de Ruanda, 500 mil mortos, todos eles sacrificados por incitação demagógica da “teologia da libertação”. Resultado: debitando-se na conta capitalista as violências cometidas pelos comunistas, o capitalismo se revelava mesmo um regime tão cruel quanto o comunismo, ou até pior, quod erat demonstrandum.

A natureza geme

Comumente autores marxistas inferem em suas palavras a relatividade dos significados, pretensamente a transmitir ao leitor certa aparência poética e de cunho relativista. Contudo se houve o expoente da técnica na década de 90, nos dias atuais ela se mostra evidentemente ameninada e, além, construída sobre a fragilidade e obviedade da dissimulação. Autores diversos, dentre os quais Paulo Freire, Boff e Gondim, tentam nos convencer de que choram todas as noites pelas vítimas do Estado africano, ou dos oprimidos pela religiosidade islâmica, vinculando constantemente a desgraça mundial localizada em regiões específicas como decorrente da ordem civilizacional cristã.

O que se iniciou como palavras de descontentamento agora faz-se as palavras da insistência poética do homem não-poético, aquele que atrela poesia e prosa poética a situações de total desconexidade entre significado e significante. Não favorecidos nos rodas literárias, julgam-se oprimidos pelo mérito capitalista que não enxerga nestes a dádiva indescoberta de expressar os sentimentos pelas vias do niilismo conceitual; ou, leia-se, o niilismo filosófico, que não se confunde com a Filosofia Niilista.

Ricardo Gondim nos apresenta algumas frases em seu Twitter, que as deixo eternizadas em ode ao pietismo:

Todos temos compulsão por alguma coisa; desejo ter compulsão por ambientes leves, estradas despretensiosas e amigos legais.

Algo ou alguém dentro de mim avisa que nasci para a beleza, para a poesia e para a vida…

Existe beleza escondida por aí ; eu tento capturá-la, mas ela é capciosa e foge de mim. Vou atraí-la com meus olhos tristes…

O que sinto quando levo pedrada? Dor. O que penso quando levo pedrada? Vontade de isolar-me.

Um meteoro se espatifou, o céu se coloriu e eu achei que tudo foi para mim; fogos de artifício que me ajudaram a celebrar a vida.

Ontem choveu luz e eu me encharquei de poesia.

O dito “não se discute futebol, política e religião” é certo. Os argumentos são emotivos, nunca racionais. Não discuto com fundamentalistas.

À beira de abismos, enfrentemos o medo de vertigem com olhos e coração sempre voltados pro anil celestial.

Base de apoio para a Globo é se dobrar ao PMDB? Precisamos despedir para sempre as oligarquias carcomidas que dominaram política nacional.

Nossos filhos e netos agradecerão por termos votado em Marina Silva.

Marina, a natureza geme enquanto espera que a gente crie juízo.

Consumo e liberdade

O consumo é a expressividade máxima de que o indivíduo pode, por meio do labor e de seu empenho ausente de estatismo, definir suas escolhas e delinear a qualidade e viabilidade de seu modus vivendi. O consumo se torna, portanto, a exteriorização irrefutável da liberdade fundadora, republicana e cristã, as quais construíram os conceitos iniciais de democracia como o método social da maioria competente à vida política. Aquele que infere a contrariedade ao consumismo e à sociedade de mercado coaduna, ainda que indiretamente, com o Estado que se põe apto a suprimir do indivíduo sua capacidade de escolha intransferível; inclusive politicamente.

Democracia totalitária

Por Fernando Gabriel.

Se a democracia no sentido constitucional não pode, por definição, ser totalitária, o mesmo já não é garantido sobre a corrupção hoje identificada como “democracia”. A sugestão de que as democracias contemporâneas estão a tornar-se totalitárias não é nova, mas poucos filósofos têm tratado o assunto com a seriedade que ele exige: Kenneth Minogue é uma excepção e no seu livro mais recente, “The Servile Mind” (New York, 2010) reflecte sobre a nacionalização democrática da vida moral. O princípio deste projecto político-moral foi resumido num proeminente ‘slogan’ dos anos 60: o pessoal é político. As práticas, as opiniões aceitáveis, o modo de educação dos filhos, a conduta sexual ou os hábitos alimentares são crescentemente submetidos à aprovação colectiva e o aparato de poder do Estado é utilizado para a imposição da conformidade com o ideal igualitário, produzindo uma homogeneização destruidora da tradição de criatividade do ocidente. É este ambiente que explica a naturalidade com que a modelo Giselle Bundchen exigiu recentemente a obrigatoriedade legal da amamentação. Nem os planeadores comunistas se atreveram a tanto, mas nas democracias totalitárias é mais provável que se discuta o “impacte” da medida do que se condene a obscenidade da sugestão.